Abril-Maio de 1945. Os últimos dias do apocalipse (depois do suicídio de Hitler)

12 Agosto 2017

Habituámo-nos a pensar que a II Guerra Mundial na Europa terminou com o suicídio de Hitler, mas "Depois de Hitler", de Michael Jones, mostra que os dez dias que se seguiram foram ricos em eventos.

Foi um matrimónio breve: Eva Braun e Adolf Hitler casaram-se pouco depois da meia-noite de 28 para 29 de Abril de 1945 e puseram termo à vida por voltas das 13 horas do dia 30. Hitler e Braun viviam juntos há anos, mas Hitler nunca manifestara interesse em formalizar a relação. E foi na altura em que todos os seus planos e ambições se desmoronavam, o Exército Vermelho estava a escassas centenas de metros do Führerbunker (bunker da Chancelaria) e muitos dos seus mais fanáticos cúmplices o abandonavam que escolheu dar esse passo. “Braun é, para lá da minha cadela Blondi, a única criatura em que tenho plena confiança”, diria pouco antes do suicídio.

Eva Braun e Adolf Hitler, com os respectivos cães, fotografados em Junho de 1942 no Berghof, o refúgio alpino do Führer

Claro que um monstro narcísico como Hitler, quando confrontado com o seu fim, não poderia tolerar que aquilo que estimava não se extinguisse com ele: arrastara a Alemanha para o abismo e Eva Braun segui-lo-ia também no suicídio. A fiel Blondi teria destino análogo, tendo servido de cobaia para testar a eficácia das cápsulas de cianeto que Hitler e Braun iriam tomar – as cápsulas tinham sido fornecidas por Himmler e, como Hitler passara a ver Himmler como um traidor, temia que as cápsulas contivessem apenas um sedativo. Blondi comprovou a eficácia das cápsulas no dia 29 e no dia seguinte Hitler e Braun também as tomaram (embora uma teoria alternativa defenda que Hitler se suicidou com um tiro de pistola).

No dia 29 Hitler soubera que Mussolini fora capturado e fuzilado pela resistência italiana e que o seu cadáver fora exibido, pendurado pelos pés, numa praça de Milão, pelo que deu ordens para que o seu corpo e o de Braun fossem incinerados. Os indícios sugerem que o corpo de Blondi foi queimado na mesma ocasião. Pouco depois de Hitler e Braun se terem suicidado, Fritz Tornow, o tratador canino do Führer, abateu também os dois terrier escoceses de Braun, Negus e Stasi, bem como os cinco cachorrinhos que Bondi dera à luz no início de Abril. O III Reich chegara ao fim.

Local no jardim da Chancelaria onde se presume que os corpos de Hitler e Braun tenham sido incinerados

A sucessão do Führer

Mas até que as armas se silenciassem, ainda se viveriam dez dias de angústia, tumulto e sofrimento, boa parte dele absurdo e completamente vão, até ao Dia da Vitória, celebrado a 8 de Maio pelos Aliados ocidentais e a 9 pela URSS. Disso nos dá conta Depois de Hitler: Os últimos dias da Segunda Guerra Mundial, editado originalmente em 2015, e agora publicado em Portugal, com tradução de Clara Alvarez, pela Bizâncio.

“Depois de Hitler”, de Michael Jones (Bizâncio)

O historiador Michael Jones é um especialista na II Guerra Mundial, e em particular nos eventos da Frente Leste, e a Bizâncio tem editado por cá os seus livros mais prestigiados: O cerco de Leninegrado, Guerra total: De Estalinegrado a Berlim (ver Na Frente Leste não havia Convenção de Genebra) e A retirada: A primeira derrota de Hitler (ver Batalha de Moscovo: Afinal os alemães não eram invencíveis).

Jones traça um retrato detalhado destes dias confusos, onde o júbilo e o desânimo se misturaram e em que ocorreram eventos que foram decisivos para definir a Europa do pós-guerra.

