Fui ver o último filme de Tarantino, “Era uma vez em Hollywood”, como vou, aliás, ver qualquer um dele, com bastante expetativa. Gostei muito mas não vou dizer que é uma experiência metafísica nem que tire “grandes lições” para a vida. Até porque o mundo cor de rosa de Tarantino é algo que não é verosímil, mas não podemos negar que celebra a vida, procura a redenção dos anos 60 e critica abertamente o movimento hippie.

O meu lado católico e conservador torce um bocado o nariz aos anos 60 pois supostamente a liberdade sexual trazer-nos-ia tudo o que estávamos à espera: paz, harmonia, e não trouxe. Não é preciso ser católico para fazer a análise de que a grande folia dos anos 60 acabou com o massacre Tate/ La Bianca, do culto de Charles Manson, abordado neste filme.

Às vezes penso se não haverá aqui uma recorrência com os anos 20, os “loucos anos”?. Uma depressão monumental (1929), depois de grande fartura? Poder-se-ão fazer várias análises. Também há o contrário, grandes fases de prosperidade, depois de grande inferno. Depois da primeira guerra, depois da segunda.

Mas tenho outro lado, não necessariamente incompatível, o da paixão pela música e cinema e Tarantino tem um gosto obsessivo pelas referências da cultura Pop e este filme é um grande escaparate de memorabilia e de estética daquele tempo. Quem não acha graça àquelas casas com piscina no cimo da colina, os néons, os carros, os filmes, as canções? Quem não gosta de Beatles ou de Beach Boys deve ser um tipo muito chato. Eu fui inundado pela cultura americana desde pequeno, nomeadamente o cinema, por isso, tudo aquilo é para mim um festim. Também já tive a oportunidade de estar em L.A. e, de facto, há um ar de leveza em tudo. E a nossa imaginação voa à medida que nos lembramos de todas as referências que recebemos de filmes e fotografias. O sonho americano inspira qualquer um. Todos vão ali à procura de um. Foi Rick Dalton, o ator do filme de Tarantino, foi Cliff, o seu duplo, até Charles Manson tinha um sonho. Era um músico frustrado e planeou matar uma pessoa que não o promoveu como ele achava que merecia. Resulta que este já não vivia na casa que Manson escolheu para o massacre e, por azar, estava lá a bela Sharon Tate com os amigos, as vítimas do massacre que acabou com o flower power.

Pensava que tinha escolhido mal o centro comercial Colombo para exercer a minha atividade de luxo de ir ao cinema (sim, 7 euros é luxo. Veja-se o preço dos bilhetes no tempo da história de Tarantino, 70 cêntimos!). E porque poderia escolher mal? Não é a minha escolha habitual pela profusão de pipocas, barulho, até teatro – sim, já presenciei pessoas a irem para o palco, mas isso foi há uns anos. Tem a vantagem de ter um anfiteatro e até IMAX, mas sinceramente não é o meu segmento de mercado. Escolhi pois é perto de minha casa e dava-me jeito.

Porque foi interessante? Pois estar rodeado de miúdos à volta dos 20 anos (e menos) não é a minha praia, mas pode ser sociologicamente interessante. A meio do filme veio o intervalo e, para meu espanto – sim, gosto de sociologia, mas não esperava – ouço um grupo de 6 miúdas, que podiam ter todas os mesmos calções de ganga curtos, top e sandálias, como as miúdas de Manson, mas aqui numa versão mais light: “Epá que seca, quando é que acontece alguma coisa?” – bocejaram. Atrás de mim, o grupo era mais heterogéneo. Pela minha visão periférica, percebi que um deles, de t-shirt, musculado, emite um profundo suspiro e desabafa para os amigos, “Porra, agora estava a acontecer alguma coisa, mas o resto, uma seca!”. Todos concordaram em uníssono. Eu sorri. Na verdade, até à primeira metade não “acontece” nada, no sentido de trama, “história”. Não tem de certeza o ritmo de outros filmes em que provavelmente se tem de agarrar a audiência, mas também não me parece que Tarantino seja Oliveira e a sua árvore com a duração de 2 minutos. Terá provavelmente alcançado uma liberdade criativa que o permite fazer o que quiser, se bem que é completamente mainstream, já foi mais marginal.

Mesmo não tendo “história”, acho que acontece muito, mas o fetiche de Tarantino pelos anos 60, pelo cinema e pela cultura Pop não é apreciado pela Geração do zapping , que queriam “história”, coisas a acontecer? Já o famoso youtuber Sirkazzio, entrevistado por Jel, partilhou a sua estratégia para reter a atenção dos seus seguidores nos seus vídeos. Está sempre a gritar e mudar de plano, completamente irrequieto e entusiasmado, senão sabe que perde a atenção da audiência.

Ou a amostra que tive acesso não é representativa? Fica para discussão. Há um lado disto tudo que não consigo compreender. Estarão tão enfastiados de tanto estímulo? Não conseguem desfrutar de uma recriação tão genialmente feita por Tarantino? Será o seu mundo digital em que há sempre algo a acontecer, e quando para, o grande tédio desce sobre as suas vidas? Não nego que não estejamos todos a ficar assim, imediatos, mas esta geração não percebe histórias sem história. Será que ainda não aprenderam que não é a história que conta mas a maneira como se conta? Tarantino é isso, a grande literatura é isso, pois contar histórias, todos as contamos. Agora, como as contamos… já é outra coisa.