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Lena d’Água: “Nunca me armei em sex symbol, só que era muito gira”

05 Junho 20162.357

Lena d'Água foi a primeira mulher vocalista do rock português e um sex symbol nos anos 80. Nesta entrevista de vida, lembra os 40 anos de carreira, os namorados e o vício da heroína.

Descobriu a aldeia onde vive pelas imagens de satélite do Google Earth e, há oito anos, trocou um apartamento em Lisboa pela casa rústica onde mora com Maio, Melanie, Rafa e Lourinha, os quatro cães que a acompanham para todo o lado. Também tem gatos. A poucos dias de completar 60 anos de idade e 40 de carreira, Lena d’Água vive uma fase serena, longe dos tempos movimentados do auge da fama e do período negro em que esteve dependente de heroína.

Casou cedo e teve logo a única filha, Sara. Foi a primeira mulher vocalista do rock português e um sex symbol nos anos 80. Apaixonou-se muitas vezes ao longo da vida e viveu um romance poético com o escritor Pedro Paixão. Em 2002, entrou no Big Brother Famosos porque precisava de dinheiro, havia bidé e não existiam câmaras na casa de banho. Agora está a preparar dois concertos de comemoração no Hot Clube, em Lisboa, a 24 e 25 de junho.

Uma das primeiras vezes que cantou em público foi numa reunião de moradores do Bairro de Santa Cruz, em Lisboa. Como é que foi?
Antes de cantar, assobiei. Fui chamada pelo meu amigo que estava a tocar uns temas no final da reunião. Quando nos juntávamos à roda de uns livros e de umas guitarras, eu costumava assobiar a flauta do “Pode Alguém Ser Quem Não É”, do Sérgio Godinho. Naquele dia, sem me avisar, ele chamou-me ao palco para assobiar. Depois passou-me a viola porque sabia que eu já sabia tocar algumas canções, [como o] “Ne me quittes pas”, do Brel. Não me enganei, nem na letra, nem nos acordes à frente daquelas pessoas todas.

O primeiro concerto a sério só veio mais tarde, há 40 anos.
A primeira vez que cantei num palco mesmo a sério foi em 1976, éramos dois vocalistas, havia o Tó Leal, um rapazinho de 16 anos que parecia uma miúda. Tinha os cabelos compridos, era giríssimo. O tempo dos Beatnicks foi muito criativo, de muitas descobertas. Fazíamos muitas viagens para tocar, mas íamos e voltávamos no mesmo dia. Só havia três lugares à frente na carrinha de distribuição do leite que o meu sogro tinha. Eu ia à frente porque era a única menina, o Ramiro [Martins, meu marido,] ia a guiar com mais outra pessoa e os outros iam atrás com o material.

Quando a Lena nasceu, o seu pai já era uma estrela do futebol. Como foi crescer como filha de José Águas?
Era ter o pai apenas e só entre segunda-feira à hora do almoço e quinta-feira à tarde. Eles concentravam-se no chamado Lar do Benfica. Os jogos eram ao domingo mas eles só vinham para casa à segunda-feira para não irem celebrar. Quando saíamos [com ele] era sempre uma grande agitação.

1959luz

Com o pai, José Águas, no antigo Estádio da Luz

Como é que os seus pais se conheceram?
Se não fosse o Benfica, eu não tinha nascido. O meu pai nasceu em Luanda em 1930, a minha mãe em Lisboa no mesmo ano. Em 1950, o Benfica foi fazer um torneio de verão nas colónias. Passaram pelo Lobito, que o meu pai considerava a terra dele. Quando o Benfica lá foi, ele marcou dois golos e o Benfica perdeu por 3-1. O treinador do Benfica, um inglês chamado Ted Smith, perguntou: “Mas que idade é que o miúdo tem?” Ele era alto, mas magrito, até parecia mais novo. Passado um mês e pouco estava em Lisboa para começar a treinar pelo Benfica.