A última vez que Hitler foi visto fora do bunker foi a 20 de Abril de 1945, dia do seu aniversário, quando condecorou membros da Juventude Hitleriana que se tinham distinguido na luta contra os soviéticos em Berlim

Hitler vira-se abandonado nos últimos dias por dois dos seus mais próximos colaboradores, que seriam, em princípio, os seus sucessores. A 22 de Abril, Hitler teve um colapso nervoso e admitiu, perante os seus generais, que a guerra estava perdida e que Hermann Göring, que ele nomeara formalmente, em 1941,como seu sucessor, estava em melhor posição do que ele para negociar a paz. Quando Göring, que se refugiara em Berchtesgaden, soube disto, decidiu, após examinar a nomeação de 1941 e conferenciar com os seus colaboradores próximos, enviar um telegrama a Hitler pedindo permissão para efectivar a sucessão. De nada serviu a Göring ter escolhido cuidadosamente os termos do telegrama, pois o seu rival Martin Bormann interceptou-o e tratou de o apresentar a Hitler como prova do espírito traiçoeiro e da ambição desmedida de Göring – Hitler respondeu a Göring destituindo-o de todos os cargos e ordenou que o marechal-do-ar e a sua equipa fossem colocados sob prisão domiciliária.

No dia 28 Hitler foi informado de que o Reichsführer SS Heinrich Himmler tentava negociar a paz com os Aliados ocidentais, tendo, para o efeito, reunido, no dia 23 de Abril, com o conde Folke Bernadotte, o cônsul sueco em Lübeck.

No testamento que redigiu no dia 29, poucas horas antes de se suicidar, Hitler revogou o decreto sucessório de 1941, determinou que Göring fosse expulso do Partido Nazi e nomeou o comandante da marinha de guerra, o almirante Karl Dönitz, como Presidente do Reich, Ministro da Guerra e comandante supremo das Forças Armadas.

O almirante Donitz (Topical Press Agency/Getty Images)

O testamento definiu a constituição do resto do governo, embora Joseph Goebbels, que deveria ser o n.º 2 da hierarquia, na qualidade de Chanceler do Reich, acabasse por “demitir-se” da forma mais radical, acompanhando o Führer no suicídio (a 1 de Maio, imitado pela esposa e depois de ter envenenado os seis filhos), e Martin Bormann, que deveria ser o n.º3, na qualidade de Ministro do Partido, tivesse (ao que tudo indica) morrido ao tentar escapar de Berlim, a 1 de Maio.

Capa do Stars and Stripes, jornal das Forças Armadas norte-americanas, de 2 de Maio de 1945

Dönitz, que Jones apresenta como um homem medíocre cuja principal “qualidade” seria dizer o que Hitler esperava ouvir, instalou o seu “governo” na Academia Naval de Mürwik, perto de Flensburg, junto à fronteira com a Dinamarca e durante alguns dias tentou dar a impressão de que governava e usou todo o tipo de manobras para negociar uma paz separada com os Aliados ocidentais, de forma a poder continuar a luta contra a URSS, apesar de os EUA e Reino Unido sempre terem insistido firmemente na rendição incondicional e simultânea em todas as frentes.

O “Governo” de Flensburg pouco mais foi que uma fantasia mórbida: realizavam-se “reuniões de conselho de ministros” todas as manhãs, mas o seu poder efectivo era nulo e é duvidoso que as suas deliberações tivessem grande racionalidade, pois o “Ministro da Alimentação” tinha por “única responsabilidade arranjar whiskey para animar as reuniões” (Jones). Um dos primeiros oficiais aliados a chegar a Flensburg deparou-se com uma série de salas com “designações pomposas”, que deveriam albergar gabinetes de ministérios, mas quando abriu as portas encontrou um depósito de bicicletas e “uma cama onde uma mulher dormia profundamente”.

As manobras dilatórias acabaram por esgotar-se e a 7 de Maio, o general Alfred Jodl, em representação de Dönitz, assinou a 7 de Maio a rendição incondicional em Reims.

