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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa não precisa de nós, mas nós precisamos dele

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Foram três dias intensos, onde se discutiu Fernando Pessoa e as pessoas dentro dele. Mas não só: o Pessoa político, dramático, entre culturas, lembrando sempre Eduardo Lourenço.

O congresso decorreu entre quinta-feira e sábado na Fundação Calouste Gulbenkian

Terminou o IV Congresso Internacional Fernando Pessoa. Foram mais de 40 oradores e cerca de 300 os espectadores que encheram durante três dias o Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbebkian. Três dias intensos, onde se discutiu Pessoa e as pessoas dentro dele, onde se consolidou o que já se sabia e onde se ficou a conhecer outras possibilidades. Onde se falou do Pessoa político, do Pessoa dramático, fotogénico, entre culturas e até do Pessoa de cabelo comprido.

Na sessão de encerramento, Mariana Gray de Castro, que fez parte da comissão organizadora, admitiu que uma coisa que ficou muito clara foi “a mistura que foi feita entre a consolidação e a novidade”. “Tivemos a sorte de ter os pessoanos completamente consagrados e, diria até, além-consagrados, a participar e a falar ao lado de jovens doutorandos que, em alguns casos, terá sido as primeiras comunicações de congresso que fizeram.” Este foi o primeiro ano em que o Congresso Fernando Pessoa permitiu a possibilidade de jovens investigadores participarem, lançando um call for papers. “Uma mais valia”, na opinião de Mariana Gray de Castro.

A investigadora, que tem vindo a trabalhar numa tese que envolve Pessoa e Shakespeare, salientou ainda a forte participação do público. “É animador ver tanto interesse. São seis e meia, num sábado à tarde, em que não choveu muito. É normal para nós que estudamos Pessoa querer falar sobre Fernando Pessoa, mas não é normal haver tanta gente que nos queira ouvir.”

Clara Riso, diretora da Casa Fernando Pessoa, anunciou que este ano houve mais de 310 inscritos, um número que ainda não era final à data da sessão de encerramento, que aconteceu este sábado já perto das 19h. “Deixou-nos muito satisfeitos”, disse a diretora, salientando que houve pessoas que viajaram até Lisboa dos sítios mais improváveis, como o México ou Itália, só para assistir a um congresso onde não estiveram “apenas lisboetas”. Houve quem tenha vindo do norte do país, do Algarve e até dos Açores.

Clara Riso agradeceu a participação de todos no terceiro congresso organizado pela Casa Fernando Pessoa

Já perto do final, Clara Riso apelou ainda aos congressistas que enviassem as suas comunicações até meados de abril para que estas sejam tratadas e disponibilizadas online, eventualmente com a possibilidade de puderem ser transformadas em livro. As atas do Congresso Fernando Pessoa de 2013, que estão na fase final de tratamento, deverão estar disponíveis já a partir da próxima semana. Caso os oradores se mostrem de acordo, serão também colocadas online as filmagens das sessões no Portal Educast.

Mas nem só de despedidas se fez o último dia do Congresso Internacional Fernando Pessoa, que começou logo pela manhã de sábado na Gulbenkian. Logo às 10h, enquanto a chuva teimava em cair lá fora, João Dionísio, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, apresentou a primeira comunicação do dia –“Pessoa bilingue” –, sobre o conceito de bilinguismo na obra de Pessoa. Na sessão intitulada “Pessoa entre culturas”, falaram ainda Patrick Quillier e Antonio Sáez Delgado. Depois de uma pausa para o café, foi a vez de o Anfiteatro 2 da Gulbenkian receber o “Pessoa crítico”, com comunicações apresentadas por Rita Patrício, Marisa Mourinha e Viktor K. Mendes. O melhor ficou para a tarde.

Marinheiros mágicos, Octávio e Shakespeare

A tarde começou na Gulbenkian com a sessão “Pessoa dramático”. “Estava aqui a meditar entre a diferença entre as duas palavras, ‘moderar’ e ‘presidir'”, começou por dizer o moderador Bernard McGuirck (que apresentou na segunda-feira uma comunicação Pessoa e Derrida “sob rasura”). “Não porque em Inglaterra falamos do ‘presidente da mesa’, mas porque a palavra ‘presidente’ foi rasurada. Vou propor o uso da palavra ‘moderador’ [em inglês] transatlanticamente”, brincou, arrancando sorrisos aos presentes.

