Debaixo do guarda-sol, untados de protector solar, toalha estendida na areia e o mar ao fundo. Lobrigando as gordas dos jornais ou o feed de notícias no telemóvel, confirma-se o fim da greve. Perscruta-se o céu à procura dos foguetes ou dos aviõezinhos de publicidade na cauda. Não há! Julga-se ter prevalecido o bom senso, rapidamente desmentido pelo twitter do Primeiro e pelos espaços noticiosos em que todos reclamam vitória.

A época é estival, é certo, mas o disparate está em maré alta. As convicções vão e vêm, como as ondas do mar e esfumam-se na espuma dos dias e na segurança egoística de teremos combustível para regressar de férias. Embalamos no sono reconfortante que tudo se resolveu. Fôssemos seres pensantes, capazes de juízos críticos para lá da parcialidade política e circo mediático, dotados de uma consciência colectiva e, de forma equidistante, escalpelizaríamos o verdadeiro custo do depósito cheio.

Estranharíamos, desde logo, o timing da greve, no pico do verão, a dois meses das eleições, sabendo o custo que teria junto da opinião pública, sabendo da intenção do governo em mostrar uma posição de força, que os representantes das partes envolvidas tenham agendas políticas próprias e, num dos casos, ligações profundas ao PS estaria fácil de adivinhar que jamais seriam os camionistas os vencedores;

Estranharíamos terem sido decretados serviços mínimos como não há memória e uma requisição civil sem precedentes, poucas horas depois de a greve começar e sem que aqueles tivessem falhado, deslocando-se polícias e militares para conduzir camiões vinte e sete horas seguidas e fechando-se esquadras durante a noite por falta de pessoal. Ou seja, privilegiando o bem-estar e o consumismo relativamente à segurança;

Estranharíamos as declarações do primeiro-ministro quando referiu que o povo não iria perceber e aceitar uma greve sem fundamentos, havendo um sentimento de revolta e incompreensão generalizados e apelando ao bom senso. Isto, vindo de um primeiro-ministro que, antes de conhecer o programa e orçamento do Governo, garantiu que o chumbaria precipitando a sua queda, atropelando a vontade livre e soberana do povo, num exercício sem precedentes em democracia;

Estranharíamos que, pouco depois do início da greve, os media amplificassem um debate sobre um recibo de vencimento de um motorista de curso internacional, em que o sujeito em causa aufere 630,00 € de vencimento base e, entre subsídios e complementos, quase duas vezes mais. Dá-se a notícia com a encomenda da cartilha sem que se explique que nesse recibo se encontrem plasmadas as ajudas de custo (vulgo reembolso de despesas), o trabalho suplementar, o trabalho nocturno e um subsídio enquanto motorista internacional. Escarrapacha-se ao espectador distraído o valor líquido para que este não perceba que o motivo da revolta é essencialmente um: a maior parte desses complementos salariais, não fazendo parte da retribuição e não estando sujeitos a tributação, não contarão para efeitos de subsídios de desemprego, de doença, de férias ou de Natal. Desviamos o olhar quando os grandes beneficiários deste esquema são os patrões e não os empregados, permitindo, desta forma, poupar perto de 200,00 € mensais por cada trabalhador. Em prejuízo de quem? Do nosso sistema contributivo, ou seja, de todos nós e das gerações vindouras. E, assim sendo, mais estranharíamos que o Governo se colocasse ao lado destas empresas, intervindo com mão de ferro e rédea curta num conflito meramente privatístico. Ninguém tem memória de requisições civis desta envergadura em qualquer outra greve, mesmo quando estão em causa bens mais importantes, como a saúde, a justiça ou a educação. E porquê? Não porque estivesse em causa a segurança das pessoas, o interesse público ou o regular funcionamento das instituições. Apenas porque a conjectura política era favorável ao Governo e poderia capitalizar em Outubro. Mentiram-nos, e nós a banhos!

Estranharíamos como é que a violação dos mais basilares princípios da construção democrática foi dinamitada por um silêncio cúmplice e ensurdecedor de uma esquerda sedenta de poder, inexplicavelmente a dar colo aos patrões, aos interesses económicos ou eleitoralistas, num oportunismo imprestável, inqualificável e inaceitável. E, acima de tudo, desmemoriada das suas posições aquando da requisição civil em virtude da greve dos pilotos da TAP;

Estranharíamos a falta de tomada de posição e sentido de Estado do Presidente da República, plasmado num apelo entre o sal da água que lhe escorria do peito e o sol que lhe queimava as costas, fazendo tábua rasa dos imperativos constitucionais;

Estranharíamos a apatia de uma direita, a preparar receitas de arroz de atum, propondo a compra de quotas de entrada no ensino superior e outros disparates fora da sua matriz ideológica ou então ligada às máquinas num coma tão profundo que até um sargento se permitiu espetar a baioneta no general até onde a carne tolerou;

Estranharíamos a inoperância de uma Assembleia da República refém dos desmandos governamentais, incapaz de exercer os seus poderes de fiscalização, subjugada a interesses partidários menores, reduzindo a sua função a muleta parlamentar ad hominem;

Estranharíamos que uma ministra sitiada na sua própria incompetência e inabilidade política, se permita ordenar uma sindicância a uma ordem profissional por mera révanche;

Estranharíamos os critérios de nomeação, as cunhas, os amiguismos e os favorecimentos dos assessores e adjuntos. Apregoamos a meritocracia, mas baqueamos, cedemos e branqueamos o compadrio.

Calamos e vamos a banhos!

Estranharíamos golas, canetas, enchidos e negócios com a família, ao invés de considerarmos isto
normal e aceitarmos como prática corrente;

Estranharíamos que lei não possa ser interpretada no sentido literal, à sexta, mas ao sábado seja clara e
para cumprir;

Não permitiríamos que um ministro tivesse o despudor de mentir ao dizer que nunca em Portugal ou noutro país se negociou acordos na pendência de uma greve, quando o próprio Governo o fez, há meses, na greve dos estivadores;

E jamais toleraríamos que um primeiro-ministro se permitisse a altivez de gozar com o legítimo direito a férias de um dos líderes da oposição, garantindo que “o interesse nacional nunca tira férias”, quando, nos fogos de Pedrógão, se encontrava a banhos no sul de Espanha…

Isto se fôssemos seres pensantes…

Estranharíamos e questionaríamos tudo isto. Não porque somos é de esquerda ou de direita. Não para marcar posição ou defender ideologias políticas. Simplesmente porque isto não é normal. Simplesmente porque isto não é correcto. Mas pensar dá muito trabalho…

Acordamos, vamos a banhos e embrulhamos uma bola de berlim, cheia de creme, que iremos esconder do médico e rezar para que não se reflita nas análises periódicas. Levantamos tenda e assenhoramo-nos daquele sorriso parvo de quem pode parar na bomba seguinte para atestar no regresso e chegar a casa a tempo de ver a bola… O resto, é como os amores de verão: enterra-se na areia!

Ai Portugal, Portugal!

Enquanto ficares à espera, ninguém te vai ajudar…
Fizeste cegos de quem olhos tinha
Quiseste pôr toda a gente na linha 
Trocaste a alma e o coração 
Pela ponta das tuas lanças
Difamaste quem verdades dizia 
Confundiste amor com pornografia 
E depois perdeste o gosto 
De brincar com as tuas crianças
(Jorge Palma)

Nuno da Costa Nata é advogado