Reims, 7 de Maio de 1945: Alfred Jodl assina a rendição

A 23 de Maio, os Aliados concluíram que o governo de Dönitz, que tinham tolerado como forma de evitar que a Alemanha caísse num caos ainda maior, não servia afinal para nada e entraram em Flensburg e dissolveram-no.

A corrida pela Dinamarca

A Conferência de Yalta, em Fevereiro de 1945, em que Churchill, Roosevelt e Stalin tinham discutido a geopolítica da Europa do pós-guerra, não previa que a Dinamarca entrasse na esfera de influência soviética e Churchill, que estava desagradado com o comportamento de Stalin em relação à Roménia, à Polónia e a parte da Áustria, onde governos pró-soviéticos estavam a ser impostos pela força, quis assegurar que tal hipótese nem sequer aflorasse. Deu, pois, ordens para que o marechal Montgomery avançasse o mais rapidamente possível para o porto báltico de Lübeck, cortando o avanço das tropas soviéticas para ocidente. As tropas de Montgomery ocuparam Lübeck a 2 de Maio, mas Churchill estava cada vez mais desconfiado quanto às intenções dos soviéticos e chegou a temer que estes, barrados em terra, tentassem lançar pára-quedistas sobre a Dinamarca, pois o controlo da saída do Mar Báltico era um ponto estratégico vital para a URSS.

Churchill pressionou Eisenhower de forma a que a negociação para a rendição dos exércitos alemães no noroeste da Alemanha, Holanda e Dinamarca, que estava a decorrer na charneca de Lüneburg, fosse acelerada e não incluísse representantes soviéticos.

Negociações na charneca de Lüneburg, 3 de Maio de 1945: Montgomery (o segundo a contar da esquerda) recebe os representantes alemães (à direita)

A rendição foi assinada a 4 de Maio, abrangendo cerca de um milhão de soldados e marinheiros alemães, e os soviéticos, embora tivessem ficado melindrados com esta rendição parcial, acabaram por não manifestar ambições quanto à Dinamarca – uma ilha dinamarquesa foi ocupada por tropas soviéticas que perseguiam tropas alemãs em fuga, mas foi evacuada e devolvida a controlo dinamarquês poucos meses depois.

O paradoxo da Polónia

Do ponto de vista polaco, o desfecho da II Guerra Mundial foi uma amarga ironia: o conflito ganhara dimensão mundial quando, a 3 de Setembro de 1939, a França e o Reino Unido, honrando os compromissos assumidos com a Polónia, declararam guerra ao invasor alemão. Porém, embora o conflito tenha terminado com a completa derrota da Alemanha, não resultou na libertação da Polónia, já que o país ficou, na prática, sob o jugo de uma potência estrangeira, a URSS, que, é bom lembrá-lo, não só fora cúmplice da Alemanha na agressão de 1939 como se comportara então com brutalidade e calculismo comparáveis aos dos alemães.

A Resistência Polaca já manifestara repúdio pelas condições do acordo de Yalta, por terem sido “decididas sem a nossa participação ou acordo […] A Polónia foi o primeiro país a começar a resistência armada contra os nazis. É agora vítima de novas opressões e injustiças”.

Conferência de Yalta

Os acordos assinados em Yalta “apenas” previam a anexação pela URSS de territórios no leste da Polónia (correspondendo grosseiramente àqueles que tinham sido ocupados pela URSS na invasão de 1939), que seriam “compensados” pela entrega à Polónia de territórios do leste da Alemanha. Mas Stalin queria muito mais do que rearranjar as fronteiras da Polónia a seu favor: estava determinado a estabelecer uma zona-tampão de países submissos em torno das suas fronteiras e isso requeria o controlo de toda a Polónia. A pretexto de negociar o pós-guerra no país, atraiu a Moscovo 16 representantes da resistência polaca e prendeu-os a todos sob acusação de sabotagem, embora os representantes tivessem viajado de boa-fé e com o encorajamento do Reino Unido e dos EUA, que os viam como legítimos representantes da Polónia.

