Desde a campanha eleitoral nos Estados Unidos em 2016 ficámos a saber que Donald Trump se preparava para recuperar a ideia de “eixo do mal” já sem o Iraque, mas com os suspeitos do costume, a Coreia do Norte e o Irão. A semana passada Pyongyang deu passos rumo à desnuclearização. Há algumas horas, Teerão declarou que não renegoceia o acordo de 2015 com os Estados Unidos. Esta diferença entre o caso do nordeste asiático e o caso do Médio Oriente dá-nos três lições: a geopolítica está viva e recomenda-se, a geometria das alianças de cada estado é um dado fundamental e nem sempre é prudente acordar os cães que dormem.

Começamos pela questão de fundo: não existem razões fiáveis para acreditar que o Irão esteja verdadeiramente a falhar o cumprimento do acordo. É certo que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou que o Teerão terá mentido, mas as provas que apresentou de seguida não convenceram nem peritos nem a imprensa internacional. É muito difícil desligar esta denúncia (tão atempada) de um conjunto de questões que se iniciaram com a campanha de Donald Trump à presidência dos EUA. Ainda poderíamos ter pensado que se tratava de uma estratégia eleitoral “tudo-menos-Obama”, mas já se tornou claro que Washington transformou mesmo a sua política externa para o Médio Oriente no último ano e meio.

Senão vejamos: esta administração norte-americana quer influenciar decisivamente a geopolítica da região. É certo que os recursos do Médio Oriente já não representam o mesmo interesse vital do passado, mas a instabilidade regional, bem como a renovada força do Irão através de um cada vez mais forte domínio sobre as zonas xiitas e de uma parceria informal com Moscovo, levaram os EUA de Trump a tomar uma decisão: de apoiar inequivocamente o “outro lado”, ou seja uma outra coligação inconfessável, mas existente, encabeçada pela Arábia Saudita, e reforçada por Israel e pelo Egipto.

A administração Trump começou por tornar ruidosamente pública a sua preferência por Riad, apressando-se de seguida a apoiar Telavive ou, melhor dizendo, Jerusalém, onde instalará a sua embaixada em Israel no dia 15 deste mês. O Cairo tem tido um papel mais discreto, nomeadamente através da uma crescente aproximação a Israel, que só seria possível com a conivência dos EUA e da Arábia Saudita. Este eixo tem um objetivo comum muito claro: negar ao Irão a sua desejada ascensão a potência regional.

Simultaneamente, Donald Trump prometeu (também em campanha) um passo impossível: o de “rasgar” o acordo nuclear com o Irão. Impossível, porque além dos EUA e Teerão, há mais cinco signatários: a Alemanha, a China, a França, a Grã-Bretanha e a Rússia. Restavam duas opções: ou um abandono unilateral do acordo – retirando o alívio das sanções económicas – ou uma renegociação do mesmo. Ora, Trump usou as duas estratégias de uma só vez: deu um prazo aos estados europeus para proporem uma renegociação ou Washington bate com a porta. Paris, Berlim e mesmo Londres têm feito o que podem para tentar agradar a gregos e a troianos: por um lado estão satisfeitos com o acordo, mas por outro sabem que as relações com os EUA estão danificadas e que, apesar de Trump, a quem reagiram negativamente nos primeiros tempos, é crucial para a segurança europeia manter uma relação forte e estável com os norte-americanos.

Contudo, soubemos esta noite que as eventuais tentativas falharam. O Irão veio responder e não trouxe papas na língua: Teerão não aceita alterações ao acordo e se os EUA o abandonarem o Irão também sai. O ministro iraniano Mohammad Javad Zarif deixou bem claro que não pretende que a segurança iraniana dependa de terceiros e que o cumprimento de um acordo que levou anos a negociar legitima a posição de Teerão.

Esta assertividade iraniana está relacionada com três elementos fundamentais. O primeiro é a geometrias de alianças: o apoio da Rússia conferem-lhe um vigor político importante. O segundo já foi referido, é a geopolítica: Teerão, nomeadamente através do Hezbollah e outras forças irregulares, tem poder para desestabilizar (mais) um conjunto importante de países entre eles o Iraque, a Síria, o Líbano e o Iémen (que está em conflito com a Arábia Saudita). Além disso, o Irão tem argumentos sólidos: assinou um acordo há três anos e, até agora, não há razões sérias para pensar que o denunciou.

Não se pode acusar os Estados Unidos de não terem uma estratégia clara para o Médio Oriente: desde que Donald Trump se tornou presidente que não esconde que a sua escolha estratégica é um apoio inequívoco a uma hegemonia regional saudita-israelita em detrimento do Irão. Para isso, desencadeou-se uma crise. Resta saber se não se está a jogar um jogo demasiado perigoso; a tensão tem vindo a subir e não deverá ficar por aqui. O prazo para os estados europeus negociarem com o Irão (agora inflexível) acaba dia 12 e a inauguração da embaixada americana em Jerusalém está marcada para três dias depois, na comemoração do 70º aniversário da criação do estado de Israel. Entretanto, a Europa ficou sem opções e a resposta iraniana desta noite deixa claro que se acordou um cão que dormia.  Muitas vezes – e este é o caso – sabe-se como e quando se inicia uma crise internacional. É muito raro é saber-se como acaba.