Após anos e anos de sistemática luta contra toda e qualquer noção antropologicamente sustentada de tribo, chegamos ao dia em que um parlamento composto de deputados escolhidos por listas de caciquismo decide, em nome de embrutecido povo, sem qualquer autoridade e sem a mínima reverência pela função, que compete ao Estado abençoar a morte de pessoas a quem o próprio Estado falhou a providenciar alento. Podíamos descer mais baixo? Podíamos: bastaria que todas as restantes instituições também perdessem o respeito por si próprias.

Quem mais podia perder o respeito pela sua instituição? Poucos. Pouco resta, nem a Igreja Católica.

Em nome de uma tranquilidade com o regime e a sua religião oficial — a denominada “ética republicana”, como invocada por grandes filósofos da coisa pública como o “engenheiro” José Sócrates — a Igreja Católica Apostólica Romana concede espaço, quer na Universidade Católica, quer na Rádio Renascença, quer nas paróquias tornadas em cultos new age aos fazedores de opinião (vulgo: doutrinadores) de princípios sem base ética, contrários à essência do Catolicismo, com o mero fito de avançar a moral colectiva rumo à tal “ética republicana” de um Mundo Novo com um Homem Novo em que cada um pensa apenas o lhe é permitido pensar.

Poder-se-ia dizer que são cedências ao vulgarmente denominado “politicamente correcto”, mas não são: são uma estratégia deliberada de manipulação rumo à subserviência total, à autoridade adquirida por desistência dos guardiões da ética. Não é de admirar que a “ética republicana” necessite do adjectivo “republicana”: só com eufemismos (como liberalismo social) se consegue tornar o que não é — ética — em algo que é — fé.

No quarto capítulo de “Ortodoxia” de Chesterton pode ler-se que “[a] tradição significa dar voto à mais minoritária das classes, os nossos antepassados – é a democracia dos mortos”. A Igreja Católica decidiu ignorar os seus mortos e, com isso, os seus mártires. “O Homem tem livre arbítrio na medida em que é racional”, diria Tomás de Aquino. São Paulo aos romanos diria “e, proclamando-se a si mesmos como sábios, perderam completamente o bom senso e trocaram a glória do Deus imortal por imagens confeccionadas conforme a semelhança do ser humano mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis”.

Contudo, foi notícia esta semana que o Papa Francisco, dirigindo-se a um jovem chileno vítima de abusos sexuais por destacado membro do clero, terá dito que “Deus fez-te gay”. Ora Deus não fez ninguém gay, tal como não fez ninguém santo, timoneiro, violador ou assassino. Deus não fez ninguém para se arrogar pelo direito sobre a vida de alguém. Deus não fez ninguém deputado que vota, como quem decide o calibre admissível para a venda de cenoura, que o Estado tem o direito (e não se ficará pelo direito e sim pelo dever) de matar velhos incómodos. A frase que o Papa poderia ter dito, que seria teologicamente e éticamente correcta, seria “Deus ama-te tal como és”. O livre arbítrio papal levou-o ao caminho errado.

O lamentável é que tenha que ser eu, um agnóstico, a explicar isto.