Amanhã, Portugal vai a votos. Nestes dias, os cidadãos da União Europeia têm, mais uma vez, a oportunidade de escolher os seus representantes no Parlamento Europeu. Estas eleições acontecem num momento de crise para o velho continente, de que o Brexit é o sintoma mais evidente. A Europa, que durante séculos foi a pátria da mais importante civilização do mundo, parece ter perdido a sua identidade cristã, razão da sua unidade e grandeza, e é agora um continente à deriva.

1. Os partidos dos católicos ou os católicos dos partidos anticatólicos

O patriarcado de Lisboa publicou, na sua página numa rede social, um quadro elaborado pela Federação Portuguesa pela Vida, que elucidava os cristãos sobre o ideário dos vários partidos, em relação a questões que são essenciais para qualquer fiel que queira votar de forma livre e responsável. Quando se soube, iam caindo o Carmo e a Trindade: Valha-nos Deus, que voltou o fantasma do voto católico! Ai Jesus, que os bispos andam a fazer campanha eleitoral! Que Nossa Senhora nos acuda e salve o povo laico do papão do clericalismo!

E, pronto, o esquema sobre a posição dos partidos quanto às questões concernentes à vida e não só, desapareceu. Com certeza que se poderia ter feito melhor – mais temas e em relação a todos os partidos – mas a iniciativa merecia ter sido louvada e aperfeiçoada, em vez de censurada e suprimida. Está de parabéns o laicismo dominante, que quer uma Igreja amordaçada e confinada às sacristias, único reduto onde ainda permite a sua obscura existência.

As puríssimas virgens, que tanto se escandalizaram com o atrevimento dessa publicação num ‘site’ oficialmente católico, não ficaram, contudo, incomodadas com a ida, no passado dia 16 de Maio, de José Manuel Pureza à igreja do Campo Grande, para falar sobre a sua militância política no partido mais anticatólico de Portugal, porque defensor acérrimo de todas as mal-ditas causas fracturantes.

Apesar dessa conversa, integrada no ciclo “E Deus nisso tudo”, ter tido lugar dez dias antes das eleições e no espaço sagrado de um templo católico, ninguém se escandalizou. Nem sequer de ouvir Pureza, de camisa aberta, refastelado num sofá, mesmo à frente do altar em que se celebra a eucaristia, dizer desrespeitosamente que “Jesus é um tipo que se dá com prostitutas”.

A conclusão é óbvia: não se pode informar os católicos sobre as opções dos diversos partidos, em questões que relevam para a fé e para a justiça social, mas pode-se ceder o altar de uma igreja lisboeta, a dez dias das eleições europeias, ao principal promotor, no nosso país, da eutanásia.

2. Grato a Greta? Não, obrigado!

Toda a gente conhece uma menina sueca que dá pelo nome de Greta Thunberg. É a Malala da moda mas, em vez de reivindicar o direito à educação para todas as raparigas, ou os direitos humanos, defende a ecologia e, alarmada pelas apocalípticas ‘alterações climáticas’, profetiza, para breve, o fim do mundo. Greta também promoveu a greve dos liceais às aulas e as manifestações de jovens que, em todo o mundo, exigiram políticas mais ‘amigas’ do ambiente, como agora se diz. Claro que os seus coleguinhas de escola lhe agradeceram o dia feriado, e os meios de comunicação social ficaram muito satisfeitos por verem os adolescentes tão preocupados com o clima, a extinção dos ursos polares, o aquecimento global e outras causas maiores da humanidade.

Thunberg foi também quem, vendo a solidariedade mundial suscitada pelo incêndio de Notre Dame, pediu mais empenho para salvar o planeta, como se esta fosse a única causa digna da atenção da comunidade internacional. Esta menina tão bem-comportada, que diz tudo o que é politicamente correcto, até deu, deste jeito, uma discreta alfinetada anticlerical, o que fica sempre bem num discurso laico e multicultural. Claro que, mais uma vez, foi muito aplaudida e publicitada.

Outro é o caso de Izabella Nilsson Jarvand, também sueca, mas de origem iraniana, de 15 anos de idade, que se tem manifestado contra o globalismo e as políticas sociais libertárias, que são apanágio da esquerda pós-moderna e anticristã. Ao contrário de Greta, Izabella defende a vida e a família, e luta contra a imposição da ideologia de género nas escolas. Não obstante a sua proveniência, tem uma atitude crítica em relação à imigração descontrolada, sobretudo pelas suas implicações culturais e sociais.

A este propósito, no passado dia 15 de Maio, João Silveira escreveu: “Ambas são suecas, ambas são muitos jovens e ambas têm um discurso forte. Mas por que razão Greta é mundialmente conhecida, tem sido promovida pelos meios de comunicação social e tem estado presente nos grandes palcos políticos, ao passo que Izabella não? Por uma razão muito simples: Greta é útil à propaganda do marxismo cultural e Izabella é um obstáculo a essa propaganda, por isso aquela é aplaudida e esta é desprezada. Greta é politicamente correcta, Izabella é politicamente incorrecta. Greta tem de ser promovida a todo o custo, Izabella tem de ser silenciada a todo o custo”.

3. Eurovisão, ou a visão de uma Europa não cristã

Não tive tempo, nem pachorra, para assistir ao festival da Eurovisão, mas o que vi da semifinal em que Portugal foi eliminado chegou para poder concluir que o que este continente consome e exibe é, salvo honrosas excepções, horrendo.

Não só por causa das letras e das melodias, ou dos cançonetistas e seus acompanhantes, embora alguns deles metessem medo ao susto. Não o digo por nada em especial, mas pelo espectáculo em si, que foi, na minha modesta opinião, medonho.

A fé cristã não é apenas mais uma crença: é, principalmente, a religião da verdade, do bem e da beleza. Não foi por acaso que a Igreja católica construiu as catedrais, ao mesmo tempo que fundou os hospitais e as universidades. O Messias, de Haendel, ou o Requiem, de Mozart, não são belos apesar de serem cristãos, mas são belos precisamente porque o são. O que é genuinamente cristão é verdadeiro, é bom e é belo. Sem fé, Haendel não teria nunca composto o Messias; e Mozart jamais teria escrito o seu Requiem.

Sem a fé cristã, não teria havido Notre Dame, porque os construtores da catedral parisiense não a construíram por um ideal político, nem por devaneio artístico, mas em nome de Deus e para a sua glória. Por isso, as monumentais obras do regime comunista – soviético, chinês, norte-coreano ou outro – não passam de mamarrachos, se comparados, por exemplo, com as catedrais góticas.

A Eurovisão já não é um festival da canção, mas um espectáculo circense, em que nem sequer falta o número da mulher barbuda, que tanto pode ser um homem travestido de mulher, como uma mulher fingindo-se macho. Seja o que for é, obviamente, uma aberração, e um sinal de uma Europa divorciada da verdade, do bem e do belo: um continente que, na sua cultura dominante, já não é cristão.

Em dia de reflexão, porque véspera das eleições para o Parlamento Europeu, não há melhor conselho do que o de ler e meditar, para além do discurso de 25 de Novembro de 2014 do Papa Francisco ao Parlamento Europeu e ao Conselho de Europa, os magistrais textos proferidos, nessas instituições, por dois grandes europeístas: São João Paulo II, um grande santo; e Bento XVI, um grande teólogo.