Sozinho?
Sozinho. Pai e mãe já não tinha. Falou com o irmão mais velho para lhe pedir autorização porque só se era maior com 21 anos. O primeiro jogo correu muito mal, ele nunca tinha jogado com pitons. No segundo, o meu pai marcou quatro golos. No mês seguinte, casou-se a irmã mais velha da minha mãe. O meu avô Lopes organizou um copo de água na Casa de Tomar, mas, nesse dia jogava o Benfica e ele era um grande benfiquista. Deixou os convidados e disse: “Vou ao jogo e já venho.” Os noivos também foram. Ganhámos o jogo. No final, o meu avô perguntou: “Ó Águas, quer boleia?”. O meu pai andava de elétrico e tinha um quarto alugado na Baixa. No caminho para Praça da Figueira, o meu avô convidou-o para ir tomar um drink ao copo de água da filha mais velha. As miúdas ficaram loucas. A minha mãe foi a última rapariga com quem o meu pai dançou. Manteve-se sossegadinha, mas não lhe passou despercebida. Ela era muito bonita, ele também. Namoraram 5 anos. Eu fui a primeira filha.

"[crescer como filha do José Águas] Era ter o pai apenas e só entre segunda-feira à hora do almoço e quinta-feira à tarde. Eles concentravam-se no chamado Lar do Benfica. Os jogos eram ao domingo mas eles só vinham para casa à segunda-feira para não irem celebrar. Quando saíamos [com ele] era sempre uma grande agitação."

Nasceu pouco tempo depois de eles casarem?
Eles casaram a 15 de agosto de 1955 e eu nasci em junho de 1956.

Que diferença de idade existe entre si e os seus irmãos?
A Cristina nasceu em novembro de 1957, o Rui [Águas, ex-jogador do Benfica,] em abril de 1960. Lembro-me de ele nascer. Eu ia fazer 4 anos, Subimos as escadas para ir ao quarto dos nossos pais ver o menino. Tinha muito cabelo preto, muito escuro. Depois caiu e ficou russo.

A sua mãe estava em casa a tomar conta dos filhos?
Sim, só começou a trabalhar depois do 25 de abril. Vendia panelas elétricas nas empresas.

Era uma mulher muito religiosa?
Era. Nós íamos à missa e à catequese. Ela foi catequista.

A Lena também…
Fui a catequista mais jovem da paróquia [de Benfica]. Tinha 13 anos. Dava catequese aos pequeninos, mas eu já era tramadinha: praticamente não falava da Igreja nem dos dogmas. Eu falava era de Jesus.

Por causa da carreira do seu pai andaram a saltitar de sítio em sítio?
Só fomos para Viena. Ele terminou o contrato com o Benfica e fez um ano de internacionalização em 1963/64. Fomos os três com ele, a minha mãe e a minha avó. Os meus irmãos eram mais pequeninos, mas eu já tinha aprendido a ler e passado para a segunda classe. Já não sei falar alemão, mas aprendi.

Já cantava?
Sempre cantei. Toda a gente cantava lá em casa. O meu pai cantava Frank Sinatra, Nat King Cole. A minha mãe cantava na igreja. O meu irmão canta muito bem, a minha irmã também. Mas uma coisa é cantar, outra é ter pachorra para ser palhaço saltimbanco. Em Viena, houve coisas muito importantes: os discos dos Pequenos Cantores e o facto de os termos visto ao vivo. Eu facilmente cantava aquilo e isso fazia-me sentir tão bem. Viena e os pequenos cantores foram fundamentais.

Quando voltou, onde é que fez a escola primária?
No Externato Via Sacra. Tinha uma grande vantagem: ficava a 300 metros da nossa casa. Havia desenho, teatro, uma espécie de ginástica, umas pontinhas de Francês e de Inglês, era multidisciplinar e muito avançado para aquele tempo.

