Sou um grande fã de sagas familiares. Gosto de histórias que acompanham, ao longo de gerações, as aventuras de membros da mesma família. Durante anos, a minha saga favorita foi a dos Corleone. O que eu vibrei com a astúcia daqueles emigrantes sicilianos! Ainda hoje sei de cor falas inteiras d’O Padrinho e não vou a um velório sem referir, para consternação dos parentes, que o defunto dorme com os peixes. Mais recentemente, tornei-me admirador dos Shelby, os Peaky Blinders, e da sua capacidade para beberem álcool desde que acordam até voltarem a acordar. Mas agora ando obcecado é com o clã da deputada socialista por Castelo Branco, Hortense Martins. Saiu ontem o último episódio da epopeia familiar e não descansei enquanto não li. Confirmei que se mantêm todos os atributos que me atraíram a este folhetim. A história dos Corleone tem a sofisticação de Nova Iorque e Las Vegas, a dos Shelby tem a crueldade de Birmingham, mas só a dos Martins fascina os leitores com a mistura de burocracia autárquica e fundos comunitários que Castelo Branco oferece.

A minha admiração por Hortense Martins e pelo seu marido Luís Correia, ex-Presidente da Câmara de Castelo Branco, é antiga. Já escrevi sobre eles aqui e aqui, mas, para quem não está por dentro das actividades do casal e da sua família, deixo um breve resumo.

Hortense Martins vai pagar uma multa de mil euros por ter falsificado um documento em que renunciava à gestão da empresa familiar, a Investel, em favor do pai, Joaquim Martins. Falsificou-o para poder dizer que já não era gestora da empresa em 2011, quando, na realidade, se manteve em funções. Ao mesmo tempo, era deputada com regime de exclusividade. Enquanto gestora concorreu a subsídios comunitários para a construção de empreendimentos hoteleiros. Sucede que, segundo os regulamentos, só se podiam candidatar projectos que não estivessem concluídos e os dois com que a empresa de Hortense embolsou mais de 270 mil euros já estavam terminados e a funcionar há dois anos. Para contornar as regras e habilitarem-se ao dinheiro, disseram que ainda faltavam pagar umas prateleiras no bar. Apesar de, no processo, não constarem as facturas desse mobiliário tão essencial para dar uma obra como concluída. Mas isso não impediu a Adraces, a associação de desenvolvimento regional responsável pela atribuição dos fundos, de considerar que o projecto ainda não estava acabado. A Adraces que era gerida por vários colegas e amigos de Luís Correia, marido de Hortense Martins, à data vereador da CM de Castelo Branco. Entretanto, Luís Correia tornou-se Presidente da Câmara e, ainda mais entretanto, Luís Correia perdeu o mandato por se descobrir que assinara vários contratos camarários com empresas do próprio pai e do sogro, o tal Joaquim Martins. Se fossem Shelbys, que bebem uísque sempre que preparam um golpe, os Martins e os Correia já tinham precisado de transplantes de fígado.

É um resumo incompleto, claro. Falta, por exemplo, referência à vez em que deputados da Comissão do Ambiente foram a Castelo Branco e hospedaram-se no hotel da colega Hortense, apesar de ser proibido. Ou à ocasião em que, sem se rir, Luís Correia afirmou que não se apercebera que estava a assinar um contrato com o próprio pai. Enfim, nesse sentido, esta saga familiar é até mais parecida com a dos Cem Anos de Solidão, em que os incidentes são tantos e os nomes tão parecidos, que é preciso ir tomando notas para conseguir acompanhar. Infelizmente, ainda não editaram os Apontamentos Europa-América da Corrupçãozinha Albicastrense. Pode ser que agora alguém se chegue à frente. Um familiar de Hortense Martins, talvez. Caso haja subsídio da Câmara para isso, claro.

Como todas as boas histórias, esta mantém-nos em suspenso até ao fim. Parece mesmo que vai acabar mal para os protagonistas, que se conseguem safar à última hora. Quando se pensava que Hortense Martins ia ser apanhada pela Justiça, por ser óbvio que falsificara documentos com o intuito de lesar o erário público, eis que o Ministério Público propõe o arquivamento do processo mediante pagamento de uma quantia simbólica, por o grau de culpa não ser “particularmente elevado”. Como artifício narrativo, não é dos mais verosímeis. Por outro lado, trata-se de Portugal. E o que importa é que, graças a este Deus ex machina (expressão em latim para “militante do PS”), a nossa heroína sobrevive.

E cenas dos próximos capítulos? Que novas falcatruas, das com grau de culpa não particularmente elevado, terá Hortense Martins preparado para os fãs? Aposto numa candidatura a um cargo mais influente, daqueles com acesso a fundos ainda mais valiosos. Provavelmente, contará com a presença do Primeiro-Ministro na sua Comissão de Honra. Pelos menos, já tem currículo para isso.