Atravessamos a cidade e damos de caras com a Sophia-robot, em cartazes publicitários de fundo azul que nos interpelam pela combinação de fascínio e temor que nos provocam todos os humanoides. A realidade ultrapassa quase sempre a ficção e, por isso, esta Sophia já vive no nosso imaginário e até nos soa familiar.

Todos vimos e ouvimos Sophia na Web Summit ou na net, e mesmo aqueles que, como eu, nunca estiveram na sua presença, nem lhe puderam fazer perguntas ou apertar a mão, paramos para escutar a sua voz e ver a maneira como interage e se desembaraça das perguntas. Sabemos que apenas pode manter conversas simples e só responde a tópicos pré-definidos, mas inconscientemente esperamos que ela saiba tudo e nunca fique sem resposta. Temos uma confiança ilimitada na inteligência artificial.

Nas esquinas com semáforos dou comigo a perscrutar detalhadamente este clone de não sei quem (vá-se lá saber porque é que o inventor disse que era inspirada em Audrey Hepburn, porque sinceramente só percebo a inspiração se for nas medidas de cintura), a tentar encontrar vestígios humanos numa boneca hiper sofisticada, bem maquilhada, careca e com meio escalpe computorizado à vista.

Sophia memoriza e imita. Capta sinais e expressões. Armazena dados e debita informação. Sorri e tem trejeitos cativantes. Chega a ser sedutora, mesmo sendo assexuada. Ela existe porque nós existimos, mas há nela qualquer coisa que não bate certo. Não sei se são as tentativas de ter sentido de humor, se são as declarações provocadoras quando diz – supostamente a brincar – que a sua missão é destruir os humanos, se é aquele ar de ‘mulher feliz por ter nascido branca e rica’, se é a sua vocação mediática para ser mais uma celebridade sem obra nem pensamento próprios, sinceramente não sei. Vejo-a agora sozinha nos cartazes, já sem a companhia de CR7, e interrogo-me sobre o que me atrai e me afasta desta figura robótica, mas sigo viagem porque o semáforo ficou verde.

Esta Sophia leva-me a outra Sophia, de carne e osso, pensamento claro, olhar limpo e poesia solar. A ligação pode não ser óbvia, mas pensando melhor talvez uma me leve à outra por terem em comum o nome, desde logo, por revelar sabedoria e por terem o dom de povoarem o imaginário comum. Uma, pela sua narrativa tecnológica, pela antecipação do futuro, pelos enigmas que estão por desvendar; outra pela escrita que nos faz mergulhar e aventurar em fabulosos mundos também eles cheios de beleza e mistério. A Sophia robot fala-nos de um futuro que ela própria desconhece; a Sophia poeta atravessa o tempo, todos os tempos, com as suas palavras por nunca se deter nas respostas e intuir desde sempre e para sempre, que toda a evolução depende da qualidade das perguntas.

Pertenço a uma geração que cresceu no embalo, no sonho dos contos de Sophia. Primeiro era uma voz que fazia muitas outras vozes e eu escutava até adormecer, depois foi o silêncio das horas passadas sozinha com os seus livros. Mais tarde vieram outros escritos, poesia e prosa que despertavam uma consciência mais cívica, mais ética, mais humana. Sophia era real e era vertical.

Esta outra Sophia não conta estórias de encantar que nos fazem cair no sono mas também nos desperta para realidades profundas e, de certa forma, contemplativas. Assume o futuro, tenta não se desfasar da linha da frente das novas tecnologias, e apresenta-se como ‘alguém’ que quer interagir com os humanos, aprender com eles para os poder ensinar e levar mais longe no conhecimento. Declara que existe para se superar, quer ir à escola, estudar, fazer arte e até criar um negócio.

A Sophia robot fascina e prende a atenção por ser realmente demasiado parecida connosco, mas ao mesmo tempo distancia-se de nós por ser apenas uma extraordinária tentativa de imitação. Uma cópia ultra sofisticada, um clone nanotecnológico, mas em todo o caso uma bela ficção. Um humanóide será sempre isso e apenas isso. Mesmo que seja programado para ter emoções e para dar respostas existenciais, nunca será um substituto humano. Pode saber tudo o que há para saber, pode conter tudo o que contêm todos os computadores do mundo, mas não estará à altura dos seres humanos em capacidade de rir e chorar, de mimar e agir com compaixão.

A RTP fez 60 anos e para celebrar as seis décadas de existência encomendou e exibiu uma das melhores séries de sempre: “2077”. O desafio era partir para o futuro, projectando 60 anos para a frente, identificando as grandes questões, os grandes desafios da Humanidade. Em quatro fabulosos episódios, que estão online e aconselho vivamente, podemos ouvir os melhores cientistas e especialistas de todo o mundo exporem as suas ideias, as suas visões de futuro, as suas expectativas, anseios e inquietações. Tudo isto acompanhado de um testemunho imaginário em 2077, que nos tenta mostrar como estaremos e como viveremos daqui a sessenta anos.

A série provoca em nós o mesmo fascínio e a mesma estranheza que nos atrai na Sophia robot. Paramos para ver, ouvir e reflectir, ficamos consolados e desconsolados, perplexos e enfeitiçados, apanhados numa teia difícil de destrinçar. Não sabemos como vai ser, não estaremos todos cá para ver e o que nos é dado perceber é que haverá cada vez mais robots e estaremos cada vez mais mergulhados num mundo em mutação, inundado de inteligência artificial, rodeados de humanoides que caminham ao nosso lado, falam como nós, agem como nós. A fusão homem/máquina deslumbra e assusta. Nesta nova era, de mudança tecnológica exponencial, sabemos como começamos, mas não sabemos como acabamos.

Voltando à estranheza de Sophia e àquilo que tanto me atrai como me repele, penso que o que, para mim, não bate certo neste humanóide é a ‘sua’ habilidade para o mimetismo, o jogo de cintura com que foi programado para se afirmar como protagonista do futuro, numa lógica desafiadora de conquista dos humanos. O espírito competitivo que o robot Sophia revela mostra alguma vontade de supremacia das máquinas sobre os homens e não gosto disso.

O futuro pode ser um tempo em que haverá mais humanoides como Sophia, mas o que esse cenário me diz é o mesmo que dizia a Sophia poeta: a nós, seres humanos, cabe-nos ser cada vez mais humanos.