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Até ao fim do mundo

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É hoje, 6ª-feira, dia 29 de janeiro de 2016, que saio do Observador. É hoje que me despeço de si, com lágrimas a correr pela cara. São lágrimas, sim, de orgulho, de amor. Este é o meu até já.

Rua Luz Soriano, nº 67. Data marcada: 10 de março de 2014. Eu, o Diogo Queiroz de Andrade e o José Manuel Fernandes trabalhámos meses a fio para pensar numa estrutura, no site, fazer um orçamento – realista, mas adequado à dimensão do desafio. Fomos procurar casa, encontrar os jornalistas certos, os que queríamos e os novos, depois de ouvirmos centenas, de recebermos milhares de currículos. Faz hoje quase dois anos que descemos as escadas e os fomos receber à porta.

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Todos juntos, pela primeira vez. Foi assim sempre

Lembro-me do nervosismo, dos sorrisos, da ansiedade. Deles e nosso. Naquele ido mês de março, lançar um projeto de média era quase um ato de loucura e todos tínhamos ouvido o mesmo, até dos amigos a sério: não há espaço para vocês, o mercado está em crise, são juniores e inexperientes, a concorrência do ‘novo’ Expresso vai ser terrível.

Durante dois meses e meio, vivemos dias incríveis. Fizemos formação, reiniciámos quase do zero um backoffice que não estava a correr bem (Leo Xavier, que coisa boa fizeste!). Olhámos lá para fora, tirámos lições. Conversámos muito, treinámos mais. Foi nessas semanas que entrámos online sem ninguém ver, que o João Cândido (grande João!), a Helena Pereira e o Ricardo Oliveira Duarte ajudaram os mais novos a serem melhores jornalistas, em reuniões a sós que tantas vezes acabaram com alguns a chorar. A chorar porque queriam ser melhores, a chorar porque queriam aprender. A chorar porque tinham medo de não estar à altura – sem perceberem que seria esse medo a fazer deles os melhores jornalistas do mundo, do meu mundo pelo menos.

Foi nessa altura, sempre à conversa numa redação aberta, que nasceu o Explicador. Que nasceu o Liveblog, que pensámos nas newsletters, que fixámos uma identidade. Foi nessa altura que nos conhecemos melhor e que – mais que tudo – nos começámos a divertir muito. Disse-o vezes sem conta a esta equipa maravilhosa que aqui está: “Sejam felizes a fazer jornalismo. Quem nos ler vai sentir isso. E vai gostar assim”.

Até que, finalmente, marcámos uma data: 19 de maio de 2014. Tivemos medo, nessa altura, pois claro. Mas não hesitámos. Um dia antes, em plena campanha, entrámos em livestreaming: um debate entre Francisco Assis e Paulo Rangel, no Porto, deu confiança para o dia seguinte. O plano estava em marcha e quase ninguém dormiu. De madrugada, o nosso Observador nasceu – e nós, deste lado, ficámos derretidos.

Quem já viveu a maravilha de ver um filho nascer sabe do que estou a falar. Nunca, nunca mais na nossa vida, teremos alguma coisa igual – até outro nascer. Choramos, bebemos cada imagem, cada momento. Amamos como se não houvesse mais ninguém, como se não houvesse amanhã. Foi assim que nasceu o 360º também. A amar cada segundo, enquanto você, desse lado, dormia.

Lembro-me bem de olhar para o ecrã onde temos sempre afixados os resultados, em tempo real, e de ver as pessoas a entrar no site (sim, nós aqui vemo-lo entrar, circular, sair, voltar). Lembro-me das nossas primeiras notícias (foi tua, minha querida Helena!). De como fomos recebidos pela concorrência (obrigado, mesmo!). Dos primeiros emails que caíram na caixa de correio, das inúmeras mensagens dos amigos. Lembro-me dos primeiros erros – e de repetir sempre à equipa: “Corrijam, façam uma nota no fim a pedir desculpa. Respondam a quem nos alertou e agradeçam”. E de eles a fazerem isso sem perder um minuto – e a receberem um “obrigado” na volta.

O primeiro mês foi assim – e não dá para esquecer nada, nem um bocadinho. Até que olhámos para os resultados e ficámos de boca aberta (tantos!). Foi quando o Rudolf Gruner nos fixou as metas, numa reunião que só muito mais tarde passou para os jornalistas: 12 milhões de pageviews no fim do primeiro ano. Prudentemente, decidi só protestar num pormenor: “Subir vizualizações em agosto?”. E subimos. Subimos muito.

Apostámos mesmo tudo. Numa app que eu e o Diogo insistimos que tinha que existir no início, num backoffice em WordPress. Num desenho bonito, sobretudo simples e rápido de aceder. Insistimos em ter uma manchete nossa, diferente das dos outros – que se limitavam a seguir a agenda ou a pegar nas notícias do jornal da manhã. De fazermos do Observador uma rotunda de toda a informação importante (estavas tão certo, Zé Manel). De fazer as notícias que põem as pessoas a sorrir (e tanto que precisamos de sorrir na vida!). De pensar um pouco mais do que os outros para fazer uma boa análise, para ter uma boa ideia, de estar no terreno para que as fontes se lembrassem de nós, para que as notícias aparecessem. Elas apareceram. E os prémios também.

