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Colchões no chão, a roupa do corpo e muitas histórias. Os relatos dos desalojados da tragédia

19 Junho 2017121

Há centenas de desalojados do incêndio de Pedrógão Grande. Vão chegando à Santa Casa da Misericórdia, muitos deles com pouco mais do que a roupa que trazem no corpo.

O centro de acolhimento montado na Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande está cheio de gente — com capacidade para cerca de 80 desalojados, foi obrigado a receber mais de 200. Há pessoas a dormirem em colchões no chão, com pouco mais do que a roupa que trouxeram no corpo e uma almofada branca recebida à chegada. Famílias inteiras, amigos e vizinhos à procura de algum descanso, depois de terem conhecido o “inferno”. Muitos, a maioria, chegam sem saber se vão reencontrar o que deixaram para trás.

Passam poucos minutos da meia-noite e continua a chegar gente. Foi assim o dia todo. Há crianças de colo acompanhadas pelas mães e homens e mulheres já muito curvados pela idade. Foram os últimos a ser resgatados. A maioria não teve de combater o fogo, mas a cortina de fumo era tão grande que, ou fugiam, ou morriam sufocados. Só alguns homens com força para lutar é que decidiram arriscar e ficaram para trás.

Nunca vi uma coisa com esta dimensão. Isto foi o diabo que apareceu. É uma tristeza. Estamos todos de luto. Tudo de preto“, desabafa Fernanda. Tem 57 anos e um corpo frágil. “Se Deus quiser, faço 58 para o mês que vem. Vamos ver se chegamos todos até lá”, diz, enquanto tenta sorrir para afastar a tristeza.

Chegou de Derreada Cimeira, uma das aldeias de Pedrógão Grande que teve de ser evacuada. “Não queria sair, não queria deixar as minhas coisinhas para trás. A minha hortinha já deve ter ardido toda… Mas teve de ser…”. O marido ficou para trás, a ajudar os bombeiros a combater as chamas que ainda ameaçam o concelho e as regiões circundantes, mesmo contra todas as recomendações das autoridades. Fernanda agarra-se à esperança de que vai tudo correr pelo melhor. “Se Deus quiser”, repete. Não sabe o que vai encontrar quando voltar a casa.

Em Derreada Cimeira, conta, as “chamas estiveram a 40 metros” das habitações. Sozinhos, sem ajuda de bombeiros, tiveram de correr para evitar que os ramos incandescentes que voavam pelos céus caíssem em zonas de mato e consumissem tudo ao redor. Quando Fernanda e as vizinhas, Anabela e Madalena, deixaram as casas, por ordem da GNR, o fogo ainda não tinha consumido as habitações. E o pior cenário parece ter sido evitado. “O que tinha de arder, já ardeu”.

Crédito: Henrique Casinhas

A noite de domingo parece ter trazido algumas tréguas. O céu anoiteceu laranja, mas foi perdendo o brilho ao longo da noite. O cheiro a queimado continua intenso e o fumo torna o ar irrespirável. Mas o calor já não é o mesmo e o pouco vento que se faz sentir torna tudo mais suportável, mas é também esse vento que dificulta o trabalho dos bombeiros.

Pedrógão Grande parece estar reencontrar-se com a normalidade, depois de ter vivido o absurdo. O centro da vila adormeceu tranquilo, com as ruas cobertas de cinzas, desertas e em silêncio, um silêncio só interrompido pelo latido constante e desesperado dos cães. No café, que se manteve aberto até de madrugada para receber os que iam chegando, as conversas estão todas sintonizadas no mesmo. Fala-se em mortos e desaparecidos, vizinhos e conhecidos perdidos. Faz-se a contagem, trocam-se histórias de quem só teve tempo de fugir com o que tinha vestido. Crianças com pouco mais de 10 anos discutem o número exato de vítimas mortais, com o desprendimento de quem ainda não percebe a dimensão do que aconteceu. Morreram 62 pessoas.