Era boa aluna?
Acabei o liceu com média de 15. Fiz o liceu todo antes do 25 de abril. [O Maria Amália] era completamente feminino e muito cinzentão. Era notória a diferença que muitas professoras faziam entre as filhas das famílias com grandes apelidos e as filhas dos jogadores de futebol ou outros.

As professoras eram mulheres?
Todas. Só havia o padre. Tenho algumas memórias muito engraçadas do liceu: era proibido usar calças. Usávamos a nossa roupa, com batas brancas e um emblema que ia mudando de cor consoante o ano. Havia intercomunicadores nas salas. Uma bela tarde, ouve-se a vice-reitora fazer uma comunicação dizendo que ia ser permitido as alunas usarem calças, desde que… usassem uma saia por cima! Foi uma risota. Na aula a seguir houve outra comunicação a dizer que ia ser permitido usar calças sem saia.

No final do Liceu foi para o Magistério Primário?
Fiz seis meses de Sociologia até acontecer o 25 de abril. Passei para o Magistério porque não havia aulas na Faculdade.

Como é que viveram a revolução em casa?
Eu saí de manhã para apanhar o autocarro para o Campo Grande. Tinha aulas às 8h. Cheguei à porta da faculdade e estava fechada. Havia só meia dúzia de alunos e um alentejano muito agitado. Como é que eu soube do 25 de abril? Por esse alentejano que só dizia: “Ocuparam o Rád clube, ocuparam o Rád clube.” Eu ouvia “Rato Clube” e pensava que era alguma coisa do Rato Mickey. Só depois é que percebi que era o Rádio Clube. O Rádio Clube! Claro que não houve nenhuma aula no ISCTE.

Aperceberam-se logo de que tinha havido uma revolução?
Sim. Um deles tinha carro e disse: “Vamos ver o que se passa.” Metemo-nos cinco ou seis no carro dele e fomos para o centro até onde se podia passar. Chegámos ao Castelo de São Jorge mas não entrámos porque uns tipos da polícia política ou do regime tinham-se abrigado lá dentro. Nunca tive medo, nem me passou pela cabeça que pudesse ser outra coisa que não a libertação.

Era muito namoradeira?
Apaixonei-me dezenas de vezes. A primeira paixão foi logo no Externato Via Sacra. Chamava-se João Pedro e era gago.

Quem foi o seu primeiro namorado?
Chamava-se Zé Manel e tinha uma Honda 50. Foi o dos primeiros beijinhos. Não havia nada de outras coisas. Isso foi só mais tarde, a caminho dos 18 anos.

E o primeiro a sério?
O Zé Luís. Com ele comecei a ser vegetariana e a procurar livros sobre meditação e yoga.

Era uma miúda freak?
Era freak, mas tinha um pai que não achava graça. O mais tarde que podia chegar a casa era às 23h. Era freak porque inventava umas roupas, usava umas sandalinhas, umas coisas florais a lembrar os hippies, nunca me pintava.

Fumava-se erva?
Ah, sim. Comecei com aquele primeiro namorado.

E a música como é que estava nessa altura?
Quando dispensei dos exames do 5º ano, o meu pai ofereceu-me uma viola. Já tinha tentado ter um cavalo e, aos 12 anos, quis uma acelera. Não tive nem o cavalo, nem a acelera. A viola foi prenda de ter dispensado. Era vermelha escura, muito bonita.

Como é que foi parar aos Beatnicks?
No meu grupo de Benfica tinha um amigo, que já morreu e que eu adorava. Nunca fomos namorados. Morreu em 1976 com 18 anos por causa de heroínas. Conheci o Ramiro [Martins, dos Beatnicks,] numa festa de Carnaval, no Parque de Campismo de Monsanto. O Manel, este meu amigo, estava lá. Tinha umas ligações com gente perigosa, que se metia em tráfico de coisas duras. Eu já me preocupava muito com ele. Nesse dia, ele disse-me: “Já volto, não me demoro”. Foi-se embora e nunca mais apareceu. Fiquei numa tristeza tão grande… Lembro-me de estar sentada sozinha a chorar por causa dele — um ano depois, morreu mesmo e não foi acidente, mataram-no. Nisto, passou por mim o Ramiro com umas cervejas na mão. Ficou a olhar para mim e já não conseguiu sair de lá. Não sei o que ele me disse. Só sei o que lhe perguntei: “Qual é o teu signo?”.