Kenneth David Jackson falou de cinco marinheiros da obra de Pessoa, “extraordinários e mágicos” — o marinheiro do drama estático O Marinheiro, “um idílico marítimo sem mar, sobre um marinheiro que nunca aparece mas que a única personagem que é considerada verdadeira”, o marinheiro “que nunca sai do cais” de Ode Marítima, as personagens de dois contos, até há pouco tempo inéditos, “A Perversão do Longe” e “A Perda do Iate Nada”, e dos 12 poemas de “Mar Português”, de Mensagem.

Flávio Rodrigo Penteado, da Universidade de São Paulo, falou de algumas “Ideias teatrais de Fernando Pessoa”, recorrendo a um texto inacabado sobre a peça Octávio, de Vitoriano Braga, que Pessoa elogiou longamente, e onde o poeta expõe uma “definição de drama” que “pouco tem a ver com O Marinheiro“. Publicado em várias edições, o fragmento “apresenta alguns problemas de datação”. Apesar disso, o investigador avançou com a possibilidade de este ter sido escrito entre duas datas — entre 1916, ano que a peça subiu ao palco do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, e 1926, quando Octávio foi editado em livro. Independentemente da data, uma coisa parece ser certa — “durante algum tempo, Pessoa teve na mira a obra de Vitoriano Braga“.

A investigadora Mariana Gray de Castro, autora de Fernando Pessoa’s Shakespeare: The Invention of the Heteronyms, que será publicado em português muito em breve, expôs em termos gerais a sua teoria de explicação da criação heteronímia — a de que foi Shakespeare, que Pessoa considerava o melhor poeta dramático de todos os tempos (mas não o melhor poeta ou dramaturgo de todos os tempos), que ajudou o poeta a criar os heterónimos, através de duas características centrais — a despersonalização e a insinceridade, identificadas por Fernando Pessoa e por outros críticos (nomeadamente românticos ingleses) antes dele.

É a “despersonalização que permite ao poeta dramático”, como Shakespeare e Pessoa (que se descreveu a ele próprio como um poeta dramático), “criar personagens credíveis e perfeitamente humanas, com personalidades diferentes do seu autor”, disse a investigadora. Já a “insinceridade ou o fingimento”, uma das palavras favoritas de Fernando Pessoa, é o que permite ao poeta escrever poesia sincera porque, como Pessoa dá a entender no famoso poema “Autopsicografia”, a poesia mais sincera é a mais fingida, ideia que surge na boca de uma das personagens da peça As You Like it, do dramaturgo inglês.

“Pessoa descobriu em Shakespeare duas das principais qualidades que estão no coração da sua criação heteronímia” e, ao fazê-lo, “escolheu Shakespeare como pai literário”, concluiu Mariana Gray de Castro, salientando depois na fase das perguntas, que “quase todas as personagens shakespearianas fingem ser outros”.

“A imagem de Pessoa é icónica”

Na sessão “Imagens de Pessoa”, o investigador Humberto Brito, investigador do Instituto de Filosofia da Universidade Nova, falou dos poemas que poderiam ser imagens e da relação entre a fotografa e o ideal poético encarnado por Caeiro, partindo de uma frase que consta da Tábua Bibliográfica que Fernando Pessoa elaborou em 1928: “Tudo isto constará de biografias a fazer, acompanhadas, quase se publiquem, de horóscopos e, talvez, de fotografias”. Para Brito, “os livros de Caeiro estão repletos de imagens que podem ser reconhecidas por fotógrafos”.

Bruno Fontes, que também participou na sessão, falou dos “filmes de Fernando Pessoa”, focando-se nas obras de João Botelho “Conversa Inacabada” (1981) e “Filme do Desassossego” (2010), e salientando a pouca importância que o cinema tem dado à obra e figura de Pessoa, que surgem referidas apenas nos filmes “Mensagem” (1988), de Luis Vidal Lopes, e “Viagem a Lisboa” (1994), de Wim Wenders, “onde Pessoa é um laitmotiv textual”.

O Anfiteatro 2 da Fundação Calouste Gulbenkian permaneceu cheio durante os três dias (mesmo com chuva)

Depois das apresentações, já na fase das perguntas (que teve direito a dez minutos extras por falta de comparência do terceiro conferencista, Leonardo Medeiros), Anna Klobucka, que moderou a sessão, questionou os oradores sobre a imagem de Pessoa e a sua representação. Bruno Fontes defendeu que “a imagem” do poeta “é icónica”, tanto no famoso retrato de Almada, que se encontra exposto na Gulbenkian a propósito da exposição José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno, como na fotografia do “flagrante delitro” ou nas imagens que mostram Fernando Pessoa a descer a Baixa.

