Pus-me a fazer uma pequena lista da coisas que mais me chamaram a atenção nestes últimos dias. É um velha e pueril expectativa que de vez em quando vem à tona: esperar que da conjunção mais ou menos arbitrária de acontecimentos surja alguma iluminação, para uso pessoal, sobre os tempos que vivemos. Infalivelmente, a expectativa não é satisfeita – e desta vez não houve excepção. Só há uma saída airosa neste tipo de situações: aceitar que o mundo é um lugar que se assemelha a uma manta de retalhos de cores, feitios e tamanhos diversos, cosidos com fio grosso muito visível. Aqui ficam alguns retalhos, com a vaga sugestão de uma ordem.

A desigualdade. Os argelinos recusam-se a ter como presidente alguém, Abdelaziz Bouteflika, que não fala em público há já cinco anos. Os portugueses às vezes fartam-se de um presidente que fala em público de cinco em cinco minutos. Conclusão: os povos são abençoados com políticos de natureza muito diferente uns dos outros. A questão é de saber se beneficiariam efectivamente com uma mudança radical de dieta. Nalguns casos, talvez. Tomemos o exemplo dos vigaristas. Nalguns países eles são particularmente mal vistos, noutros nem assim tanto. Em Portugal, por exemplo, algumas classes de vigaristas notórios são vistas, vá-se lá saber porquê, com olhos muito compreensivos pelo poder e adjacências senatoriais e culturais.  Talvez, de facto, vivessemos melhor sem certas ternuras inimagináveis noutros lugares.

A história da violência. Os “coletes amarelos” lá continuam a deixar atrás de si aos sábados um fio de destruição. Cerca de sete anos a viver em Paris chegaram e sobraram para não me surpreender com estas coisas. Um bom número de franceses, talvez por viver ainda no interior do mito da Revolução, adora a violência, sobretudo se ela implicar o confronto com a polícia – e o resto tolera-a durante muito tempo. As tropelias dos “coletes amarelos” estão aí para durar muito. Os neozelandeses são diferentes e ficaram estupefactos com a brutalidade do ataque de um australiano defensor dessa coisa supremamente idiota chamada “supremacia branca” à comunidade islâmica local. A violência é, à sua maneira, tautológica: diz-se a si mesma. E a violência racista é particularmente inominável, já que o racismo, tanto quanto a palavra “pecado” é susceptível de ser compreendida por todos, é o pecado por excelência. Gente como o homem de Christchurch deve ser implacavelmente perseguida por todos os meios. Já basta às nossas sociedades o convívio forçado com o terrorismo islâmico, tristemente habitual, para termos de aguentar a selvajaria “supremacista”. Dito isto, e porque a ocasião se presta a amálgamas, convém lembrar que o racismo não deve ser confundido com o facto de, muito democraticamente, não se apreciar igualmente todas as culturas. Já encontrei pessoas que recusavam legitimidade a esta distinção, mas sempre tive o sentimento que ao a recusarem se transformavam em simples “máquinas de palavras”, isto é, perdiam qualquer contacto directo com a sua própria experiência. O que não é raro quando se tem uma visão puramente ideológica das coisas.

O desprezo pela democracia. E não é que Jerónimo de Sousa voltou a repetir o extraordinário número de Bernardino Soares sobre a Coreia do Norte? Para sabermos se aquele país é uma democracia, temos que discutir primeiro o que é uma democracia. A veia socrática (do filósofo) de Jerónimo é, é claro, pura aparência. Ele quer tudo menos discutir o que é a democracia, porque sabe pertinentemente que os seus argumentos não convenceriam ninguém. O que ele quer dizer é algo que ele não pode dizer: que a chamada “democracia formal” não lhe interessa. E, não o podendo dizer, insinua-o, no entanto, a bem da sua boa-consciência “marxista”. Quem o acompanha bem nestas coisas é o conhecido delegado de propaganda anti-israelita Roger Waters. Agora deu-lhe para escrever ao nosso cantor Conan Osiris para o incentivar a não ir ao Festival da Eurovisão (suponho que ainda se chama assim) em Israel. Numa música particularmente idiota dele, gritava-se “Teacher, leave the kids alone”. Se eu fosse ao Conan Osiris (e a todos os concorrentes dos outros países a quem ele certamente também escreveu) respondia-lhe com essas mesmas palavras. O amigo Roger é um mau professor autoritário que quer impor a sua vontade e a sua miopia ao mundo. Também ele, no fundo, detesta a “democracia formal”.

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