"[no liceu] Usávamos a nossa roupa, com batas brancas e um emblema que ia mudando de cor consoante o ano. Havia intercomunicadores nas salas. Uma bela tarde, ouve-se a vice-reitora fazer uma comunicação dizendo que ia ser permitido as alunas usarem calças, desde que… usassem uma saia por cima!"

Só para início de conversa…
Sim! Ele respondeu: “Sou Leão e nasci nas montanhas”, mas as montanhas dele eram ali na Serra d’Aire. Disse-me: “Anda lá para fora apanhar ar”. Foi assim que eu conheci o que veio a ser o meu marido e pai da Sara.

Começaram logo a namorar?
Ele era giríssimo, cabelos pretos e uns olhos muito escuros. E eu também. Começámos a namorar pouco depois. Apaixonámo-nos à filme. De tal maneira que eu quis ter um bebé. Quando começámos a nossa relação, não comecei a tomar nada. Achava que era um contra senso sentir o que eu sentia e evitar uma coisa que fazia parte. Provavelmente, terá sido a maior paixão da minha vida, que depois se foi transformando em amor.

Ficou grávida logo?
No mês seguinte. Conhecemo-nos no Carnaval e eu fiquei à espera de bebé na Páscoa. Foi nesta altura, já de barriguinha, que eu decidi ir fazer o Magistério Primário.

E também começou a ir aos ensaios dos Beatnicks. Foi a primeira mulher vocalista do rock em Portugal.
Em maio de 1976 entrei para os Beatnicks, num concerto que houve em Sintra numa festa de finalistas. Na primeira saída, fomos todos de avião para o festival Musical Açores 77. Estava lá o António Moniz Pereira que fazia produção musical. Ouviu-me cantar e, passado pouco tempo, já cá em Lisboa, alguém me telefonou a perguntar se eu queria ir a estúdio. [Entretanto] Em 1978 acabou tudo: o meu casamento, o curso do Magistério, voltei para casa dos meus pais. E comecei a fazer esses trabalhos. Também foi nesse ano que fiz coros na música dos Gemini que ganhou o Festival da Canção, o “Dai Li Dou”. Fui a Paris ao Festival da Eurovisão.

Nessa fase também fez parte dos coros de “Eu Tenho Dois Amores”, de Marco Paulo.
Lembro-me da intensidade do Marco Paulo, compenetrado, corado, muito sério. Eu vinha do rock sinfónico, mas ali estava a ser paga como um músico de estúdio. Foi lá que comecei a fazer alguns jingles.

Fez alguns conhecidos?
Há dois mais famosos, o do Guloso e o do Harpic líquido. Neste âmbito da publicidade conheci o Luís Pedro Fonseca e o Zé da Ponte, que faziam jingles. O Luís Pedro contou um dia numa entrevista que se apaixonou por mim sem me ter visto. Estava no estúdio quando eu estava a gravar. Passado alguns meses, iniciámos uma relação amorosa. Nunca vivemos juntos, não tivemos filhos. Ele era “O” compositor. Depois dele, não consegui que mais ninguém compusesse para mim.

[Anúncio para a Guloso, de 1987]

A primeira banda em que estiveram juntos foi a Salada de Frutas.
Ele e o Zé eram criativos, faziam publicidade, mas o Luís Pedro já tinha tido duas bandas antes: Chinchilas e Dia d’Água.

