Com a explosão das redes sociais, e a ausência de crivo que as caracteriza, tem-se verificado que os portugueses são escritores, são activistas sociais, são o que nem sabiam ser  – e o que não podem, ou devem ser. A clássica figura do treinador de bancada e opinion maker de café, sofreu, sinal dos tempos digitais, um upgrade tal que o próprio pode ser, com impulso televisivo e de likes, comentador, político, líder partidário e exemplo de sucesso a seguir. Uma ideia que virá, talvez, dos cursos motivacionais em que se aprende que se é o que se acredita ser, não interessa se por via de Gustavo Santos ou Tony Robbins, de Cláudio Ramos ou Cristina Ferreira. Ou só porque a oportunidade se apresentou. Assim como quem entrasse num bloco e aproveitasse para ser cirurgião.

Todavia, a verdade é que não somos todos escritores, nem activistas sociais nem treinadores, nem políticos, ainda que livros sejam escritos, petições assinadas, ou se tenha assento na assembleia ou na câmara. Felizmente no bloco não se consegue entrar com a mesma facilidade.

Nesta linha megalómana de pensamento todo poderoso, os portugueses descobriram-se agora, com o despacho referente à Operação Marquês, juristas, inquisidores e juízes. Cento e noventa e três mil pessoas, até ao momento, assinaram uma petição que circula há cerca de um ano para o “Afastamento do Juiz Ivo Rosa de Toda a Magistratura”. Mais do que a uma petição, nesta última semana assistiu-se a um ataque ad hominem pois Ivo Rosa, na observância da lei, não confirmou a condenação feita em praça pública. Porém há isto:

“A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efetivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.” (Constituição da República Portuguesa, artº 2º)

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Como Portugal é um estado de direito, o ministério público pode recorrer e deve se assim o considerar. As leis e diligências não podem ser obliteradas de cada vez que não nos servem ou aos nossos interesses, ou opiniões. Isso é o que acontece nas ditaduras. O que pode e deve ser mudado, e não é por abaixo assinado, é o que está na origem da fraqueza e vulnerabilidade das instituições que são a salvaguarda da democracia.

Convém, no entanto, dizer aos abaixo-assinantes que não é do seu próprio interesse que o estado seja o que dele querem fazer.