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Recordando Frank Carlucci /premium

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Frank Carlucci liderou e simbolizou a mudança da política externa norte-americana que viria a ser vigorosamente consagrada pelo saudoso Presidente Ronald Reagan.

É ainda relativamente conhecido entre nós o episódio em Washington, no já longínquo mês de Outubro de 1974, em que Henry Kissinger terá dito a Mário Soares que este ia ser o Kerensky português. Mário Soares terá respondido que não queria ser Kerensky. E Kissinger terá ripostado que “Kerensky também não queria”. Segundo algumas versões, Soares terá ainda ripostado que “nesse caso, desta vez, Kerensky vai vencer”.

O que é talvez menos recordado entre nós é que foi na sequência desse almoço em Washington que Kissinger decidiu nomear uma nova embaixada norte-americana em Lisboa, sob recomendação do General Walters. A equipa era chefiada por Frank Carlucci, secundado por Herbert Okun e o Coronel Robert Schuler. Todos eles falavam fluentemente português e tinham trabalhado com o General Walters no Brasil, na década de 1960.

Kissinger considerava que a causa democrática era inviável em Portugal e que os comunistas iam inevitavelmente vencer. Preconizava uma linha dura de apoio a forças extra-parlamentares como o ELP e o MDLP. A nova embaixada norte-americana em Lisboa tinha sido nomeada para implementar essa orientação.

Surpreendentemente, o trio chefiado por Frank Carlucci contrariou as orientações de Kissinger. Em boa parte porque falavam fluentemente português e tinham conhecido bem o Brasil, depressa se aperceberam de que existia em Portugal uma forte sociedade civil que não iria aceitar docilmente a escravatura comunista. Essa sociedade civil era a esperança da causa democrática em Portugal — e os EUA deviam apoiá-la.

Isso implicava que os americanos deviam distanciar-se de todo e qualquer saudosismo do Antigo Regime salazarista e apoiar claramente os partidos democráticos parlamentares — PS, PSD e CDS — procurando promover o entendimento entre eles e os seus líderes. De certa forma, podemos dizer que a grande manifestação democrática anti-comunista da Fonte Luminosa corroborou aos olhos de Washington a opção de Carlucci contra a opção de Kissinger.

Estes são factos relativamente conhecidos e certamente ajudaram muito à viabilização da transição à democracia em Portugal. Eles seriam mais do que suficientes para prestar homenagem a Frank Carlucci. Mas há algo mais fundo a dizer sobre este tema.

Frank Carlucci liderou e simbolizou a mudança da política externa norte-americana que viria a ser vigorosamente consagrada pelo saudoso Presidente Ronald Reagan. Essa mudança vigorosa consistiu na inequívoca defesa da democracia, da economia de mercado, do sentimento nacional e da liberdade religiosa — à escala mundial. Isso levou ao abandono do apoio norte-americano a patéticas ditaduras reaccionárias, pretensamente pró-ocidentais; simultaneamente, levou à aberta ofensiva política e intelectual contra a escravatura trans-nacional (também conhecida como “anti-nacionalista” ou “internacionalista”) do comunismo soviético.

Os habituais “companheiros de estrada” da esquerda politicamente correcta escandalizaram-se na altura contra o “anti-comunismo primário” do Presidente Reagan. Mas as vozes da liberdade ordeira não paravam de crescer. John O’Sullivan, antigo conselheiro de Margaret Thatcher, recorda num livro notável como Ronald Reagan, Margaret Thatcher e, num outro plano, o Papa João Paulo II inspiraram a redescoberta da causa da liberdade ordeira na década de 1980. Esta redescoberta da causa da liberdade ordeira culminou na queda do Muro de Berlim, em 1989, e na ulterior vertiginosa ascensão mundial da democracia, fundada em Parlamentos nacionais.

Seria seguramente pretensioso e pouco credível se um português dissesse que o sucesso da transição democrática em Portugal — bem como a vigorosa opção democrática de Frank Carlucci — contribuíram decisivamente para esta inauguração da “Terceira Vaga de Democratização” à escala mundial. Mas foi Samuel Huntington quem o disse, em “The Third Wave: Democratization in the Late Twentieth Century” (1991). E os principais estudiosos das transições democráticas têm aceitado essa tese — depois de, no início, terem saudavelmente tentado submetê-la a refutação.

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