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Os jovens preocupam-se com o futuro mas não admiram os políticos /premium

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Com partidos que se limitam a gerir o presente, procurando manter grande parte do passado, e sem propostas para um futuro mais rico e mais livre, os jovens não se vão interessar pela política.

O Presidente da República interrogou-se sobre a falta de interesse dos jovens pela política. Meu caro Professor Marcelo Rebelo de Sousa, os jovens estão preocupados com o seu futuro, com o nosso país, com a Europa e até com o mundo. O problema é que os políticos não os inspiram nem sequer impõem respeito ou admiração.

Os jovens não olham para a democracia com a urgência das gerações que cresceram durante o Estado Novo. Nesse sentido, são privilegiados porque não sabem o que é viver numa ditadura. Esse privilégio contribui para a abstenção, mas não julgo que seja um problema grave. Pelo menos, não devemos dramatizar.

Mas a abstenção dos jovens também se explica por razões mais negativas. Muitos deles não acreditam que o seu voto faça alguma diferença. Os meus filhos já têm idade para votar e pela primeira vez votaram os três nas eleições europeias, sobretudo pelo sentido de dever e de responsabilidade, mas sem grande entusiasmo. Como disse um deles, “Pai não há grandes diferenças entre o António Costa e o Rui Rio, e mesmo a Assunção Crista também não é muito diferente.“ Esta observação não tem a ver com diferenças entre direita e esquerda. O problema é que muitos jovens olham para os políticos e os partidos como fazendo parte de um status quo onde não há inovação nem inspiração.

O problema agrava-se quando a maioria dos jovens vê o tipo de pessoas que fazem carreiras nas juventudes partidárias. São aqueles que colocam a carreira política à frente da amizade e do convívio com os outros da sua idade. Preferem passar tempo com os mais velhos dos seus partidos do que com os outros das suas idades. A maioria dos jovens não fala dos seus colegas ‘políticos’ com admiração, mas com falta de respeito e mesmo com algum desprezo.

Para a maioria dos jovens, as questões de costumes e de minorias deixaram de dividir aqueles que são de direita ou de esquerda. Os meus filhos são de direita, assim como a maioria dos seus amigos. Mas não lhes passa pela cabeça que haja qualquer tipo de discriminação contra homossexuais ou pessoas de outras raças. Para eles a igualdade entre pessoas com de raças ou com orientações sexuais diferentes é simplesmente um dado adquirido. Ou seja, estas questões vão deixar de ter uma dimensão política.

Têm uma atitude semelhante em relação à igualdade entre homens e mulheres. A minha filha mais velha é muito clara: “Não passa pela cabeça de qualquer amigo meu defender que as mulheres e os homens não são iguais. Isso é uma coisa de velhos.” A minha filha mais nova, mais radical, vai mais longe: “Pai, irrita-me que haja o Dia da Mulher, como se nós fossemos inferiores.” Quando lhe expliquei que nem sempre foi assim, e que no passado havia uma grande discriminação entre homens e mulheres, ela disse: “Pai, isso era antigamente.”

O mundo dos nossos jovens é um mundo onde a igualdade entre homens e mulheres, entre homossexuais e heterossexuais e entre brancos e negros é natural e é a regra. Para eles, um mundo sem essas igualdades seria absurdo (nem sequer colocam essa questão em termos de justiça). Deixarão de ser questões políticas.

Os jovens também se preocupam com o ambiente. A reciclagem é uma prática tão habitual como usar o computador. Se tiverem escolha, comprarão carros elétricos. Mas para a maioria, as preocupações ambientais não devem provocar uma revolução anti-capitalista. Para eles, a defesa do planeta e o crescimento económico devem ser compatíveis.

Os nossos jovens, que nem sempre votam, preocupam-se e muito com o seu futuro. Muitos ficam chocados quando começam a trabalhar e se apercebem dos impostos que vão pagar. Pior ainda, são aqueles que começam a sua vida profissional com trabalhos precários, sem qualquer segurança para o futuro. Como vão estes jovens comprar casa e começar famílias? Só há uma solução satisfatória e duradoura: dar liberdade aos jovens para criar riqueza. Mas temos partidos políticos que não gostam de liberdade nem de cidadãos livres. Em grande medida, foram os jovens que começaram novos negócios em Lisboa, desde cafés alternativos, hostels, bares, até outro tipo de serviços para turistas. Mas mal começaram a ganhar dinheiro, vieram taxas, limitações regulatórias e mais impostos.

A nossa política está feita para proteger as gerações mais velhas e os funcionários públicos. Não está feita para os jovens que querem criar riqueza através da sua iniciativa e da sua liberdade. Portugal é um país que mantém privilégios, não cria oportunidades. Os jovens percebem que o PS de Costa e o PSD de Rio não têm imaginação para construir um país para o futuro. E também sabem que o PCP e o Bloco querem sobretudo manter o país do passado.  Além disso, não sentem qualquer tipo de admiração pelos atuais líderes políticos. Como seria possível que algum jovem, com um mínimo de inteligência, pudesse sentir algum tipo de respeito por pessoas como António Costa ou Rui Rio, os nossos candidatos a PM? O que fizeram no passado que mereça a admiração dos jovens? O que oferecem para o futuro dos nossos jovens? Nada.

Senhor Presidente, com partidos que se limitam a gerir o presente, procurando manter grande parte do passado, e sem propostas para um futuro mais rico e mais livre, os jovens não se vão interessar pela política. O problema não é a política. São os políticos.

De tudo isto, há um bom resultado: cada vez mais os nossos jovens sabem que só podem contar com eles, com o seu trabalho, com as suas competências e com a sua iniciativa e o seu engenho. Nada esperam dos partidos nem do Estado. Se a maioria começar a pensar assim, ainda poderá haver alguma esperança para Portugal.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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