A promessa de António Costa, caso o PS ganhasse as próximas eleições, de suspender a reprivatização da TAP, conseguida finalmente pelo actual governo ao cabo de 15 anos, é um acto de pura demagogia eleitoral. Só a ameaça de o fazer, após várias tentativas falhadas para privatizar a companhia aérea estatizada em Abril de 1975 no seguimento do golpe de 11 de Março, já é arriscar perdas de centenas de milhões de euros a pagar pelos mesmos contribuintes que têm estado a arcar com todos os erros económico-financeiros dos anteriores governos. Esquece o PS a bancarrota do Estado português a que o governo Sócrates levou o país após seis anos de governamentalização frenética da vida política? É preciso muita falta de respeito pelos interesses mais tangíveis da população para se atrever a fazer uma ameaça destas!

O PS começa por negar a urgente necessidade política de desestatizar a economia a fim de pôr termo a esse cancro nacional que é aquilo que Oliveira Martins já chamava, no século XIX, a «empregomania», ou seja, essas clientelas com que os partidos enchem a administração e as chamadas empresas públicas, comprando assim o voto supostamente livre dos eleitores e desvirtuando o funcionamento democrático. A ameaça representaria uma inimaginável cedência perante lobbies pretensamente patrióticos, onde os soberanistas de direita e de esquerda se juntam aos portadores dos cartões dourados de «passageiros frequentes» da TAP… Pior: seria ceder a essa corporação dos pilotos sindicalizados, a qual veria assim premiado o despudor com que se gabava, ainda há poucas semanas, de ter feito perder muitas dezenas de milhões de euros à empresa que os emprega.

Em vez disso, é preciso falar dos custos diários da TAP, bem como das outras empresas públicas de transportes, que também têm estado em greve semi-permanente para manterem os seus privilégios. Ou finge o PS ignorar que esse conjunto de empresas representa mais de 20 mil milhões de euros da dívida amarrada ao nosso pescoço? Só na TAP são mais de mil milhões de euros que alguém tem de pagar! Durante quanto mais tempo tenciona o PS continuar a obrigar os contribuintes, com o apoio garantido do PCP e do BE no futuro parlamento, a pagar os défices acumulados por essas patrióticas empresas legadas pelo PREC?

Finge também o PS ignorar que a desestatização e a des-corporativização dessas empresas foi acordada pelo último governo Sócrates com os credores internacionais da dívida pública acumulada pelos governos? Não percebe o PS que essas medidas do memorando de entendimento que Sócrates foi obrigado a assinar em 2011 não são meramente financeiras, mas sim potenciais instrumentos de uma economia mais ágil e competitiva? O PS não desdiz apenas tudo o que sabe ser verdade. Faz pior. Faz demagogia eleitoral à nossa custa a fim de atrair os votos de uma esquerda que não deixou de defender esse «capitalismo de Estado» que ruiu no mundo inteiro!

A prova, aliás, que o PS faz demagogia com a desestatização da TAP ao desdizer-se por puro oportunismo eleitoral é que foi o mesmo PS – um governo do qual faziam parte o actual líder do partido, António Costa, e o actual líder da bancada parlamentar partidária, Ferro Rodrigues – que tentou privatizar a TAP no final dos anos 90 do século passado e só não vendeu a empresa à Swissair porque esta… faliu! O episódio é demasiado importante para um partido de governo como o PS esquecer o que se passou e por que razão. Em contrapartida, o que ainda não explicou é por que mudou de opinião, se não foi por baixos motivos de guerrilha eleitoral feita à custa do bolso dos cidadãos!

Com efeito, ignoram os dirigentes do PS e os economistas que desenharam as políticas anunciadas pelo partido que a indústria dos transportes aéreos, no seguimento de resto do que já se passara nos USA, sofreu uma evolução gigantesca com a massificação do transporte aéreo, das viagens privadas e do turismo, que por sua vez originou o surgimento das novas companhias lowcost, bem como uma pressão crescente no sentido da baixa dos preços, que as chamadas companhias de bandeira não conseguiam acompanhar, devido aos pesados custos das corporações dos pilotos, funcionários de bordo, operários de manutenção, etc?

Ignoram tudo isso? Ignoram que as companhias de bandeira dos países mais importantes da Europa foram todas ou quase todas privatizadas no seguimento desta evolução social e económica, desde o Reino Unido à França, Espanha e Itália? Se a Swissair faliu, como outras companhias, incluindo no Brasil e nos USA, foi justamente por não conseguirem sobreviver à concorrência! A demagogia eleitoral que o PS se acha livre de praticar, ao tentar caçar o voto dos defensores de um sistema estatista, corporativo e proteccionista falido que, por seu turno, nos levou à bancarrota de 2011, isso revela que o partido de António Costa perdeu o contacto com as realidades nacionais e internacionais. Só é capaz de propor o regresso a um passado que pereceu, como está a acontecer na Grécia, a qual terá possivelmente de abandonar em breve o «euro» com todos os custos que isso representará para ela mas também para nós!