Conheceu o António Variações antes de o cantar. Como era ele?
Ele estava na Valentim de Carvalho comigo. Uma dia, numa festa da Valentim, fiquei um bocado enjoada com um cigarro que fumei depois de um Irish Coffee. Ainda vivia em casa dos meus pais e disse: “Não posso ir já para casa”. Fomos primeiro a casa do António. Quando entrei passou-me logo a má disposição. Era um sítio de outro planeta. Parecia um pequeno museu de arte popular portuguesa.

Super kitsch?
Super kitsch. Pratos com lagostas, cerâmica Bordallo Pinheiro aqui das Caldas, brinquedos de folha… Era um pequeno museu. Ele era muito discreto, não era nada daquilo que a gente pensa quando vê as imagens. Vestia-se daquela forma, usava o cabelo e a barba toda desenhada, mas no dia-a-dia era a pessoa mais discreta, querida, ternurenta.

Em que momento é que passou a ser considerada um sex symbol?
Na festa do jornal Se7e, em julho de 1981. Foi a primeira vez que apareci no palco com uma mini-saia. Tinha estado no Algarve com a Sara e os meus pais. Tinha 26 anos e estava toda morenaça, giríssima. Não fui armada em sex symbol, só que era muito gira. Como o meu cabelo era muito liso, passei a usar aquelas fitinhas. Acho que foi a partir daí.

Era assediada?
Não, tinha um namorado. Os fotógrafos é que preferiam as minhas fotografias às da Salada de Frutas. Acho que isso esteve na base de eles me terem despachado.

Como é que surgiu o “Olha o Robot”?
Aquilo era um jingle do Zé da Ponte que não foi aceite pelo cliente. Depois o Luís Pedro escreveu a letra. A primeira vez que tocámos isso ao vivo, ficou tudo louco.

[com os Salada de Frutas]

Depois eles dispensaram-na.
Dispensaram. E o Luís Pedro saiu comigo. Fizemos a Banda Atlântida. Entretanto, ele produziu um tema do Rão Kyao que teve imenso êxito e, como as coisas estava a ficar tensas entre nós por estarmos tão juntos, ele saiu.

O fim da relação foi um desgosto?
Não, não. Eu e o Luís Pedro tínhamos muito mais do que a paixão. A música era tão poderosa que nos ligava muito mais do que a paixão primordial. Ficámos amigos até à morte dele.

“O Sempre que o Amor Me Quiser” é dessa altura. Apercebeu-se de que o tema ia ter muito sucesso?
Não. Mas há uma música que ele não queria pôr no álbum e que teve imenso sucesso: o “Dou-te um Doce”. Foi logo o que a editora escolheu para single. Com a saída do Luís Pedro, deixou de haver renovação de repertório e a banda deixou de fazer sentido. Depois de acabar a Atlântida, passou a haver a minha banda, sem nome.

[em 1984, no “123”]

Foi depois do Luís Pedro que conheceu o Pedro Paixão?
Foi no meio. (risos) Apaixonei-me pelo Pedro também na terça-feira de Carnaval de 1985.

O início dessa história é um pouco estranho.
Liguei para um amigo que não estava em casa e quem atendeu foi o Pedro, que estava a sofrer porque tinha sido abandonado [pela mulher].

E contou-lhe logo isso tudo ao telefone?
Não, não, não contou nada. Eu é que descobri.

Então porque é que foi ter com ele?
Porque ele dizia coisas maravilhosas. Eu estava sem ninguém.

Disse-lhe coisas maravilhosas na primeira conversa telefónica?
Começou a ler uns poemas e a dizer umas coisas…

Ao telefone e a uma pessoa que não conhecia de lado nenhum…
Eu não sei se lhe disse quem era, mas podia ser uma rapariga qualquer porque ele sempre adorou raparigas, não era por ser a Lena d’Água. Fomos namorados nesse ano de 1985. Ia comigo para os concertos. Quer dizer, eu é que ia com ele no carrinho dele e a banda ia na carrinha.

