Lembro-me com uma memória ainda fresca que o “pragmatismo” foi a palavra forte do último congresso do CDS e a necessidade da sua adopção enquanto linha de acção uma das ideias então mais presentes e que mereceu aplausos da generalidade dos congressistas, eu incluído. Mantenho a convicção.

Ser pragmático é perceber que o nosso discurso e atuação política devem desaguar em algo diferente da postura doutoral, intelectualmente sobranceira, desligada do senso comum, que sendo incompreendida pelas pessoas nos fazem desligar das mesmas, mas antes na formulação de propostas concretas, inteligíveis, concretizáveis e, sobretudo, que transmitam um sentimento de verossimilhança para os eleitores. Ser pragmático é falar para o país real e não para o ego.

Mas ser pragmático é diferente de ser vazio. Caminhar ao sabor do momento, à deriva das ideias, à boleia do simples mediatismo e a par do improviso, não é ser pragmático: é construir uma incógnita. Por isso, a concepção de pragmatismo que defendo é aquela que prevê uma acção assente num referencial ideológico abrangente mas claro, uma cartilha de valores definida e uma enunciação de princípios constante. Ser pragmático é falar para o país real com propósito e com propostas, com causas e consequências.

A decisão a que o CDS é chamado no próximo fim-de-semana beneficiará da utilização desse sentido de pragmatismo. Uma decisão que honre o partido e a honestidade da sua mensagem e que seja capaz de chegar às pessoas em condições em que elas possam entregar ao partido, no mínimo, a disponibilidade para a ouvir. Essa tomada de decisão será uma palavra dita ao país. Resta saber o que se quer dizer e que conclusão o país retirará daí. Após o miserável resultado que o país ofereceu ao CDS nos dois actos eleitorais do último ano, suspeito que a palavra que o país menos precisa de nos ouvir dizer, seja por palavras ou protagonistas, é continuidade.

Afinal, aquilo que o CDS vier a dizer ao país como resultado do seu congresso sairá da boca de um partido que vive um momento de crise profunda. E momentos de crise, sobretudo da dimensão desta, precisam de ter como resposta momentos de ruptura. Não uma ruptura destrutiva, mas uma ruptura renovadora. Não uma ruptura com a história, mas uma ruptura com certas circunstâncias. Não uma ruptura que exclua, mas uma ruptura que acrescente. Na verdade, o CDS não pode dar-se ao luxo de excluir quem quer que seja, mas não pode dar-se ao luxo maior de excluir o convite a novos protagonistas, fora da elite dominante, que refresquem a voz e o rosto com que o partido se apresentará para futuro. Não partilho da tese de que todos os que tiveram proximidade com a estratégia que resultou no desastre do último ano devam ser vistos como incapazes de formular estratégias vencedoras. Em muitos casos, acho até o contrário. Mas partilho da visão de que essa proximidade os desgastou, transformando-os em rostos cansados e vozes roucas. O momento exige ao CDS um líder de rosto saudável e voz enxuta para se apresentar ao país.

Nesse sentido, partilho uma ideia que tenho há muito. Nestas coisas, o bom líder é naturalmente aquele que reúne atributos como a capacidade política, a inteligência, a perspicácia, a assertividade, a confiança e a confiabilidade, a capacidade de agregar e mobilizar, o carisma, a competência. Mas o líder ideal é aquele que, a estes atributos, acrescenta um outro que, ainda que seja bem mais intangível, é mais importante: ser a pessoa certa no tempo certo.

É isso que torna o Francisco Rodrigues dos Santos a resposta certa para a dúvida em que o CDS se encontra. Porque este é o seu tempo. Porque tem, de forma inequívoca, as qualidades políticas, intelectuais e de liderança necessárias. Porque tem a bagagem e clarividência ideológicas que sintetiza as várias sensibilidades que se respiram dentro do CDS e as faz confluir num ponto de equilíbrio e moderação que apenas aqueles que por uma intencional má fé ou legítimo desconhecimento mais profundo do Francisco lhe podem negar. E porque, para lá desses atributos que eventualmente poderia encontrar noutras alternativas (concretas e hipotéticas) para a liderança do CDS, dá algo que ninguém conseguiria oferecer como ele: a boa novidade que a ruptura necessária impõe.

Tive, a propósito de momento semelhante na Juventude Popular, a oportunidade de viver um momento em que as minhas decisões e as do Francisco se cruzaram e poderiam conflituar. Nesse momento, tive a felicidade de conseguir ver para lá do imediato e do evidente, olhar para lá das virtudes e dos defeitos de cada um, e descobrir o mais importante para sairmos do cruzamento juntos e pela mesma saída: era o tempo dele e esse é um argumento inquestionável. Estava certo na minha crença. Agora é hora de voltar a acreditar.