Quando uma nação aceita visitantes, incluindo visitantes mundialmente famosos, espera normalmente um fluxo de banalidades e de elogios: “Ah, o vosso país é maravilhoso! É mesmo, mas mesmo bonito!”. A coisa mais negativa que admite são do género “… mas não sou grande fá de cabeças de peixe/sarrabulho/ginjinha…”.

pitchforks800

Esta semana, vi este artigo no Guardian sobre Jamie Oliver no Brasil. Foi entrevistado num programa de televisão, e depois de lhe terem feito experimentar uns brigadeiros, um quindim e um beijinho, proclamou que eram todos “uma merda, horríveis, porra”. Ao ouvir isto, parece que o povo do Brasil se zangou de tal maneira que toda a gente correu à internet e à imprensa para escrever coisas abomináveis sobre Jamie Oliver.

Jamie Oliver é suficientemente famoso, e o seu ego suficientemente largo, para ter de se limitar a dizer banalidades insonsas, seja onde for. De facto, a boca indiscreta tornou-se uma das suas ferramentas de carreira, e, embora este incidente possa ter sido uma gafe monumental de marketing, ele não precisa muito de se preocupar quanto ao seu lugar no mundo. Tenho a certeza de que ainda ganhará bem por conta do Brasil.

Quando um estrangeiro proclama publicamente que alguma coisa, seja uma comida, seja um hábito nacional, é horrenda, porque é que umas pessoas, muitas pessoas, levam isso a peito e reagem com raiva? Ouvir tais coisas talvez seja irritante, claro, mas porque é que enfurece tanto?

Deixem-me mudar de conversa durante uns momentos, pode ser?

O Ovo

Adoro ovos. Podem ser escalfados, ligeiramente salgados, a abrirem-se em cima duma torrada cheia de manteiga a derreter. Podem ser mexidos, simplesmente com uma noz de manteiga ou com espargos selvagens ou farinheira. Podem ser estrelados ou cozidos. Podem ser numa omelette, numa tortilla, num quiche ou num “scotch egg” (um ovo com cobertura de carne de salsicha). O ovo é uma grande invenção (inventado pela galinha, claro… que, sim, nasceu primeiro).

Mas há umas centenas de anos, algo estranho aconteceu nos conventos de Portugal. As freiras tinham muitas vestes e hábitos para engomar com as claras de ovo. O que fazer com todas as gemas que sobejavam? Bem, começaram por adicionar açúcar às gemas… e exageraram.

Nos outros conventos do mundo, aconteceu algo parecido, mas aí os exageros envolveram frutos secos e mel. O uso excessivo do ovo nos conventos, pelo que sei, só terá acontecido em Portugal.

Por causa disso, o Portugal de hoje está cheio de pastelarias cujas montras gritam “AMARELO de OVO!!!”, e estranhamente os portugueses adoram. As montras e as balcões nas pastelarias e nos restaurantes abarrotam de montes indiscriminados de ovo: fios, trouxas, tortas, pudins, molhos de ovos, farófias, pães de ló com centro de líquido de ovo, doce de ovos, rebuçados de ovos, ovos moles, e aquela criatura misteriosa, a lampreia de ovos, que ainda hoje continua a servir para mandar convidados de casamentos para o hospital, depois de uma tarde ao sol e ao calor (e porquê uma lampreia de ovos? Porque não algo giro, como um coelhinho de ovos?). Claro que há outros ingredientes, como canela, chocolate, côco, amêndoa e as vezes alguma coisa com um toque a laranja. Mas geralmente, quando pensamos na doçaria Portuguesa, o ovo destaca-se sempre. Tudo sabe a ovo. Ovo “ovoso” — sulfuroso e doce.

Em inglês, há uma expressão, “over-egg the pudding”. É intraduzível para português. Posso traduzir literalmente, claro (pôr ovos a mais no pudim, ou seja, abusar de uma coisa boa até estragar tudo). Mas em Portugal, o conceito de pôr ovos a mais em qualquer coisa não existe, ou antes, é até impensável.

E não é só o facto de 97.5% da doçaria ter ovo em excesso: é que 97.5% dos portugueses desmaiam de amor pela gosma amarela. Se eu vos der um barril de ovos moles e uma colher, a conversa acabará já e vou ouvir apenas os gemidos de prazer gerados por essa gemada. Se eu vos mencionar bolas de Berlim, serão todos transportados até à praia da vossa juventude, a babarem-se só de pensar naquela porcaria enjoativa e pegajosa, comprada de um senhor com um cesto que anda por aquela praia a escaldar há deus sabe quantas horas.