A questão polaca fez aumentar brusca e perigosamente a tensão entre os Aliados e levou Churchill a solicitar, poucos dias depois de se ter celebrado o Dia da Vitória e a cessação de toda a resistência alemã, a elaboração de “um plano de guerra ultra-secreto, preparado pelo Estado-Maior Conjunto, para explorar o recurso à força militar contra a Rússia com o propósito de assegurar uma Polónia livre” (Jones), plano que ficou conhecido como Operation Unthinkable (Operação Impensável). Os chefes de Estado-Maior fizeram ver a Churchill que o plano era, face ao formidável poderio russo na Europa, “quase impossível de executar militarmente e um completo desastre político”.

Jones não o menciona, mas tão importante quanto as considerações sobre poderio bélico, era o facto de ser muito pouco provável que o povo britânico, esgotado por seis anos de sofrimento e privações, estivesse disposto a aceitar de imediato uma nova guerra, contra um antigo aliado, em nome da liberdade de um país distante – o mesmo que justificara o começo da guerra que acabara de terminar.

A razoabilidade e a realpolitik prevaleceram sobre o idealismo e o Reino Unido e os EUA acabaram por retirar o apoio à resistência polaca e reconhecer o governo-fantoche que os soviéticos tinham montado em Lublin.

Tomasz Arciszewski foi primeiro-ministro do governo polaco no exílio em Londres entre 1944 e 1947; porém, entre 29 de Junho e 5 de Julho de 1945, viu a legitimidade do seu governo deixar de ser reconhecida pela França, EUA e Reino Unido

Os polacos, que tinham lutado pela libertação da Europa integrados nas forças aliadas – o esforço envolveu 200.000 homens, que tiveram importante papel na Batalha de Inglaterra, na campanha do Norte de África e em Itália (sobretudo na renhida batalha de Monte Cassino) –, tiveram dificuldade em aceitar o abandono da sua causa pela parte de Londres e Washington.

Soldados do II Corpo Polaco ao assalto de Monte Cassino, 1944

Durante algum tempo ofereceram resistência aos soviéticos, atacando prisões e campos de concentração onde o NKVD detivera polacos que não eram favoráveis à ideia de uma Polónia sob o jugo soviético. A resistência acabou por esmorecer e a Polónia ficou, de facto, sob controlo soviético – comentou um oficial polaco que combatera no II Corpo Polaco do general Anders em Itália que “o acordo de Yalta nada tinha feito para nos proteger, arrastando-nos de uma ocupação para outra, sem pausa entre elas”.

A Conferência de Potsdam, realizada entre 17 de Julho e 2 de Agosto (e com Truman no lugar de Roosevelt, entretanto falecido), confirmaria a pertença da Polónia à órbita soviética.

[Newsreel americano de 1945 sobre a Conferência de Potsdam:]

O rapto da Checoslováquia

Em 1938, durante a “crise checa” (ou seja, a resistência oferecida pela Checoslováquia a ser ocupada e desmembrada por uma Alemanha cada vez mais agressiva), o primeiro ministro britânico Neville Chamberlain referira-se à Checoslováquia nestes termos. “Quão horrível, fantástico e incrível seria que estivéssemos a cavar trincheiras e experimentar máscaras de gás por causa de uma quezília num país distante habitado por pessoas de quem nada sabemos”.

Em A cortina (Le rideau, 2005), o escritor checo Milan Kundera insurge-se contra o facto de costumar ser visto em França como “um exilado da Europa de Leste”. Tal perspectiva resultava de as circunstâncias do final da II Guerra Mundial terem levado os checos a perder a soberania nacional: “não só fomos anexados por outro país como por outro mundo, o mundo da Europa de Leste, enraizado na antiguidade bizantina, com a sua própria problemática histórica, com a sua própria arquitectura, a sua própria religião (ortodoxa), o seu alfabeto (o cirílico, com origem na escrita grega) e o seu próprio comunismo”. A história dos checos é, escreve Kundera “puramente ocidental: Gótico; Renascimento, Barroco; contacto estreito com o mundo germânico; luta do catolicismo contra a Reforma. Nada a ver com a Rússia”.