Para Fontes, “mesmo as pessoas desconhecedoras de Pessoa, da forma que nos o conhecemos aqui, reconhecem a força icónica dessas imagens”. “Acho que são muito importantes”, afirmou o investigador, que falou também nos “fotogramas dos textos”, nos horóscopos e daquela “letra de médico”. “A própria escrita — a caligrafia, os papéis, a materialidade dos papéis de Pessoa –, são muito interessantes. Acho que isso fascina qualquer um. Acho que, iconicamente, é muito forte.”

Humberto Brito fez uma distinção entre a “forma como a figura de Pessoa se popularizou” e a “forma como os académicos se relacionam com ela”. “São imagens, fragmentos da produção de um ídolo”, disse. “As pessoas apropriaram-se das imagens de Fernando Pessoa, e isso tem resultado muitas vezes. É engraçado como uma pessoa que estuda Pessoa muitas vezes se depara com imagens dele em gelados. Penso que ele tinha gostado disso.”

Relativamente às fotografias, Brito fez questão de salientar que, por mais que possa parecer, nada daquilo foi fruto do acaso. “Aquelas fotos foram tiradas com câmaras de grande formato — câmaras fixas, com um tripé. São fotografias que demoram imenso tempo, e isso significa que Pessoa sabia que estava a ser fotografado. É muito difícil imaginar que já existiam câmaras de 35 mm [em Lisboa] que teria apanhado Pessoa casualmente a passear. Aquilo teriam de ser fotografias encenadas.”

Obra de Pessoa esteve para ir para o Porto, mas os lisboetas não deixaram

Depois da última comunicação, foi a vez da última mesa de discussão. Intitulada “História dos Congressos Pessoanos”, juntou Arnaldo Saraiva e José Blanco, que recuaram no tempo para percorrer a história dos primeiros congressos dedicados ao poeta português. Saraiva falhou pormenorizadamente do primeiro realizado em solo português, em abril de 1978, no Porto, cerca de cinco meses depois de um simpósio organizado na Brown University, onde existe ainda hoje um importante departamento de estudos portugueses, o primeiro evento dedicado a Pessoa.

O simpósio de 1977, como explicou José Blanco, teve algumas características especiais, nomeadamente o facto de ter contado com a participação de apenas dois oradores portugueses — Jorge de Sena, então residente nos Estados Unidos da América, e João Gaspar Simões, que viajou até Rhode Island a convite de Jorge Monteiro, diretor do centro de Estudos Portugueses da Brown, e por sugestão do próprio Sena que, numa carta enviada a Monteiro (e lida este sábado por Blanco) disse que “seria extremamente injusto não convidar em numero um o Dr. João Gaspar Simões, com não falo há anos”.

No ano seguinte, como já foi referido, foi a vez de o Porto receber o primeiro congresso internacional dedicado a Fernando Pessoa, co-organizado por Arnaldo Saraiva, co-fundador do Centro de Estudos Pessoanos (hoje extinto), também na Invicta, numa altura em que se desconhecia o evento realizado pela Brown, que não tinha sido divulgado em Portugal. De acordo com o ex-presidente da Fundação Eugénio de Andrade, a organização deste evento e de outros que lhe seguiram nos anos 80, como o de São Paulo, que reuniu o maior número de conferencistas até à data (cerca de 80), que motivaram um maior interesse por parte de editores e autores.

Para Arnaldo Saraiva, o período que vai desde 1978 a 1988 foi “a década de ouro dos estudos de Pessoa”. “Depois do primeiro congresso, não só se realizaram estes congressos e se publicação as atas, como se publicaram estudos de Fernando Pessoa de todos os métodos em voga. Deu-se uma aceleração editorial em Portugal e no estrangeiro, multiplicaram-se as traduções, popularizaram-se — e de que maneira — vários versos e frases de Pessoa e a repercussão da sua obra na literatura de outros escritores portugueses, como José Saramago e Antonio Tabucchi, e a reprodução noutros campos artísticos.”

E não só. Foi também durante este período que se deu “a deslocação do espólio da casa de Dona Henriqueta [irmã de Pessoa] para a Biblioteca Nacional”. Um processo em que Saraiva admitiu ter tido interferência. “Fui a casa dele e ela disse-me ‘estou muito inquieta, vão ali para a sala e eu não consigo estar lá a acompanhar'”, contou o fundador da primeira revista dedicada a Fernando Pessoa, Persona. Além disso, Henriqueta tinha “medo que um incêndio ou uma tempestade” destruísse a obra do irmão, que muitos consideravam “de grande importância”. Posto isto, Arnaldo Saraiva decidiu intervir e procurar o auxílio do então secretário de Estado da Cultura, David Mourão-Ferreira.

