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Fez uma semana nesta sexta-feira, 14 de maio, que o governo inglês incluiu Portugal na “Green List”. Mas até às 12 horas e 30 minutos daquele dia, ninguém sabia se no dia 17 poderíamos ou não receber turistas britânicos.

Exatamente uma semana antes, o sol tinha voltado a brilhar para todos os que vivem do turismo em Portugal. Mais especificamente em zonas como o Algarve, onde o peso do mercado britânico supera os 65%.

Logo no dia do anúncio da integração na lista verde britânica, o Governo português veio vangloriar-se por tamanha vitória, dizendo que isto era o resultado do excelente trabalho desenvolvido por cá.

Num momento histórico para o turismo português, os turistas britânicos poderiam voar para Portugal sem terem que cumprir quarentena no regresso ao Reino Unido. E histórico, porquê? Porque os nossos concorrentes mais diretos, Espanha, Itália e França tinham sido excluídos desta lista.

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Os telefones começaram a tocar, as reservas começaram a cair. Os restaurantes de zonas turísticas começaram a preparar as suas aberturas. Tendo por base que até dia 17 de Maio as viagens estavam fora de questão, pois eram apenas permitidas viagens essenciais, o país preparou-se para começar a receber turistas depois dessa data.

As notícias da vaga de reservas em destinos como o Algarve, a Madeira e Porto Santo começaram a fazer manchetes e finalmente víamos a luz ao fundo do túnel. Mas é aqui que terminam as boas notícias.

Três dias antes deste anúncio do possível regresso dos turistas britânicos ,continuávamos todos sem saber se estes turistas podiam ou não entrar a partir de 17 de Maio em território nacional. Os telefones tocavam e os empresários não sabiam o que responder. Os operadores cancelaram operações, os hotéis viram as reservas a cair, os transfers, a animação turística e os restaurantes continuavam sem saber se teriam clientes.

O impacto da Covid-19 na economia portuguesa, só no sector do turismo foi de 21 mil milhões de euros em 2020, representando uma quebra de 56% em 2020 na contribuição deste sector para a economia do nosso país (segundo o World Travel & Tourism Council).

Os números do desemprego em Portugal também registam metas históricas e regiões como o Algarve, com enorme dependência do sector turístico, estão a braços com uma crise social sem precedentes.

Posto isto, poderíamos pensar que o Governo português teria em conta o impacto no sector e o trataria com a dignidade merecida (o Turismo, em 2019,  contribuii, sozinho, para 17,1% do PIB e em 2020 esta contribuição passou a ser de 18,1% do PIB), mas tal não aconteceu.

Mais uma vez, ficamos sentados, de braços cruzados, à espera que os turistas nos caiam no colo. Mais uma vez se lançam campanhas de turismo fracas, com pouco impacto e que em nada acrescentam. Os empresários do sector continuam a remar sozinhos, a fazer um esforço que deveria ser de todos.

Os nossos vizinhos espanhóis não perderam tempo. Lançaram de imediato uma campanha de 8 milhões de euros para captar turistas, mas não só. Declinaram a necessidade de apresentar um teste Covid negativo à chegada e fizeram logo notícia disso, mostrando o quanto qualquer família de quatro turistas vai poupar com esta medida (cerca de 400€).

Temos também o exemplo da Grécia, que decidiu há largos meses vacinar todos os trabalhadores do sector do turismo de forma a promover-se como destino seguro. Convenhamos que a região autónoma da Madeira, logo no dia que foi conhecida a inclusão de Portugal na lista verde do Reino Unido, também informou que tinha iniciado uma campanha de vacinação dos trabalhadores do sector do turismo, cerca de 40 mil.

Ontem, ficamos também a saber que a final da Liga dos Campeões que irá ser jogada no Porto no dia 29 de Maio, terá público, mas também já sabemos que estes turistas chegarão em voos charter e que serão colocados em bolha, numa zona restrita e posteriormente levados ao estádio e diretos de volta a casa. Mais uma oportunidade perdida.

Primeiro, falou-se na necessidade de aguardar por indicações da União Europeia em relação a esta possível abertura de fronteiras, depois falou-se na necessidade de esta medida ser definida em Conselho de Ministros, acontece que nem uma nem outra. No dia 14 de Maio às 12h30, o Governo português lança uma nota informativa onde nos esclarece a todos, dizendo que “as viagens não essenciais de e para o Reino Unido vão ser permitidas a partir das 00h00 de segunda-feira, bastando apresentar um teste negativo para a Covid-19 realizado nas 72 horas anteriores”. Não há uma única explicação lógica para a repentina tomada de posição, o que me leva a assumir que este Governo sentiu a pressão dos agentes turísticos e decidiu pronunciar-se sobre a matéria no tempo que considerou “útil”, desrespeitando assim todos os prazos aceitáveis para este sector tão importante para a nossa economia.

A falta de visão e de estratégia que este Governo teve em todo o processo é demasiado grave. Não se desculpem com a imprevisibilidade da Covid-19. Aconteceu de igual forma em todos os países, uns tiveram capacidade de reagir e de se preparar, enquanto outros, como o Governo português, ficaram a ver os aviões passar.

É assim sempre, somos o país dos cuidados paliativos, somos o país que age depois de ver o que aconteceu. Não se programa, não se projeta, não se ouve quem está no terreno e que pode ajudar de forma efetiva com o seu know-how.

Mais uma vez, podíamos ter estado um passo à frente, mas preferimos ficar dois passos atrás e vamos perder a corrida para quem se preparou na pré-época.