É verdade que nesta fase, como em qualquer altura difícil das nossas vidas, mesmo que poucos de nós tenham alguma vez vivido uma situação de alguma forma comparável a esta, temos mesmo de ter esperança, de acreditar no futuro, não desesperar com as dificuldades, mas não nos pode faltar também a coragem, a força, a determinação; não podemos ser passivos, não podemos deixar de agir, de nos defendermos, de ajudarmos os outros, não podemos agora, como nunca, ficar à espera que Deus, o Estado, para os mais novos, os pais, façam tudo por nós.

Estes são tempos que nos têm de fazer entender que todos somos iguais. Todos diferentes, mas todos iguais. Diferentes no pormenor, iguais no essencial. Dizia Orwell no seu “Triunfo dos Porcos”: “os animais são todos iguais, mas uns são mais iguais do que outros”. Sempre achámos lá no fundo, e na verdade quase sempre assim tem sido, que alguns de nós são muito mais iguais do que outros, que alguns são superiores aos outros – por serem mais ricos, por terem nascido em “berço de ouro”, pela raça ou por qualquer outro motivo sem nexo. Mas vem agora este minúsculo ser, apelidado de Covid- 19, ensinar-nos que afinal somos mesmo todos iguais… pelo menos no sofrimento e nas escolhas da morte. Talvez por ironia do destino, o segundo morto pelo corona vírus em Portugal foi um banqueiro. E no Mónaco, um dos primeiros infetados, quando ainda só havia nove casos confirmados de infeção, foi o Príncipe Alberto… Seguiu-se Boris Johnson, entre mais…

São tempos de pensarmos e de termos de entender que a nossa hierarquia de valores e reconhecimento estava equivocada: um bom médico ou enfermeiro é muito mais especial, é muito mais essencial, é muito mais merecedor de compensação e reconhecimento, do que o mais espetacular e idolatrado futebolista.

Agora são tempos em que finalmente dispomos de tempo. Aquele tempo que sempre achávamos que não tínhamos, de que nunca podíamos dispor, para nós, para os nossos, para ninguém. Podemos agora pensar, meditar com calma, rever a nossa maneira de estar na vida, pôr em causa a forma como estamos em comunidade, pessoalmente e em grupo, pôr em causa o à vontade com que desprotegemos o ambiente, como convivemos bem com um mundo de corrupção ou como vemos como um problema dos outros as guerras que vão proliferando pelo mundo.

E são ainda tempos em que vamos perceber que nos adaptamos a tudo e que aguentamos grandes mudanças e grandes dificuldades. Que tal como só unidos e com o esforço de todos conseguiremos vencer este vírus, também só unidos e sem guerras conseguiremos levar as nossas vidas para frente, agora como sempre.

São tempos em que estamos a ser postos à prova, em que vamos perceber se as dificuldades nos fazem mesmo mais solidários, mais próximos (ainda que temporariamente fisicamente distantes) ou se, pelo contrário, o atual receio de contágio traz ainda mais à tona o nosso egoísmo latente.

Em poucos dias o nosso Mundo mudou radicalmente, a nossa vida transformou-se por completo e nada mais voltará a ser igual. Vai ser à custa de muitas dificuldades, de sacrifícios brutais, de mortes, mas quem sabe se será para que as gentes e o futuro sejam melhores?! Tenhamos essa esperança!