Rádio Observador

Liberalismo

Obviamente, mais liberalismo

Autor
499

A afirmação de que tem havido um excesso de liberalismo em Portugal é mais ou menos como dizer que na Suécia se produz demasiado vinho, ou que a esquerda portuguesa é coesa e unida.

No debate político em Portugal, há argumentos bizarros. Alguns deles são repetidos de manhã, à tarde e ainda à noite na SIC Notícias. Parece que a repetição permanente desses argumentos lhes retira a sua natureza bizarra. Uma das ideias mais peregrinas diz-nos que houve um excesso de liberalismo nos últimos anos em Portugal. O liberalismo foi responsável pela crise, pelo empobrecimento do país, pela falência do grupo Espírito Santo, pelas dívidas da TAP, e por mais umas centenas de acontecimentos nos últimos anos. Até já ouvi um amigo meu benfiquista dizer que foi “o neo-liberalismo do mercado do futebol que levou à hegemonia do Porto nos últimos vinte anos” – isso e a “corrupção” naturalmente. A afirmação de que tem havido um excesso de liberalismo em Portugal é mais ou menos como dizer que na Suécia se produz demasiado vinho, ou que a crise agrícola no Pais de Gales se deve à seca, ou que a esquerda portuguesa é coesa e unida.

A maioria – talvez mesmo a totalidade – dos críticos trata o liberalismo como uma ideologia política. Os ataques ao liberalismo em Portugal mostram muito mais os preconceitos e os dogmas ideológicos de quem os faz do que eventuais problema das ideias liberais. O Observador não será a publicação adequada para um ensaio sobre o pensamento político, mas é necessário clarificar alguns pontos. O liberalismo não é uma ideologia política. Aliás, os autores liberais, em geral, sempre mostraram um horror enorme em relação às Ideologias políticas. Este ponto é essencial para se entender o liberalismo. O liberalismo é uma atitude perante a vida pública. Uma atitude onde se procura um equilíbrio difícil de alcançar, entre o cepticismo e o compromisso com a reforma. Como se consegue fazer as reformas mais adequadas à imperfeição da natureza humana? Eis a questão central do pensamento liberal.

O cepticismo em relação às intenções e aos interesses dos indivíduos constitui o ponto de partida das reflexões liberais. Os textos de Isaiah Berlin – um dos liberais mais interessantes do século XX – são um dos melhores exemplos do cepticismo liberal. Este cepticismo protege os liberais do perigo de excessivas expectativas em relação a qualquer líder político. Mas mais importante, impede que se acredite em ideologias políticas como respostas aos males do mundo. O cepticismo explica igualmente uma das tensões permanentes no pensamento liberal: o poder do Estado. Quem desconfia da natureza humana, não pode confiar inteiramente no poder do Estado. Como disse outro pensador liberal, Lord Acton, “se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.” No caso de Portugal, será caso para dizer se uma maioria corrompe, uma maioria absoluta corrompe absolutamente.

Por outro lado, os interesses egoístas, a ambição desmedida – traços definidores da natureza humana para um liberal – exigem instituições fortes. Esta tensão entre um Estado suficientemente forte para impor regras comuns e um Estado demasiadamente forte que possa ameaçar a liberdade nunca será resolvida com ideologias ou doutrinas. Só há duas respostas possíveis. Por um lado, a construção de instituições fortes, capazes de limitar o poder dos seus titulares. Por outro lado, uma cultura liberal que combata os privilégios e o arbitrarismo e que defenda o exercício da liberdade.

Na história do liberalismo, é possível identificar dois momentos distintos. O primeiro vai desde meados do século XVII até finais do século XVIII. Os traços centrais foram a luta contra os privilégios do Antigo Regime e a reforma de sociedades com profundas desigualdades históricas através do poder da lei. Foram estes os temas centrais de Locke e Montesquieu, de Hume e Adam Smith.

O segundo momento começou com a reação de Burke à Revolução Francesa e estende-se até aos ataque às ideologias totalitárias do século XX, onde os melhores exemplos são possivelmente Raymond Aron e Max Weber. Foi este segundo momento que provocou na tradição liberal uma grande desconfiança nas ideologias políticas – mas que já se adivinhava no cepticismo de Hume e de Kant.

Tradição é talvez a melhor palavra para definir o liberalismo. E, na minha opinião, o maior fracasso da história da democracia portuguesa foi a incapacidade para se construir uma tradição liberal forte. Se hoje estamos numa situação muito difícil, uma das causas foi o défice de cultura liberal – talvez o único défice superior ao défice financeiro. Portugal é um país onde continua a haver demasiados privilégios – que têm apenas contribuído para o enriquecimento de poucos e o empobrecimento de muitos – demasiada impunidade e um exercício do poder de um modo arbitrário, desde o nível local ao nacional.

É revoltante ouvir alguns que beneficiaram desses privilégios, dessa impunidade e que exerceram o poder de um modo arbitrário acusar o liberalismo pela desgraça que causaram ao país.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Liberalismo

Para o menino Adam Smith, uma salva de palmas!

Sérgio Barreto Costa
127

Adam Smith festejaria a 5 de Junho, se fosse imortal como as suas ideias, os seus 296 anos e por certo o faria na sua linguagem moderada, humana e carregada de empatia em relação aos menos afortunados

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)