Nessa noite de Carnaval foi foi ter com ele.
Depois daquilo que ele me tinha dito, só podia ser boa pessoa. Saí às 11h da noite. Disse-lhe: se não me dizes onde estás, eu, por este número telefone, consigo a morada. Ele, sem me dizer que tinha pavor que ela chegasse — nunca chegou, ou chegou tarde de mais — dizia-me: “Ah, mas aqui não pode ser.”

Combinaram onde?
Na antiga estação de comboios de Benfica.

Ficaram na estação?
Não. Entrei na estação vestida à Lena d’Água, com um chapéu de feltro, umas botas cor de mostarda e um blusão de ganga verde com umas rendinhas amarelas, à artista. E o Pedro, apesar de ter a minha idade, era um autêntico senhor mais velho, com aqueles óculos muito sérios. Cheirava tão bem — a um Vetiver que eu depois soube que ele trazia do Sul de França. Usava sobretudo. Achei que ele era um poeta meio louco, uma pessoa que dizia coisas muito bonitas. Entrou no meu carro, um Ford Cortina branco. E eu perguntei: “Vamos para onde?”. E ele: “Vamos para a Graça, com a graça de Deus.” Pensei que íamos falar do miradouro. Ele saiu do carro e começou a descer para aquela albergaria da Senhora da Hora. E eu: “Ai a minha vida”. Pus o chapéu para a frente. Não tinha nada a esconder, mas…

Havia um clima entre os dois?
Qual clima! Ele disse-me logo: “Não tenhas medo porque eu estou completamente morto. É impossível que aconteça alguma coisa”. Quando entrámos no quarto, não acendemos a luz. Foi lindo: aquela vista de Lisboa à noite, para o Castelo. Passámos a noite juntos.

Como irmãos.
Sim, praticamente. Só trocámos umas ternuras. E depois ele pediu o despertador para as 7h da manhã. Não me disse nada: nem que ela o tinha deixado, nem que era professor de filosofia… Nada! Antes de ele me contar tudo, eu já sabia. Houve uma ida ao Guincho e ele levou um carro da irmã que tinha uma morada da Avenida Dom João V. Através da morada saquei o telefone. Era a morada dos pais.

Ligou para lá?
Liguei. Disse que era uma amiga do Pedro, que há muitos anos não sabia dele e que queria saber. O pai contou-me tudo. “Ai, mas não sabe que ele casou?” Não, não sabia. “Pois e dá aulas na Católica e na Nova”. Passado alguns dias, o Pedro contou-me tudo.

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Com a Banda Atlântida

Ficou apaixonada?
Fiquei apaixonadíssima por ele. A paixão dele era a outra, mas tratou-me melhor do que os outros todos que se diziam apaixonados por mim.

Porque é que acabou?
Ele não era apaixonado por mim…

Então afinal com quem foram os seus grandes desgostos de amor?
Os homens que viveram comigo. Depois de me separar, no final desse ano, consegui arranjar dinheiro para a entrada de um apartamento. E, finalmente, em 1985, fui viver para a minha casa, eu e a Sara. Os rapazes e os homens que namoravam comigo queriam mais a artista do que a mulher… Não tinham confiança em mim. A última vez que me separei foi há quase 20 anos. Foi uma paixão incrível, mas aquilo dava muito para o torto. Houve uma altura em que já não quis mais [homens] e também nunca mais encontrei. Aqui a casa é pequenina e não cabe nenhum.