"Nunca vi uma coisa com esta dimensão. Isto foi o diabo que apareceu. É uma tristeza. Estamos todos de luto. Tudo de preto", desabafa Fernanda, de 57 anos. 

Os que vão chegando à Santa Casa da Misericórdia não conseguem esquecer o que viram e sentiram. Arminda, de 54 anos, e Artur, de 56, estavam em Óbidos quando ouviram as primeiras notícias sobre o incêndio em Pedrógão. Vieram a correr. “Viemos para tentar proteger as nossas coisas e acabámos aqui“, conta Arminda, acabada de chegar de Derreada Cimeira. Não conseguem sequer pensar na ideia de dormir. “Diga-me lá como é que podemos dormir!? Não sabemos de nada…”, desespera Artur.

Maria Rosa, de 78 anos, vestida de negro, lamenta o mesmo. “Parece que o pior já passou, mas ninguém nos diz nada…”. Chegou acompanhada pelas vizinhas. Vivia sozinha em Louriceira. “Os filhos e os netos estão longe, mudaram-se para Lisboa. Estou sozinha”, conta, de lágrimas nos olhos. Quando viu as chamas ao longe, teve medo do pior. “Foi tudo muito rápido, disseram-nos logo que tínhamos de sair. Eu não queria nada, mas o senhor guarda disse que tinha de ser…“.

"Viemos para tentar proteger as nossas coisas e acabámos aqui", conta Arminda, acabada de chegar de Derreada Cimeira. Não conseguem sequer pensar na ideia de dormir. "Diga-me lá como é que podemos dormir!? Não sabemos de nada...", desespera Artur.

Chegou ao centro de acolhimento pouco depois das 2o horas. Tentou descansar, mas não conseguiu. “Prefiro estar aqui fora, sempre vou conversando e não fico a remoer”, diz. A casa e os animais que deixou para trás são tudo o que conhece. “Não sei o que vai ser de mim…”. Não termina a frase.

Passam poucos minutos da uma da manhã e continua a chegar gente à Santa Casa da Misericórdia. José Luís, de 57 anos, veio de Ervideira, ao volante de uma carrinha de caixa aberta. Trouxe com ele cinco vizinhos, entre eles Rute, de nove anos, com uma mochila do Mickey nas costas e um olhar exausto no rosto.

Chegaram como saíram. Com as roupas esfarrapadas e sujas da fuligem, as mãos e a caras negras de fumo. Deixada a mãe e a filha no centro de acolhimento, José Luís e os outros homens querem voltar para combater os incêndios. O agente da GNR tenta demovê-los. “Fiquem aqui, por favor. Já há muitas mortes a lamentar.” Os homens acenam, em concordância.

Na carrinha de caixa aberta, veio também o cão de José Luís. “Não podia deixar o bichinho para trás. Ia morrer intoxicado ou pior“, diz, com os olhos em lágrimas, enquanto dá uma sacudidela carinhosa no cordel preso à volta do pescoço do animal.

Na carrinha de caixa aberta, veio também o cão de José Luís. "Não podia deixar o bichinho para trás. Ia morrer intoxicado ou pior", diz, enquanto dá uma sacudidela carinhosa no cordel preso à volta do pescoço do animal.

Passam poucos minutos das duas da manhã e continua a chegar gente à Santa Casa de Pedrógão Grande. Por esta altura, já os escuteiros distribuíam parte dos mantimentos que foram chegando à região. Mas já não há como acolher mais pessoas. José Luís e os vizinhos são encaminhados então para o pavilhão gimnodesportivo da vila, onde estão a ser instaladas outras pessoas desalojadas. Chegaram e desapareceram de vista. Só o cão ficou à porta do pavilhão, com a tela improvisada presa a um lampião.

Crédito: Henrique Casinhas

Na manhã desta segunda-feira, a vila parece ter acordado mais tranquila. A cortina de fumo que rodeava Pedrógão Grande já não é tão densa. O calor já não é o mesmo e choveu ligeiramente. Mas os trovões secos e roucos já se fizeram ouvir — os mesmos que terão estado na origem do inferno de Pedrógão Grande.

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