TGV

Uma tragédia a alta velocidade

Autor
387

Para quê ceder às pressões espanholas e entrar num negócio que a priori não é lucrativo e que conduzirá Portugal a maior dependência de uma Espanha centralizadora, como se está a ver no caso catalão?

Afinal, o TGV não é tão tabu como dizia recentemente o primeiro ministro, e chegou finalmente a hora de encarar esse tipo de rede ferroviária que “está a crescer na maior parte da Península Ibérica e da qual Portugal está de fora”.

Para sabermos exatamente o que aí vem, temos de observar o país onde o TGV mais se tem estendido, e que nele investiu 50 mil milhões € obtendo a maior rede da Europa e a segunda maior do planeta logo após a China – 3.240Kms, e que tanto insistentemente nos quer fazer entrar nessa infraestrutura: a nossa vizinha Espanha. Vamos a isso.

O estudo económico-financeiro com mais isenção e autoridade publicado em Espanha sobre o TGV chama-se “Contabilidad Financiera y Social de la Alta Velocidad en España” e foi realizado por Ofelia Betancor y Gerard Llobet. Nele se conclui que nenhuma rede espanhola de alta velocidade será capaz de amortizar os custos iniciais de investimento, mesmo levando em conta a existência de determinados benefícios sociais. A linha Madrid-Barcelona só conseguirá recuperar, a longo prazo, cerca de 45% do capital investido, a Madrid-Andaluzia pouco mais de 11%, a Madrid-Levante menos de 10%, e as ligações de Madrid com o Norte de Espanha nunca chegarão sequer a cobrir os seus custos de funcionamento, pelo que se prevê que nada se recupere do custo inicial.

Para recuperar o investimento, seria necessário que o mesmo número atual de utentes estivesse disposto a pagar bilhetes 80% mais caros para chegar de Madrid a Barcelona, 195% mais caros para o Levante, 252% para Andaluzia, e 425% para o Norte de Espanha. É evidente que estes aumentos reduziriam radicalmente a clientela, diminuindo dramaticamente o número de passageiros e as receitas. Por isso os investigadores concluem: “Os nossos resultados indicam que em nenhum caso os rendimentos líquidos da operação dos corredores já existentes compensam a importância investida na construção da infraestrutura. Isto é especialmente verificável quando nos concentramos na rentabilidade financeira, mas também ocorre, embora em menor medida, quando temos em conta outras vantagens sociais que se poderiam gerar. É manifesto, através destes resultados, que estes investimentos não são rentáveis, nem para as empresas nem para a sociedade.

Os dois investigadores espanhóis analisaram também até que ponto as receitas atuais permitem cobrir os gastos de financiamento, considerando nulo o custo de investimento. Neste caso, os custos de operação dos comboios e suas infraestruturas são compensadores, mas “não se deve esquecer o elevado custo de oportunidade que terá assumido a sociedade espanhola em consequência dessas decisões de investimento, e a persistência das suas consequências para o futuro.”

Numa demonstração de preocupação social, os investigadores aprofundaram igualmente os efeitos socialmente redistributivos do TGV: “Diferentemente do que sucede com outras infraestruturas, o perfil do usuário do comboio de alta velocidade é habitualmente o de um viajante de classe media/alta que se desloca por motivos de trabalho, … distinto do perfil dos contribuintes que acabarão por financiá-lo”.

O remate final do estudo é elucidativo: “Em conclusão, os nossos resultados sublinham a falta de justificação economicamente fundamentada para decidir os investimentos em alta velocidade em Espanha, o que nos obriga a pensar noutras motivações. Uma delas é o suposto rendimento político atribuído à alta velocidade para os governos que nela investiram, o que é consistente com a ausência de análises custo-benefício publicadas pelo ministério que promoveu a sua construção. Outras justificações frequentemente empregues têm sido o prestígio que aportou a Espanha, a ajuda que proporcionou ao desenvolvimento da indústria nacional ou a coesão política, elementos que se afastam da objetividade da análise custo-benefício dos projetos e da realidade de uma sociedade onde cada vez é mais patente o custo de oportunidade destes investimentos. Preston (2013) discute as motivações que sustentaram a construção de infraestruturas de alta velocidade em diversos países (França, Japão, China, Itália, Reino Unido, Taiwan y Espanha), situando a Espanha no mesmo grupo da China, onde a rentabilidade – financeira e social – tem, no melhor dos casos, um papel totalmente secundário.

Resumindo, o TGV espanhol é triplamente chumbado:

  • Chumbado na perspetiva social: é um projeto elitista, tendo por objetivo favorecer as classes média e alta através da atomização e amortização dos custos pelas classes mais baixas e numerosas;
  • Chumbado na perspetiva económico-financeira: não serão recuperados os custos de investimento, e as receitas de funcionamento não compensam as importâncias investidas na infraestrutura;
  • Chumbado na perspetiva de outras eventuais vantagens laterais, como o desenvolvimento da indústria nacional ou o aumento da coesão política espanhola: o custo de oportunidade do investimento inicial é demasiado elevado até para justificar essas eventuais vantagens.

Este é o contexto que não se pode iludir do projeto de TGV ibérico: um enorme e elitista elefante branco, que visa trazer prestígio para Espanha à custa dos contribuintes peninsulares, sendo justificado essencialmente por objetivos políticos de coesão espanhola.

Do ponto de vista económico/financeiro, cada vez se justifica mais a bifurcação: mercadorias por transporte ferroviário/passageiros por transporte aéreo. O preço do petróleo e a concorrência veio baixar de tal forma as ligações aéreas que hoje é possível comprar bilhetes de avião muito mais baratos do que as mesmas ligações por via ferroviária. Ir contra esta tendência é desafiar as leis da rentabilidade social e económica. Em nome de quê?

Acresce que o TGV iria prejudicar a nossa principal prioridade ferroviária, que é garantir o acesso das mercadorias do porto de Sines ao centro da Europa. São os próprios investigadores espanhóis que o confirmam ao reconhecer que “a via de alta velocidade não é adequada [para o transporte de mercadorias] ao dispor de tramos de maior declive do que o recomendável” para este tipo de transporte.

Para quê ceder às pressões espanholas e entrar num negócio que a priori não é lucrativo e que vai conduzir Portugal a maior dependência de uma Espanha crescentemente centralizadora, como se está a verificar no caso catalão?

A não ser que esteja de volta o tempo das obras faraónicas socráticas, com o seu chorrilho de adjudicações suspeitas e empreitadas sobrevalorizadas.

Aproxima-se uma tragédia financeira. A alta velocidade.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Combustível

O significado político dos coletes amarelos

Luís Ribeiro

As manifestações dos coletes amarelos foram a primeira movimentação popular de peso contra políticas ambientais. O seu profundo significado político reside precisamente no reconhecimento desse facto.

Estados Unidos da América

Como lidar com Donald Trump

Luís Ribeiro

O “animal político” Trump alimenta-se das críticas, que lhe são tanto mais nutritivas quanto mais radicais forem. Ele pode com todo o tipo de ataques: apocalípticos, baixos, ordinários, até brejeiros.

Diplomacia

Portugal e o Brexit

Luís Ribeiro

Portugal, ao colar-se às posições continentais europeias, não renega apenas o seu passado de aliança com Inglaterra, está também a querer afirmar-se num terreno onde corre o risco de ficar isolado.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)