“O futuro da Checoslováquia não tinha sido verdadeiramente discutido na Conferência de Yalta […] e não tinham sido repartidas zonas de influência, políticas ou militares, mas Stalin percebera desde o início a importância de tomar Praga. Encarava-a como o culminar da ofensiva do Exército Vermelho na Europa de Leste […] E estava disposto a pagar o preço com o sangue dos seus soldados para atingir os seus fins. Esta clareza – e crueldade – faltavam à estratégia dos Aliados ocidentais” (Jones).

Nos primeiros dias de Maio, as tropas americanas do general Patton tinham entrado na Checoslováquia ocidental e, no dia 6 tinham chegado a Pilsen (Plzen para os checos), muito mais perto de Praga do que as tropas soviéticas, que se aproximavam vindas de Leste.

4 de Maio de 1945, Vseruby, perto de Plzen, Checoslováquia: Soldados americanos da 90.ª Divisão de Infantaria dos EUA aguardam o término das conversações de rendição envolvendo o general Wendt Weitersheim, da 11.ª Divisão Panzer

Porém, o avanço de Patton foi detido por Eisenhower, a fim de evitar atritos com os soviéticos. Churchill bem tentou demovê-lo – num telegrama de 6 de Maio a Eisenhower escreveu “Espero que o seu plano não o impeça de avançar para Praga se tiver tropas para isso e não encontrar os russos mais cedo. Pensei que não era sua intenção ficar parado, se tivesse os meios e o país não estivesse ocupado”. Mas Eisenhower não quis correr riscos e manteve as suas tropas imobilizadas. A Checoslováquia voltara, aos olhos dos Aliados ocidentais, a ser “um país distante habitado por pessoas de quem nada sabemos”.

Praga, Maio de 1945

A Primeira Primavera de Praga

Todavia, desde 5 de Maio de 1945 que havia checos a pedir desesperadamente aos americanos para avançar sobre Praga. Os resistentes checos, liderados pelo general Karel Kutlvašr, tinham decidido, a exemplo do que tinha acontecido em Varsóvia em Agosto de 1944, tomar o destino na suas mãos em vez de esperar por exércitos estrangeiros para sacudir o jugo alemão. Porém, embora a Alemanha estivesse praticamente derrotada, ainda dispunha de forças consideráveis na região de Praga e as SS reprimiram implacavelmente o levantamento.

Blindado alemão nas ruas de Praga, Maio de 1945

Para os alemães, manter o controlo de Praga era vital para manter aberta uma via de fuga para os exércitos que se movimentavam para ocidente, a fim de se renderem aos norte-americanos e não aos soviéticos, de quem temiam um tratamento impiedoso (lembravam-se certamente das atrocidades que tinham perpetrado em território da URSS).

Os pedidos de auxílio dos checos encontraram eco no impulsivo general Patton, mas os seus superiores deram-lhe ordens muito claras para não avançar para lá da linha que lhe tinha sido atribuída, pelo que os tanques americano permaneceram imóveis enquanto a escassas dezenas de quilómetros a revolta checa era sufocada pelos alemães; quanto aos exércitos soviéticos, avançavam a toda a brida para Praga, mas estavam ainda distantes. Quando a situação dos patriotas checos de Praga parecia perdida, entrou em cena um actor inesperado: o Exército Russo de Libertação (ERL) do general Vlasov.

Andrey Vlasov tinha sido feito prisioneiro pelos alemães em Leningrado e as suas convicções anti-bolcheviques tinham-no levado a aceitar constituir um exército recrutado entre os milhões de prisioneiros soviéticos em poder dos alemães, com o fito de combater o Exército Vermelho e libertar a Rússia do comunismo.

