Liberalismo

Sim, os liberais existem e defendem a tourada e a caça /premium

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Obviamente, não ocorre a Graça Fonseca fazer uma distinção entre as suas opiniões e o exercício do cargo de ministra, o que de resto mostra a sua impreparação para o lugar.

Nas últimas semanas, tem-se assistido a uma preocupação emocionante com o “estado” da direita liberal. Muitos dos cronistas que, durante os anos de Passos Coelho em São Bento, atacaram com um zelo feroz os “neo-liberais” lamentam agora o “fim da direita liberal.” Não se preocupem e poupem as lágrimas. A direita liberal está viva e recorre ao seu liberalismo para defender as touradas e a caça, actividades distintas da história e da cultura portuguesa.

Devo dizer que é muito raro estar de acordo com Manuel Alegre, mas desta vez concordo em absoluto com o nosso socialista conservador. Indignou-se, e cheio de razão, com os ataques da nova ministra da Cultura à tourada. E a indignação de Alegre resulta da sua defesa da liberdade, e este é o ponto central. Alegre reconheceu que o governo socialista, por vezes, ameaça a liberdade dos portugueses. Bem vindo ao clube dos liberais portugueses.

Devo dizer que não costumo assistir a touradas. Não sou um aficionado. Via quando era mais novo – quando os canais de televisão transmitiam touradas – e tinha uma grande admiração pela arte dos cavaleiros e pela coragem e valentia dos forcados. Julgo que nunca irei a manifestações a favor das touradas, mas sei muito bem que fazem parte da cultura e das tradições portuguesas. Um dia, trabalhava na Comissão Europeia, e participei numa discussão sobre as touradas em Portugal e em Espanha. Colegas meus, dos países do norte da Europa, descreviam a tourada como uma manifestação bárbara e não conseguiam entender como é que alguém que trabalhava em Bruxelas podia gostar de touradas. Se pudessem, proibiam as touradas em toda a Europa como um sinal de “progresso”. Não dei muita importância à opinião de suecos e holandeses, sobretudo porque a Comissão Europeia não tem o poder para acabar com as touradas (e espero que nunca tenha para bem da Europa).

Tudo isto vem a propósito da recusa da nova ministra da Cultura de reduzir o IVA das touradas, descriminando em relação a outros espetáculos. O mais extraordinário foram os argumentos usados para justificar tal decisão. Graça Fonseca recorreu a dois argumentos: a sua opinião pessoal sobre a tourada e a sua concepção sobre a ideia de “civilização.” Não evocou jurisprudência, não apontou ameaças à sociedade ou à segurança dos portugueses, nem citou estudos credíveis e independentes. A sua decisão está sustentada apenas na sua opinião. Do alto da sua arrogância e dos seus instintos totalitários, disse aos portugueses: “não gosto, não acho civilizado, por isso discrimino.” Obviamente, não ocorre a Graça Fonseca fazer uma distinção entre as suas opiniões e o exercício do cargo de ministra, o que de resto mostra a sua impreparação para o lugar.  Não deixa de ser irónico, e muito triste, que uma ministra que terá sentido o peso da discriminação não sinta qualquer problema em tomar uma decisão discriminatória.

Seria um erro julgar que esta intolerância ideológica se limita às touradas. O problema é a cultura política, anti-liberal, das esquerdas radicais. Hoje são as touradas, amanhã serão outras actividades. E aqui poderíamos perguntar por que razão pessoas de esquerda, como Manuel Alegre e outros (por exemplo, Miguel Sousa Tavares), não seguem uma linha consistente na relação entre políticas públicas e liberdade individual. Se a imposição de gostos civilizacionais, excluindo a tourada, é uma ameaça à liberdade, por que razão a imposição de políticas de educação e de saúde que limitam ou impedem as escolhas individuais, não é igualmente uma violação da liberdade? No caso da tourada, os argumentos de Alegre e de Sousa Tavares colocam a liberdade individual num patamar anterior e mais fundamental do que o poder do Estado. É uma posição tipicamente liberal. O pensamento socialista recusa essa visão, afirmando que compete ao Estado definir a liberdade individual, pela simples razão de que não olham para a liberdade como um direito natural. A condição natural é de exploração e de conflitos individuais.

Desconfio que a caça será o próximo alvo dos ataques das esquerdas radicais. Não caço, nem nunca cacei. Mas venho de uma família com caçadores e grandes apaixonados pela caça. Ouvi dezenas de histórias sobra caçadas e vi o entusiasmo genuíno de quem conta essas aventuras. Curiosamente o meu gosto pelo surf ajuda-me a entender o gosto pela caça. Uns apanham ondas, outros caçam animais. Mas o despertar cedo, por vezes ainda de noite, guiar pela estrada fora com amigos para encontrar as melhores ondas ou a melhor caça, partilhar as ondas ou os trilhos da caça e, depois, uma boa refeição e uns bons copos com os cúmplices do mar ou do campo, e o regresso a casa com aquela maravilhosa mistura de cansaço e satisfação; tudo isto é comum ao surfista e ao caçador. Só quem surfa, ou quem caça, é que sabe que se nos tiram isto, tiram-nos muito do que vale a pena na vida.

Mas este modo de viver nada diz às esquerdas radicais. Estão demasiado ocupadas a tentar conquistar o poder, para impor os seus gostos e as suas ideias aos outros. Esta gente constitui uma ameaça permanente à liberdade dos portugueses. A tourada e a caça são importantes, mas há outras coisas tão ou mais importantes, onde a nossa liberdade de escolha também está ameaçada. Seria óptimo que nessas questões, os socialistas que amam a liberdade estivessem ao nosso lado, ao lado dos liberais, em vez de nos acusaram de “neo-liberais.” Não tenham dúvidas, as esquerdas radicais, e algumas estão no PS, tudo farão para impor a sua ideia de ‘liberdade’ a todos os portugueses.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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