Temos lido nos últimos dias que grandes empresas do setor financeiro têm vindo a afastar-se do projeto Libra, a moeda virtual que o Facebook quer lançar. Visa, Mastercard, Stripe, eBay, entre muitos outros alegam incertezas regulatórias que as inibem de avançar com o projeto em causa.

A meu ver, existem três aspetos que temos de ter em conta para compreender a dimensão desta questão e que poderão fazer com que a Libra não chegue a ver a luz do dia (embora tenha sérias dúvidas disso).

 1. Tecnologia

Falta tecnologia para a Libra nascer? Não. Existe tecnologia suficiente para que haja uma nova moeda criptográfica. Já vimos outras a operar no mercado, como a Bitcoin ou a Etherium que, embora voláteis, cumprem um requisito muito importante: permitem transferir dinheiro para o outro lado do mundo, em segundos e a custar cêntimos.

Mas esta tecnologia não é acompanhada pela regulação, o que faz de si um primeiro obstáculo.

2. Regulação

Falta regulação para a Libra nascer? Mais ou menos.

Existe regulação no setor financeiro que permite a existência de transações digitais em segurança. No entanto, e outra vez, não existem soluções no mercado regulado que nos permitam transferir dinheiro para o outro lado do mundo, em segundos e a custar cêntimos.

A Libra vem com a promessa de ter um valor anexado a unidades monetárias reais para reduzir a sua volatilidade, mas encontra enormes lacunas na regulação, que ainda não acompanhou a inovação que se pretende no mercado das transações financeiras, com a velocidade desejada e obrigatória nos dias de hoje.

3. Parceiros

Falta vontade por parte dos parceiros em ver a Libra nascer? Sim.

Muito interligado com o ponto anterior da regulação, os parceiros da Libra como a Mastercard, a Visa ou a Stripe, olham para este projeto e querem muito fazer parte dele do ponto de vista de tomarem o seu papel na inovação que o mundo quer ver e usar.

Entraram no projeto, viram a dor de cabeça que a inexistência de regulação causa, e saltaram fora sem assumir uma posição mais preponderante na alteração e construção de nova regulação.

Por outro lado, viram que a Libra é uma ameaça real ao seu negócio. Tanto a Visa como a Mastercard, por exemplo, olharam para a Libra e vêem um concorrente pronto a retirar transações e pagamentos das suas mãos.

Com exceção para estes três aspetos, o que me parece verdadeiramente inacreditável e preocupante é que continuamos, com ou sem Facebook e em pleno séc.XXI, a não conseguir, no mercado regulado, transferir dinheiro para qualquer parte do mundo, em segundos e a custar cêntimos. Temos tecnologia que está pronta a ser utilizada mas que, face aos bloqueios regulatórios e concorrenciais, não é posta em prática, obrigando milhões de pessoas no mundo a pagar uma taxa média de 9% por transação, e a ter de esperar dias para que o dinheiro viaje.

Isto é uma fortuna e um roubo inaceitável.

Sebastião Lancastre é presidente da easypay. Filho do fundador da Unicre e ex-quadro da Unicre, iniciou a sua carreira profissional na área comercial na Xerox Portugal. Em 1992 ingressou na Unicre como Assessor da Direção Geral. Na Unicre até 1999 assumiu, também, a função de Responsável de Marketing do Cartão Unibanco. Em 2000 criou a easypay, que iniciou atividade em 2007. É formado em Engenharia de Sistemas Decisionais, pelo Instituto de Matemáticas Aplicadas. Frequentou um MBA na área de Sistemas de Informação e foi professor convidado no IADE na Pós Graduação em Internet e Marketing.