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Será a Festa do Avante um encontro de negacionistas? Afinal há mais de um século que, por todo o planeta, todas as tentativas de impor o comunismo levaram sempre ao mesmo resultado: miséria e repressão. Nunca falhou. Na Ásia, na Europa, em África e na América foram sempre e só pobreza e repressão os resultados conseguidos pelos comunistas. Contudo os comunistas continuam a acreditar ou a dizer que acreditam que o comunismo visa uma sociedade mais justa e próspera. Logo os comunistas são negacionistas, ou não? A fazer fé no dicionário são, pois o negacionismo consiste na “acção de negar ou não reconhecer como verdadeiro um facto ou um conceito que pode ser verificado empiricamente”. Mas felizmente para os comunistas portugueses o seu negacionismo é poetica e impropriamente designado como utopia e sonho e assim, em vez de lunáticos perigosos, passam os comunistas por justiceiros românticos.

Esta imunidade ao negacionismo é uma vantagem acrescida nestes tempos em que em Portugal tudo e todos correm o risco de ser rotulados como negacionistas: ao juiz negacionista, juntou-se a mãe negacionista a par de um colectivo de negacionistas que se destacaram não pelo que negaram mas sim pelo que afirmaram sobre Ferro Rodrigues. Entretanto a expressão “eu não sou negacionista mas” tornou-se um mantra para não ficar do lado errado.

Ora não passa de um exercício de má fé transformar num grupo homogéneo movido por interesses obscuros, aqueles que de forma diversa e com razões diversas (e frequentemente também com falta delas) colocam em causa as medidas tomadas ao abrigo do combate à pandemia da Covid 19 ou questionam a seguranças das vacinas.

A fulanização dos negacionistas tornou-se uma prova de vida das máquinas de debitar certezas em que muitas redacções estão transformadas. Mas não só. A tecnologia levou a que nesta pandemia passássemos de cidadãos a espectadores: quais participantes de um reality show intitulado Em busca do Covid Zero confinámos. Desligados da realidade, passámos a ver nos múltiplos écrans que nos rodeiam o avançar do inimigo que nos garantiam propagar-se porque nos portávamos mal e não porque existem épocas do ano em que as condições atmosféricas propiciam a propagação das doenças respiratórias infecciosas (nunca mas nunca mesmo se invocou tanto o ambiente e a ecologia e nunca se pretendeu tanto fazer tábua rasa das questões ambientais e da sazonalidade na propagação de um vírus.) Catadupas de números tornaram o medo desproporcionado e aboliram qualquer capacidade de relacionar: o que explica que o número de mortos por milhão de habitantes seja tão  alto em países europeus como a República Checa, a Bélgica ou a Hungria? O que leva a que  o Perú, país que foi sujeito a um confinamento brutal e, pasme-se, com abordagem de género, tenha o dobro de mortos por milhão de habitantes do que os países seus vizinhos? E como se explica que a Suécia que não confinou tenha comparativamente menos mortos que Portugal, Espanha, Itália, França…?

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O conceito de negacionismo surgiu  no final dos anos 80 do século passado em França e versava os grupos que negavam o Holocausto levado a cabo pelos nazis. Rapidamente o termo negacionista passou a ser utilizado para definir aqueles países/regimes que negavam e negam genocídios praticados sob as suas ordens: os comunistas negam o genocídio dos ucranianos (Holodomor); a Turquia não aceita que se defina como genocídio o extermínio dos arménios e a República Popular da China faz por manter ignorado aquele que é considerado um dos maiores genocídios de que há registo,  a Grande Fome vivida naquele país entre 1958 e 1962 após Mao ter decretado o Grande Salto em Frente.

Ora esta pandemia trouxe uma reformulação do conceito de negacionismo. Este já não implica uma atitude activa “de negar ou não reconhecer como verdadeiro um facto ou um conceito que pode ser verificado empiricamente”. Negacionista é agora também aquele que não  declara activamente a sua concordância face à  verdade conveniente de cada momento no combate à pandemia. Amanhã será sobre outro terror também ele a exigir medidas rápidas, drásticas, excepcionais. Tudo indica que as alterações climáticas vão substituir a Covid no papel de terror que nos vai obrigar a mudar de vida e aceitar aquilo que sempre dissemos recusar. Por exemplo, que se discriminassem pessoas por aquilo que pensam.

PS 1. Um estranho cortejo avançava este sábado, 18, na zona de Sete-Rios em Lisboa: vários polícias em motos e automóveis acompanhavam um grupo de ciclistas. Espantosamente os ciclistas ignoravam as duas ciclovias paralelas existentes neste local da capital (ciclovias da Conde Almoster e da Radial de Benfica) e pedalavam pelo asfalto devidamente escoltados pela frota automóvel da polícia. Para mais tudo isto aconteceu no âmbito de um evento denominado Lisboa Ciclável que diz ter “como objetivo promover a utilização da bicicleta e das ciclovias da cidade de Lisboa”. Para lá do óbvio absurdo deste caso — se o evento se destinava a promover a utilização das ciclovias porque não as usavam? —, o folclore em torno do uso da bicicleta está a ficar insuportável. 

PS 2. A forma festivo-infantil como o mundo mediático acompanhou a chegada de Biden à Casa Branca deixou muito boa gente sem palavras para descrever o que está a acontecer: depois de ter ignorado os parceiros europeus na retirada do Afeganistão, a administração Biden levou a Austrália a romper o acordo que este país fizera com a França com vista à aquisição de submarinos nucleares. A NATO vive uma das suas crises mais graves e a UE está sem cabeça a ver o mundo fugir-lhe debaixo dos pés. Aos jornalistas como é óbvio Trump faz-lhes falta. Com Trump na Casa Branca tudo isto era fácil de explicar.