A última sessão de sábado foi dedicada à história dos congressos pessoanos

“Já havia algum interesse [por parte do Estado], que já tinha posto lá uma catalogadora [no espólio]. Passado alguns dias, o David Mourão-Ferreira anunciou-me que o espólio ia ser transferido.” Só que, apesar de o despacho ter sido formulado por ele, quem o assinou foi o seu sucessor, Hélder Macedo. Mas, o mais curioso de tudo, é que o despacho dizia que o espólio iria “provisoriamente para a Biblioteca Nacional antes de ir para o Porto, por causa do Centro de Estudos Pessoanos, e porque o David tinha aberto lá um Museu da Literatura”, contou Saraiva. Só que isso nunca viria a acontecer, por pressões de alguns pessoanos lisboetas. É que Pessoa era de Lisboa, e era em Lisboa que a sua obra devia ficar.

Curiosamente, o termo “pessoano”, hoje utilizado para definir os investigadores que se dedicam ao estudo da obra de Pessoa, foi cunhado por alguém que não era de Lisboa — o próprio Arnaldo Saraiva. “Embora se usasse o adjetivo ‘fernandino’ e ‘pessoanista’, achava ridículo, então propus o adjetivo ‘pessoano’“, contou Saraiva. Um termo que não agradou a João Gaspar Simões que, num artigo de abril de 1980 do Diário de Notícias, escreveu: “Que me desculpem os pessoanos do Porto, a mim o termo pessoano soa-me mal. É mal sonante, prefiro fernandino”.

“Pessoa não precisa de nós”

José Blanco, que já era naquela altura membro do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian (foi-o entre 1974 e 2004), assistiu na primeira pessoa a muitos destes congressos e iniciativas, e fez questão de partilhar com os presentes algumas das situações mais caricatas de que tem memória. Uma delas aconteceu não assim há muito tempo, em 2008, altura em que houve um pequeno “encontro pessoano num local inesperado — Jerusalém”.

Nesse ano, a Hebrew University of Jerusalem organizou um mini-congresso dedicado a Fernando Pessoa e à heteronímia, em que participaram Eduardo Lourenço, Richard Zenith e o próprio José Blanco. “Não foi dos melhores momentos pessoanos da minha vida”, admitiu o autor de Pessoana, uma bibliografia seletiva e temática de Pessoa. “Houve uma longa comunicação sobre o guia de Lisboa O que o turista deve ver, que falava das implicações filosóficas, metafísicas e esotéricas do guia de Fernando Pessoa.”

Mas, para Blanco, o momento “mais baixo” da história destes 40 anos de congressos pessoanos aconteceu em Nashville, no Texas, em 1983. “Houve uma comunicação apresentada por um professor americano, que não vou revelar o nome, sobre a Mensagem. Ele dizia que a Mensagem exprime consciente e inconscientemente os conflitos sexuais de Fernando Pessoa” e que, as suas três partes, representam “as três partes do ato sexual”. E não só: os castelos, os gládios e os padrões seriam “símbolos fálicos, apontando no final para a impotência sexual do poeta”.

Por outro lado, o momento alto aconteceu em 2005 em Leipzig, na Alemanha, onde foi realizado um encontro que assinalou o 70º da morte do poeta. Uma noite depois de jantar, Eduardo Lourenço, que também participou nesse congresso, anunciou que precisava de se retirar porque ainda tinha de escrever a sua comunicação, que ia apresentar no dia seguinte. No outro dia de manhã, Lourenço apareceu com uma resma de “folhinhas”, escritas à mão, tinha escrito noite adentro. Só que, quando chegou a hora de falar perante o público, o pessoano falou sem olhar um segundo que fosse para os apontamentos.

Totalmente improvisada, a comunicação de Eduardo Lourenço incluiu “as palavras mais bonitas” que José Blanco ouviu na vida “sobre Portugal e Fernando Pessoa”. “Meu querido Eduardo, nunca mais me esqueci desse momento”, disse Blanco dirigindo-se ao pessoano, que se encontrava sentado na primeira fila. Felizmente, alguém do público tinha um gravador, e o discurso de Lourenço foi gravado e depois incluído no livro A Arca de Pessoa (2007), organizado por Jerónimo Pizarro e Steffen Dix. As palavras finais, diziam apenas: “Pessoa não precisa de nós, e mais do que simples evocação ou homenagem, este encontro deve deixar Pessoa entregue ao seu enigma para que fiquemos entregues ao nosso“.

Texto de Rita Cipriano, fotografia de Hugo Amaral.
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