Nasci em 1997. Faço parte do que se adora encapsular como “juventude portuguesa”. Inexoravelmente faço parte dela, pois os censos – esse tentáculo Jeová do Estado – também chegaram lá a casa. Na teoria, sou outro desses jovens millennials que faz parte da “geração mais informada de sempre” (vómitos). Considerando esta minha natureza cronológica, certo é que hei de ter opinião sobre absolutamente tudo. Sou muitíssimo bem preparado pela minha universidade (gargalhada). Sou avesso à política, mas procuro imenso mudar isso (através de mais horas de scroll no Instagram). Adoro música (que não convém ter mais de 4 sílabas por verso).

Perdoem-me meus queridos contemporâneos geracionais, mas não sou o descrito. Nasci deficiente. Tenho défice de amor por vós. Em contrapartida, a vergonha abunda. Desculpem lá a maçada – a esta altura já devem estar cansados por terem lido 10 linhas –, mas tenho uma certa desconsideração pela maior parte de vós. Quão triste é um miúdo de 22 anos não achar que está na crista na onda e ter absoluta aversão à sua geração? Algo. Convém explicar o porquê.

Falta-nos cultura. A maior parte de nós é inculto e não procura colmatar isso. Na maior parte dos casos não tem a ver com a questão de provir de determinado estrato social e, por isso, não ter acesso à cultura. Justifica-se pela nossa preguiça e vício pelo prazer raso. Tudo deve ser rápido, prático e efemeramente sumarento – McPleasure. Notem que há uma enorme alienação da procura pelo belo. Ninguém tem paciência. Ninguém tem 30 segundos para interpretar um quadro. Não há 8 minutos para docemente dissecar uma música. Não há tempo para ler um livro porque – vejam lá – são demasiadas páginas… é ao contrário caramba!

Os que estão a sentir o carapuço a aquecer (que desde já agradeço o árduo esforço de chegarem a esta parte da crónica) amparam-se a si mesmos, convencendo-se que isso se deve à sua falta de tempo. Não é verdade. Há tempo. Todavia, esse tempo é infrutuosamente gasto a ver e a fazer coisas vazias e estéreis. O que nos preenche ouvir uma música que apenas faz apologia a dinheiro e carros?  O que nos interessa saber se uma Kardashian foi fazer compras à Galleria Vittorio Emanuele? Então malta, essa carola não dá para mais? Não me perdoem, mas se se sentem visados nestes exemplos, temo em informar que são exatamente vocês a quem me refiro quando digo que estão a estragar a imagem da nossa geração. É por vocês que tenho défice de amor e vergonha pronta a exportar. (Não que não vos ame, mas amo-vos poucochinho).

Não quero, com isto, parecer o mais rigoroso pseudo intelectual que defende que devemos passar as nossas manhãs em Serralves, as tardes na Biblioteca Nacional e as noites em concertos de Ópera (se bem que até parece um dia giro). Com certeza que não. Façam o que vos apetecer e vos saiba bem. Ver coisas extremamente estúpidas na internet é das coisas que me dá mais prazer. Tenham, contudo, consciência. Saibam distinguir o que “sabe bem porque é bom e denso” do que “sabe bem porque me distrai”. Nem tudo deve ser pesado: nem erudições em excesso nem esterilidades a gastar – equilíbrio, em tudo, sempre.

Porque não exploram o vosso espaço contemplativo ao invés de correrem atrás dos prazeres como cães atrás de um osso? Uma vez que o conseguem, deixam-no cair porque já não satisfaz. E vão em busca de outro. Isto em loop. Uma vida inteira.

Queridos parceiros cronológicos, parem de me envergonhar perante os censos e comportem-se como humanos. O que interessa ouvir uma música cuja única referência é o sexo? Já todos sabemos o que é o sexo, mas conhecemos as histórias de amor cantadas pelo Vinícius e o Jobim? Não. E isso é o que se leva de termos nascido na condição humana. É o sentimento, a paixão, o cordel que se vai delicadamente desenrolando. A beleza está aí: no ato de desenrolar vagarosamente e tirar prazer disso. Sentir a vida em mais um gole na cerveja lamuriosa. O que poderá interessar o novelo já desenrolado se é irremediavelmente igual? Dois mais dois serão sempre quatro. Não estarão fartos do prazer atrás do prazer em busca do prazer que se encontra num novo prazer? Serão ratos num labirinto?

Respirem. Iluminem-se. Dêem-se ao luxo de observar, pensar, ler. De sentir as entranhas gélidas a ouvir outra canção de amor. Contemplem. É para isso que cá estão, de outra forma teriam nascido cães.

Experimentem. Verão que este prazer não é estéril e aguentará mais do que os quinze minutos do costume.