Quando é que começou o seu problema com as drogas?
Foi com o anterior, que também viveu comigo nessa casa. Nós fumávamos umas ganzas. Tínhamos começado um caso. Ele não usava aliança, mas tinha mulher e filhos. Um dia, aparece-me com uns olhos… E eu: “O que é que se passa? O que é que tu tens?” “Nota-se alguma coisa?” “Nota.” “Ah, fumei isto.” Era heroína, não é? “Queres experimentar?” Tenho de contar isto: no final da gravação do videoclip do “Já Não Sou Quem Era”, do Variações, tínhamos ido jantar. Toda a gente se foi embora menos eu, a rapariga da maquilhagem e o câmara, que era ele. No final do jantar, viemos para Lisboa, parei para fumarmos uma ganzita e contei a minha vida toda. Ai, meu Deus, o que me arrependo… Disse [à maquilhadora]: “Ah, eu drogas duras, não. Perdi um amigo há muitos anos. Experimentei cocaína, não acho graça nenhuma àquilo. Fumei uma vez heroína sem saber e o namorado que estava comigo disse que eu não o largava, só o queria agarrar”. E o outro a ouvir e a pensar: “Quer dizer que ela fumou heroína e ficou doida”. No princípio, a heroína é assim, fica-se louco. Depois acaba-se tudo.

"[a casa do António Variações] Parecia um pequeno museu de arte popular portuguesa. Super kitsch. Pratos com lagostas, cerâmica Bordallo Pinheiro aqui das Caldas, brinquedos de folha… Era um pequeno museu. Ele era muito discreto, não era nada daquilo que a gente pensa quando vê as imagens."

Fica-se louco como?
Fica-se louco para agarrar, para beijar. Não é tanto sexual, mas depois acaba por ser.

Ele achou que tinha que experimentar isso consigo?
Foi isso. Só anos mais tarde — anos depois de eu ter saído daquilo — é que eu percebi. Depois é a história do costume. Sente-se logo a falta.

Fisicamente?
Não, primeiro é psicológico porque deixa uma marca. Aquilo tira-te as dores, tira-te as preocupações. Passado alguns meses tive uma conversa com a minha filha e os meus pais, à frente dele. Disse: “Estou com um problema.” Contei logo. Eu queria que ele fosse confrontado.

Mas vocês fumavam ou injetavam-se em casa?
Fumar, qual injetar! Eu não! Que nojo! Durante anos, depois de parar aquilo tudo, bastava lembrar-me para sentir vómito. É poderoso e diabólico. Mantive-me a fazer a minha vida relativamente normal, a cantar nas Canções do Século, lindíssima, magríssima…

E agarrada.
E agarrada. A fumar.

A Rita Guerra e a Helena Vieira, com quem fazia os espetáculos, aperceberam-se?
Aperceberam-se de tudo. Eu falo, eu conto. Elas foram muito minhas amigas, e o Pedro Osório um amigo incrível. Ele esteve muito ao meu lado. Sabia que eu estava sozinha.

Era a Lena que ia comprar?
Era um outro amigo por quem me apaixonei e que morreu com sida. Depois passei a ser eu. Conheci tudo.

Tudo era o quê? O Casal Ventoso?
Fui a todo o lado, mas esse era o melhor sítio. Aí sentia-me protegida.

Porquê?
Porque era uma ilha. Bastava ires uma vez para ninguém estranhar que tu ias. Eu era a Lena d’Água. Ali dentro estava protegida. Nem tinha medo da polícia. Quando estás com aquela doença, o problema é tão grave que tudo o mais é secundário. Foram uns tempos horríveis, mas sempre com o meu dinheiro. Nunca tive de andar a enganar ninguém. Tive de vender o apartamento, comecei a atrasar as prestações da casa, do carro…

Como é que os seus pais lidaram com isso?
Sofreram muito.

E a miúda estava com eles?
A Sara de vez em quando fartava-se. Fazia umas temporadas em casa dos avós para não estar tão próxima da situação. Foi até ao final dos anos 90. Fiz duas desintoxicações.

Como é que se interrompe o ciclo?
Por tentativas. Fiz muitas. Passei uma fase a metadona. Até que a enfermeira, ao fim de algum tempo, me disse assim: “Ó Lena, quando é que se deixa dessa treta e faz uma desintoxicação a sério?”

