Os recados da Mãe Terra. Alguém sabe explicar como espatifamos milhões em educação e acabamos com umas criaturas a escrever que este vírus é um sinal que a Mãe Terra nos está a enviar? Tiveram dispensa das aulas de História ou a disciplina de História agora destina-se a provar os malefícios do heteropatriarcado?

Esta quarentena é uma espécie de amostra do mundo sonhado pela seita da menina Greta: ninguém viaja; as fábricas fecharam; os turistas desapareceram. Mas mesmo assim para os xamãs da Mãe Terra não é suficiente, como nos avisam regularmente as notícias: “Covid-19: poluição cai a pique, mas pode ser apenas “fogo-de-vista” O consumo de combustíveis fósseis está a decrescer e as emissões poluentes seguem o mesmo caminho com a pandemia de covid-19. Mas ambientalistas e ativistas climáticos não estão otimistas. O que até está a ter um efeito positivo a curto prazo nas alterações climáticas pode não passar de uma situação transitória, tal como aconteceu aquando da crise financeira de 2008-09. Para já os canais de Veneza parecem estar mais limpos.” Percebido? A economia cai a pique mas cuidado que ainda podemos recuperar como aconteceu na crise de 2008-09. Felizmente os canais de Veneza parecem estar mais limpos (no lago dos patos do jardim da minha infância acontecia o mesmo quando o lodo assentava).

Entre os fiéis da Mãe Terra os meus preferidos são aqueles que estavam algures num local remoto a despoluir a mente e agora pedem, exigem e suplicam que mandem rapidamente um avião buscá-los àquele último paraíso onde tinham ido passar uns dias longe desta civilização que tanto abominavam. É claro que, uma vez aqui chegados, vão continuar a ouvir a Mãe Terra dizer-lhes que temos de descarbonizar, excepção feita ao aviãozinho que os transporta.

Os fiéis da Mãe Terra que aqui estão neste ano de 2020 preservando-se desta epidemia como nenhuma geração antes o conseguiu fazer (pesquisem “1918 pneumónica” e logo percebem o que quero dizer) avisam-nos que a Mãe Terra (devidamente maiusculada para o efeito destes recados) está zangada. Zangada porque usamos plásticos (querem mesmo prescindir das luvas? Dos sacos de lixo que agora não só têm de ser de plástico como até reforçados? Das embalagens para refeições?…) A Mãe-Terra também se terá zangado, segundo os intérpretes dos seus recados, porque construímos fábricas (não querem os devotos da Mãe Terra aproveitar esta permanência em casa para tentar a auto-suficiência no seu 13º andar ou na casa da aldeia, quanto mais não seja para constatarem que as galinhas, as couves e as alfaces do quintal podem ser muito saborosas, mas comê-las todos os dias é manifestamente insuficiente?) Mais uma vez pergunto: esta gente nunca ouviu falar da “peste negra”? A Mãe Terra estava então zangada porquê? Imaginarão os devotos da Mãe Terra o que é viver uma pandemia sem comida, sem nada, sem sequer saber de que se morre e já agora sem nenhum dos conhecimento e do conforto contemporâneos, pois estamos em casa mas telefonamo-nos, temos a internet, livros, séries, água, electricidade e take away).

Nos filmes da minha infância passados entre tribos exóticas havia sempre aquele momento em que os povos percebiam como os feiticeiros os procuravam manter subjugados dizendo-lhes que a Terra – que umas vezes era mãe outra pai – estava zangada com eles: os vulcões explodiam porque os espíritos estavam zangados; não havia animais para caçar porque a Mãe Terra os queria castigar… O que nunca pensei foi uma vez adulta ver os feiticeiros da tribo saltarem do ecran para a realidade.

Para viver nesta espécie de panteísmo animalista das espiritualidades prefiro a versão grega dos deuses no Olimpo que ao menos deu grande Literatura e Arte digna desse nome.

Os recados das linhas de apoio. De apoio aos títulos, entenda-se. Todos os dias milhões e milhões são anunciados. A cada anúncio segue-se mais burocracia – quantas empresas vão poder conseguir cumprir os requisitos para o lay off? – e a imposição de condições delirantes: “as empresas apoiadas não podem despedir”. Para muitas pequenas empresas entre receber apoios (ler endividar-se) e deixar de ter encargos, o dilema não é grande: despede-se, fecha-se até se for preciso e depois se vê. A sanha ideológica da esquerda e a cada vez maior distância entre uma classe política que não sabe o que é ter de pagar ordenados ao fim do mês leva à adopção de um pensamento mágico em matéria de economia, como se à força de decretos proibindo a realidade ela se desfizesse.

O parlamento foi a correr proibir os despejos esquecendo-se que atrás de cada inquilino está um senhorio que não raramente é um desses idosos do grupo de risco face à pandemia e que terá de esperar que esta acabe para tentar recuperar o seu investimento. Porque não legislaram os deputados apoiar os inquilinos pagando-lhes parte das rendas? E note-se que o incumprimento no arrendamento é inevitável: como vão conseguir pagar a renda os comerciantes que agora têm as suas portas fechadas?

O Governo tem de decidir se quer lançar linhas de apoio à economia e aos cidadãos ou linhas de apoio nos títulos.

Os recados da economia socialista soviética. A líder da CGTP Isabel Camarinha e funcionária da mesma central há quarenta anos exigiu desde que começou esta crise que se proibissem os despedimentos: “Não podia haver despedimento nenhum nesta altura, não é só para aceder a linhas de crédito, é todos os despedimentos” – declarou Isabel Camarinha que exigiu também que se garanta também que os trabalhadores não sofrem cortes nos seus rendimentos e  que não se trate como período de férias o tempo que os trabalhadores estão agora a passar em casa para evitar o risco de contágio ou porque as empresas em que trabalham suspenderam a actividade.

Face a esta lista de exigências proponho que a líder da CGTP exija já um decreto a proibir o vírus. A exigência é tão razoável  quanto qualquer uma das anteriores.

Os recados da China. Para lá dos recados da Terra só os das ditaduras comunistas conseguem ser ouvidos com tanta fé. Convém lembrar que as autoridades chinesas subestimaram e reprimiram as primeiras informações sobre a infecção pelo Covid-19: desde meados de Novembro de 2019 que estavam a ser detectadas infecções mas só a 31 de Dezembro o governo chinês informou a Organização Mundial de Saúde sobre os primeiros casos de uma “nova doença misteriosa” em Wuhan. Portanto perdeu-se mês e meio mas não só: as autoridades chinesas declaravam estar tudo controlado. Médicos e jornalistas foram perseguidos por falar da doença, as autoridades chinesas alteraram registos médicos para que não se percebesse o que estava a acontecer. E para cúmulo temos de ouvir não só que a China combateu a doença eficazmente por ser uma ditadura como um extraordinário silêncio cai sobre a actuação do seu governo. Isto equivale a dizer que a URSS não lidou bem com o desastre de Chernobyl porque não o conseguiu esconder qb de modo a não afectar o regime.