Doces “sobre-ovados” são realmente nojentos. Trinco-os, quando me oferecem, apenas por delicadeza, e se absolutamente necessário. Se isso tudo quer dizer que nunca pertencerei ao Clube dos Portugueses a 100%, assim seja. Não os aturo, não os como, são horríveis, porra.

~~~~~~

E já agora, como se está a sentir? Zangado? Raivoso? Está a gritar diante do écran “como é que ela se ATREVE dizer isso dos nossos ovos abençoados??”? Ou está apenas a sentir pena da coitada da bifa que ainda não descobriu a felicidade que é uma gema doce? E o que é que isso importa? Porquê tanta raiva quando um estrangeiro reage com um “blhek” a uma comida nossa? Irritação, entendo. Incompreensão, entendo. Mas raiva?

Certamente que é irritante — para mim – quando o mundo inteiro critica o estado pobre da culinária britânica, mas o ataque vem quase sempre baseado em grandes generalizações, e muitas vezes com poucas provas. Se faz favor, sim, vá a Londres e diga-lhes que enguias em gelatina são a coisa pior já inventada, ou que a empada que puseram no micro-ondas no pub é uma merda, ou que fish & chips são gordurosos. Ninguém lhe ligará nenhuma.

Há anos, no meu blogue, gozei com o fado, entre outras coisas portuguesas. As ameaças de morte (não estou a exagerar) na sequência desse poste foram as correspondências mais raivosas que recebi na minha vida. Tenho quase a certeza que os autores daquelas missivas também não ligavam muito ao fado. Era só que não podiam suportar a ideia de uma estrangeira qualquer a dizer mal de uma coisa que é deles. Pura raiva.

Porquê?

(tradução da autora, a partir do original inglês)

 

Raging with egg yolk

 

When a nation welcomes visitors, including world famous visitors, it usually just hears a stream of platitudes and compliments about itself from those visitors. “Oh, your country is the most amazing country! It’s so beautiful!”, and at the most negative, you might hear “But, I’m not a huge fan of fish heads/blood stews/ginjinha…”.

This week, I saw this article in the Guardian about Jamie Oliver in Brazil. He had appeared on a TV show, and having tasted some brigadeiros, a quindim and a beijinho, proclaimed that they were “all a load of shit, fucking ’orrible”. Apparently, the people of Brazil were so enraged that they took to the internet and the press to be really very angrily horrible to Jamie Oliver.

Presumably, Jamie Oliver is famous enough, his ego big enough, to worry too much about sticking strictly to bland platitudes wherever he goes. In fact, his big mouth has become one of his tools, and, although this incident may have been a huge marketing fail on his part, he needn’t worry too much about his place in the world. I’m sure he will still make plenty of money out of Brazil.

Why do some people take things so personally and react so angrily when someone from elsewhere appears in their country and publicly proclaims that something is awful, be it a foodstuff or a national habit? To hear those things might be annoying, maybe, but why is it rage inducing?

Indulge me just for a moment, though, would you? A brief change of subject:

~~~~~~~
The Egg.

I do love the egg. It might be poached, lightly salted, breaking over hot buttered toast. It might be scrambled, mixed with just butter or with wild asparagus or farinheira. It might be fried, or boiled, hard or soft, or it might be in the form of an omelette, a tortilla, a quiche or a scotch egg. Stick a fried egg on my bitoque and I’ll be perfectly happy. Yes, the egg is a great invention (invented, of course, by the chicken… which did come first).
Hundreds of years ago, though, something odd happened in the convents of Portugal. The nuns had a load of wimples to stiffen with egg whites. What to do with all the leftover yolks? They added sugar to them and got totally carried away.
In other convents of the world, the same kind of thing happened, but they got carried away with nuts and dried fruits and honey. The overuse of the egg in the convent, to my knowledge, was the unique preserve of Portugal.
Now, Portugal is left with cake shop windows that scream “EGG YELLOW” at you, and, weirdly, you all love it. Patisserie counters and dessert trolleys are filled with indiscriminate mounds of egg, egg threads, egg custards, egg slabs, egg rolls, eggs in egg sauce, sponge cake with runny eggy middles, egg paste, egg sauce, and that mystifying creature, the egg lamprey, that still sends weddingsful of people to hospital, after sitting out in the sun all afternoon (and why would you even think of an egg lamprey? Why not something pleasant, like an egg bunny rabbit?). Of course, there are other ingredients such as cinnamon, chocolate, coconut or almonds and occasionally something just a tiny bit orangey, but on the whole, when you think about Portuguese cakes and puddings, you have to consider that eggs will be the principal ingredient, the star. Everything tastes of egg. Sweet, sulphurous, eggy egg.
In English, there is an expression “over-egg the pudding”. It is untranslatable into Portuguese. Not because I can’t translate it literally (put too many eggs in the pudding, i.e. overdo something until you ruin it), but because in Portugal the idea of too many eggs is just not a thing.
And it’s not just that 97.5% of cakes and puddings are over-egged, it’s that 97.5% of you, Portugal, go weak at the knees for the nasty yellow goo. If I give you a little barrel of ovos moles (egg paste) and a spoon, the conversation will stop and I will hear only small moans of orgasmic delight. If I mention bolas de Berlim (a doughnut, filled with horrible, bright yellow egg cream), and you are all transported to the beach of your youth, your mouths watering for that horrible sticky, sickly, sweet thing, bought from a man with a basket who’s been traipsing up and down that hot beach for god knows how long.
Over-egged cakes and puddings are just utterly revolting. I will take a bite only if politesse dictates it, and if that means that I am permanently left out of the 100% Portuguese Club, then so be it. I cannot stomach them. I will not eat them. I think they are horrible.
~~~~~~~

How do you feel, now? Angry? Rageful? Are you screaming “how DARE she say those things about EGGS?” at your computer screen? Or are you merely feeling pity for the poor bifa who hasn’t discovered the joy of the sweetened egg yolk? Why on earth does it matter? Why is it so rage making for a foreigner to come and say “yuck” to something? I understand why people get irritated. I understand why people can’t understand why someone doesn’t like something. But rage?

Yes, of course, it’s irritating — to me — when the world descends on the poor culinary status of Britain, but only because it’s done in wild sweeping statements, and usually with little evidence to back it up. Please do go to Britain, and tell them that jellied eels are quite the foulest invention ever (really, they are dreadful), or that a bland pie that they just microwaved for your pub lunch is just horrid, or that fish and chips are greasy. They won’t take to the internet or the press to complain about you. They really won’t mind that much.

I once had the temerity to make fun of fado, as I used to make fun of almost everything Portuguese in my blog. The fado-induced death threats (no, I am not exaggerating) were the angriest communications I have ever received about anything, and I am fairly sure their authors weren’t that bothered about fado themselves. They just couldn’t bear the fact that Johnny Foreigner had dared to say those things about something of theirs. It was pure rage.

Why?