No auge quanto é que consumia por dia?
Às vezes meio grama, às vezes mais. Já vai fazer 20 anos que isso acabou.

1985 praia das bicas, meco

Com Pedro Paixão, em 1985

Comentava-se que a Lena estava com esse problema?
Não sei. O que eu sei é que houve um boato de que eu estava com sida. Perdi concertos com isso. Eu andava a fazer visitas no Egas Moniz. Penso que foi daí que veio.

Quando é que se sentiu a salvo?
A salvo sinto-me agora.

Hoje em dia bebe?
Bebo socialmente. De vez em quando apetece-me e vou comprar uma garrafa de vinho ali ao Joe Berardo [à Quinta dos Loridos].

A sua recuperação não passou por se abster de todas essas substâncias?
Era o que faltava! Então: nem sexo, nem rock’n’roll, nem uma ganza de vez em quando? Rock’n’roll consegui recuperar. Andei a fazer aqueles ensaios e fiz o disco Carrossel com os rapazes da Rock’n’roll Station, de Peniche.

Porque é que decidiu ir para o Big Brother, em 2002?
Porque precisava de dinheiro! Tinha começado a fazer [os concertos da] Billie Holiday, que eu amava, no Hot Clube e em cine-teatros. Mas aquilo dava muito pouco dinheiro. [O Big Brother dava-me] quinhentos contos [2500 euros] por semana! Eu não era obrigada a fazer nada! Aliás, foi por isso que fui posta na rua. Estive lá duas semanas e ganhei 1.000 contos [5.000 euros].

"[o Casal Ventoso] Era uma ilha. Bastava ires uma vez para ninguém estranhar que tu ias. Eu era a Lena d’Água. Ali dentro estava protegida. Nem tinha medo da polícia. Quando estás com aquela doença, o problema é tão grave que tudo o mais é secundário. Foram uns tempos horríveis, mas sempre com o meu dinheiro. Nunca tive de andar a enganar ninguém. Tive de vender o apartamento, comecei a atrasar as prestações da casa, do carro…"

O que é que fez para ir?
Telefonei para lá: “Como é que é? Quanto é que pagam? Ainda há lugares? Há bidé?” Eu não ia tomar banho toda nua. Havia bidé e não havia câmaras na casa-de-banho. Disse: então está bem, guardem lugar para mim que eu quero. Nesses 15 dias, uma borboleta pousou-me na mão durante 20 segundos. Foi um momento absolutamente milagroso.

Nos últimos anos, vimo-la menos. O que é que tem feito?
Nunca tive outro trabalho. Ou canto com piano e voz, ou voz e guitarra. Em julho, vou às Noites na Nora, em Serpa. Fiz alguns concertos com os rapazes de Peniche. As mulheres continuam a ser sempre segunda escolha, muito mais uma mulher que já passou os 30 anos há 30 anos.

O que é que está a preparar para os concertos do Hot Clube?
Vai ser a reunião com os músicos com quem eu fiz os concertos de música da Billie Holiday e Elis, e o disco do Hot Clube, temas meus que se adequam aos arranjos do Bernardo Moreira. Não vou tocar nem o “Robot”, nem o “Dou-te um Doce”, mas vou ter de tocar o “Sempre Que o Amor Me Quiser”, o “Estou Além”, do António Variações, a “Mariazinha”, a “Noite Passada”.

Para quem a viu no Big Brother, pode parecer estranho vê-la neste recolhimento, no campo.
Este espaço recolhido dá-me toda a liberdade. Raramente ponho música a tocar. Só ponho quando me apetece ouvir alguma coisa específica. Faço limpezas todos os dias, comunico na internet todos os dias, descanso, vejo alguma televisão já mais para o fim do dia. Passeio os cães. Eu sempre fui cantora e uma cantora é assim.

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