Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

As perspetivas económicas começam a poder desenhar-se. E não gostamos do que vemos e ouvimos. Porque são sinistras, infelizmente.

Até há um mês era difícil fazer estimativas do que se iria passar na economia este ano. Não se sabia se a pandemia iria acabar em junho ou se prolongava até ao próximo inverno. Até lá não valia a pena ler as projeções de nenhuma instituição, por mais credível que fosse. Os modelos não serviam para nada porque esta crise económica da pandemia era nunca vista. Curiosamente o Banco de Portugal (BdP) publicou as suas previsões exatamente no dia em que defendia este ponto no Observador. No pior dos cenários, seria uma queda do PIB de 5,7% para o BdP; pouco depois o IMF defendia uma queda de 8%. Devo dizer que não acreditei em nada disto. Agora, a Presidente do BCE já fala na possibilidade extrema de uma quebra do PIB de 15% para a UE. Parece-me mais realista. E Portugal?

Infelizmente pode ser mais grave, dada a situação particular da nossa economia. Devo dizer que não tenho nenhum modelo para a economia portuguesa, nem tenho um gabinete de estudos a olhar para o assunto. Apenas penso.

Em relação à pandemia já sabemos irá pelo menos até ao fim do ano, com algumas dúvidas sobre o concreto, mas ninguém pensa que o vírus acabará com o tempo quente do Verão. Acabará apenas com a prometida vacina que não chegará tão depressa ou com um antiviral que já tarda em chegar. Este é o pano de fundo.

Pensemos então no caso português. Observamos por dados indiretos que o consumo privado está em queda livre, com a confiança dos consumidores a bater recordes negativos. Todo o investimento, que poderia ser parado, parou. As exportações, porque a pandemia é global, estão em queda assustadora: desde os têxteis aos automóveis, passando pelos refinados do petróleo e pelo turismo internacional. A única componente do PIB que terá uma evolução em sentido oposto (por absoluta necessidade) é a despesa pública. As importações caíram, mas também pelas piores razões.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Na crise de 2010-2014 a economia reagiu muito bem, aumentado as exportações de bens e serviços. Neste momento as exportações são parte do problema e não da solução. O turismo, que representa entre 12 a 18% da atividade económica (dependendo do que se põe lá dentro), não vai retomar nem este ano, nem para o ano. E a queda do investimento vai ter consequências sérias no imobiliário. Sabem que podem existir bolhas imobiliárias implosivas? Ou seja, podemos ver no sector imobiliário o simétrico do que vimos nos últimos 5 anos. O consumo e o investimento das famílias vai estar muito condicionado pelas expectativas quanto ao futuro e, naturalmente, pelo desemprego. Tudo péssimas notícias.

Se o turismo cair este ano para um quarto (versão otimista) o impacto direto no PIB será de uns 10 ou 12%. A queda do consumo das famílias, do investimento e exportações de bens vão a somar. Como poderá o PIB nacional cair menos de uns 12 a 17%? Não vejo como. Mas eu não tenho modelos, nem equipas a estudar o assunto, estou apenas a pensar com quem me quiser ler.

Vendo a coisa de outro modo. Se no final do ano considerarmos que, tudo somado em Dezembro, o país parou o equivalente a dois meses inteiros (versão otimista), então a queda do PIB seria de 17%!

Basta-me, em nota final, esperar e desejar três coisas. Primeiro, é importante que não somemos a esta crise uma crise de finanças públicas. Não vou cair na discussão semântica da austeridade. Parece-me que a ideia da intervenção do Governo ser fundamentalmente para assegurar que as empresas não fechem definitivamente é uma opção muito correta. Qualquer ideia de políticas de acelerar o investimento público é errada. Isto é uma crise muito centrada na oferta, embora a procura também esteja deprimida. É crucial que as empresas não fechem por razões financeiras. Muitas fecharão por razões económicas, mas eram apenas empresas mortas que não tinham sido notificadas. Em qualquer caso, o défice orçamental vai voltar em grande força. O Governo de António Costa e do ministro Centeno conseguiram, em 2019, o primeiro excedente em meio século. Vai com toda a certeza ter o pior défice orçamental num período ainda mais longo. Infelizmente, mas tudo bem.

Segundo, é necessário não acrescentar a esta crise uma crise no sector financeiro, nomeadamente, bancário. Para isso, algumas das políticas governamentais também me parecem acertadas e o BCE já anunciou políticas que certamente suavizarão os efeitos bancários dos próximos meses. Veremos.

Terceiro, é importante, pelas razões acima, que a UE e o BCE tenham bem presente que as exportações portuguesas para a Alemanha, são importações da Alemanha e vice-versa.  A crise económica é da Europa e não de alguns países como em 2011. E que a pandemia não é o problema exclusivo de um país, mas de todo o Mundo e da Europa, em particular.

Espero, sinceramente, estar totalmente errado!