O general Vlasov dirige-se aos soldados soviéticos (com uniformes e equipamento alemães) do Exército Russo de Libertação

É difícil saber que proporções de idealismo político, ingenuidade e oportunismo terão ditado esta opção de Vlasov, mas, de qualquer modo, foi uma escolha mais livre do que a que fizeram muitos dos “voluntários” que se juntaram ao ERL: as condições de vida nos campos onde os alemães arrebanhavam os prisioneiros soviéticos eram tão brutais que a alternativa ao “voluntariado” eram privações e maus-tratos indescritíveis que conduziam com elevada probabilidade à morte. Mas as arengas de Vlasov para aliciar voluntários tinham um fundo de verdade: aos olhos de Stalin, todo o soldado soviético que se tivesse deixado aprisionar pelos alemães era um traidor e seria punido quando a URSS vencesse a guerra.

O general Vlasov (à esquerda), numa reunião com Joseph Goebbels (à direita), em Fevereiro de 1945

Hitler manifestou-se relutante em aceitar a constituição deste exército “renegado” e Himmler só conseguiu persuadi-lo no Outono de 1944. O ERL só entrou em combate com o Exército Vermelho numa ocasião, em Fevereiro de 1945, junto ao rio Oder, e sofreu uma pesada derrota, tendo sido remetido para a zona de Praga. Era aqui que continuava no início de Maio e as perspectivas dos seus soldados eram pouco risonhas: a Alemanha estava praticamente derrotada e a sua traição era indesculpável aos olhos da URSS. Talvez tenha sido para tentar obter uma atenuante para o seu caso quase perdido, talvez tenha sido por ressentimento pela desconsideração com que eram tratados sistematicamente pelos alemães, dificilmente terá sido por solidariedade para com os resistentes checos, mas a verdade é que Vlasov – por pressão de Sergei Bunyachenko, o comandante da I Divisão do ERL, a quem a resistência checa endereçara pedidos de ajuda – deu ordem, a 6 de Maio, para marchar sobre Praga e atacar as tropas alemãs que se preparavam para exterminar os últimos resistentes.

A pressão alemã foi aliviada, mas na manhã de 8 de Maio deu-se novo golpe de teatro: os sectores comunistas da resistência checa sabiam que o Exército Vermelho se aproximava e não queriam ser acusados de se aliarem com os renegados do ERL, pelo que pediram que estes deixassem Praga. O ERL cumpriu a determinação e encaminhou-se para oeste, esperando poder entregar-se aos americanos, enquanto os alemães se lançavam ao ataque dos redutos da resistência checa com novo vigor. O esmagamento final destes só não ocorreu porque na tarde do dia 8, o general alemão Rudolf Toussaint, o comandante militar da Boémia-Morávia, decidiu negociar com os checos a cessação dos combates em troca de um salvo-conduto através do território checo, de forma a escapar aos tanques soviéticos que estavam prestes a entrar em Praga.

8 de Maio de 1945: Tropas alemãs deixam Praga, após acordo com a resistência checa

Os checos acederam, mas as tropas de Toussaint não lograram o seu intento: alguns foram mortos pela resistência checa, que entendeu que os alemães não mereciam que fosse honrado o acordo do dia 8, e as forças americanas bloquearam o avanço dos restantes e recusaram a sua rendição, pelo que acabaram por ser, na sua maioria, aprisionados pelos soviéticos.

Tropas soviéticas entram em Praga

O ERL teve destino similar – salvo soldados isolados que lograram atravessar as linhas americanas – e as autoridades soviéticas trataram os seus membros como traidores: Vlasov e os principais oficiais foram julgados em Moscovo e enforcados em Agosto de 1946.

Embora os quatro angustiantes dias vividos em Praga em Maio de 1945 não sejam comparáveis aos terríveis 63 dias do levantamento de Varsóvia, em Agosto-Outubro de 1944, são um fascinante episódio da II Guerra Mundial que merece ser conhecido.

[Imagens do levantamento de Praga, Maio de 1945]

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