O pai de uma amiga minha de infância passa a vida a queixar-se de dores musculares, de não conseguir dormir bem e de problemas intestinais vários que o afectam habitualmente. Como frequentei durante muito tempo a sua casa, e desde que me lembro de ser gente, assistia a miúde ao lamento deste Homem e à preocupação que poucas vezes lhe dava tréguas sobre o estado da sua saúde. Muitas vezes, o seu sofrimento era realmente intenso, despoletando tentativas vãs por parte da família em explorar hipóteses explicativas e lhe dar conselhos vários sobre como proceder ou conseguir alívio. Fui-me apercebendo que apesar de este ter uma alimentação equilibrada, de não beber álcool ou fumar, de as suas análises clínicas nem sequer revelarem um mísero valor a assinalar de colesterol “mau” e de ser acompanhado pela sua Médica de Família, cumprindo religiosamente os exames complementares que lhe eram prescritos, o mal-estar deste persistia intermitentemente, retirando-lhe alegria, tolerância, esperança… enfim, qualidade de vida!

Com a intimidade existente por tantas vezes em casa deles ter brincado, almoçado, jantado e inclusive dormido, fui conhecendo melhor o pai desta minha amiga, descobrindo que tomava há mais de quarenta anos um ansiolítico todas as noites, que ia gerindo os desarranjos intestinais com antidiarreicos e esticando as pernas no sofá quando as dores se tornavam mais fortes. Mas fui-me também apercebendo que muito raramente falava dos problemas que o iam angustiando, que não sabia expressar nem tão pouco regular as emoções que o assaltavam, que o seu estado de humor era sempre pior dentro de casa do que na vida social exterior e que a maioria das actividades em que se envolvia eram mais pontuadas pelo dever e obrigação do que por serem fonte de prazer. Mas em seu redor, tão pouco abundavam pessoas capazes de o ajudar a conseguir legendar as suas “dores” ou a desvendar o seu sofrimento, dotando-o de estratégias eficazes para o enfrentar e muito menos para o prevenir.

Eu era apenas a amiga da filha que os visitava e que ainda hoje é certamente olhada como a menina pequena das tranças louras. Quando me atrevia a devolver-lhe normalidade, quando dava nome às emoções que o seu corpo gritava ou se ilustrava alguns passos para uma mudança sua de comportamento, recebia cepticismo e descrença. À sua volta, apenas eu lhe falava e agia assim. E ainda que quase da família, sabemos que “santos da casa não fazem milagres” …

Um em cada cinco Portugueses sofrerá de um problema de saúde psicológica ao longo da sua vida. Mas se aprendemos que lavar as mãos é um hábito que nos ajuda a evitar a propagação de infecções, que escovar os dentes após as refeições previne o aparecimento da cárie dentária, que praticar exercício físico moderado tem vantagens cardiovasculares porque não, por exemplo, aprender a relaxar, a identificar e a compreender o que sentimos, a focar em soluções e a estabelecer relações positivas para um maior bem-estar e saúde?

Celebra-se a 10 de Outubro, o Dia Mundial da Saúde Mental. Porque apesar da saúde englobar as dimensões física e mental, continua a persistir muita falta de conhecimento e compreensão, medo do desconhecido, falsas crenças e estereótipos acerca das doenças mentais a par de ignorância sobre que estratégias e comportamentos adoptar que contribuem para a protecção da saúde psicológica e para uma maior qualidade de vida. Não queira ter apenas saudinha. Faça por ter saudinha, mas da boa!