Lembro-me muitas vezes da desconfiança com que olhavam para nós, “aquele jornal de extrema-direita”. E de termos fixado desde o dia zero, no gabinete do António Carrapatoso, com ele, o Rui Ramos e o José Manuel Fernandes, que a coluna de opinião seria liberal, mas livre. Mas sobretudo que a coluna das notícias era sagrada: factual, crítica, rigorosa, noticiosa. Eu, o Diogo, os jornalistas, todos sabíamos que ia demorar o seu tempo, mas que todos iriam reconhecer o que já éramos: Sérios. Credíveis. Bem intencionados. Bons. Hoje – perdoem-me a imodéstia -, só os de má-fé não o reconhecem.

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Quando o José Cid veio cá cantar. Quem disse que custa trabalhar?

Lembro-me de quando discutimos, entre nós, quão importante era marcarmos outra diferença, julgo que a mais importante de todas as diferenças: responder a quem nos mandava emails, a quem falava connosco nas redes sociais. Lembro-me de sermos honestos, transparentes com quem nos lê – desde o dia 1. Lembro-me das discussões que tínhamos sobre os títulos que fazíamos (e repetíamos) com pontos de interrogação. E de chegarmos sempre ao mesmo consenso: não, os jornalistas não têm de saber tudo. E quando têm mais dúvidas do que certezas não podem fingir – têm mesmo de dizer isso ao leitor.

(“O cliente tem sempre razão”, diz-me sempre a minha avó. E aqui o cliente aqui é você). 

O Observador rapidamente começou a ser citado. A ser seguido. A ser imitado. Uns fizeram newsletters, muitos refizeram os sites, criaram apps, passaram a fazer notificações de notícias. Houve, na concorrência, quem crescesse connosco – fazendo melhor, várias vezes melhor que nós (e não se pode fazer melhor elogio ao trabalho desta equipa do que este). E nós, desafiados, tentámos sempre superar.

Mas o Observador foi sempre o Observador. Evoluiu, porque não nasceu com a ambição de ser assim, mas de ser mais: o Observador 2.0; ou o 3.0 – até ao infinito. A nossa regra foi sempre essa: nunca deixar de inovar, de tentar fazer melhor.

E fizemos mais coisas lindas, daquelas que nos orgulhamos muito: Especiais que davam prazer ler, Explicadores que explicavam mesmo, entrevistas sólidas, vídeos animados, informação interativa. Notícias, quentes e boas, com direito a push notification para quem tivesse a nossa app. Criámos o Lifestyle (way to go, Ana!), apostámos na Cultura, na Investigação, nas nossas Conversas – com salas cheias a debater o que os outros não debatem tanto, a vida real (a Felicidade, Laurinda!). Entrou gente nova, entraram alguns reforços: os grandes Edgar Caetano, Ana Suspiro e Marlene Carriço. Entrou a minha amiga Filomena (amiga do coração, profissional como poucas) e a minha querida Rita Ferreira. Todos juntos fomos jornal, fomos rádio, fomos televisão. Fomos um site, com tudo o que um site pode dar. Crescemos, aprendemos uns com os outros, também com os outros lá fora.

Sofremos também. Trabalhámos muito, às vezes demais. Irritámo-nos uns com os outros (e depois passou sempre). Procurámos consensos. Procurei ouvir sempre – porque nunca achei que liderar fosse mandar, mas sim ouvir para  fazer melhor.

Fizemos algumas apostas erradas – que nunca hesitámos em corrigir, em deixar cair. Olhámos sempre para o quadro dos resultados, em realtime. E compreendemos que é possível fazer um site sério, com peças cheias de profundidade, e ser mais lido por isso. Mas também que se pode adequar a nossa oferta àquilo que os nossos leitores procuram, sem nunca sacrificar o que achamos essencial. Porque a nossa missão é essa: informá-lo bem. A si.

Passou o primeiro ano e fizemos a festa.

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Isso mesmo: jantar de equipa. Para celebrar a amizade e o trabalho.

Lembram-se dos 12 milhões de pageviews? Foram 18. Mas não eram os resultados que nos animavam mais. Eram emails como o do leitor que me descreveu minuciosamente como começou a ler o Observador, como “um velho do Restelo”, como ele dizia. E como, com o tempo, com interesse, foi rejuvenescendo – até chegar aos 21 anos, quando seguiu a cada minuto o nosso liveblog sobre a queda de um avião na Ucrânia. Ele apaixonou-se por nós e mandou o mail. Chorei a ler. Respondi. Mandei à equipa toda. Nunca soube a idade dele. Vou agradecer-lhe a vida toda.

Acabou a festa e seguimos em frente. Explicámos a crise na Grécia como ninguém, fomos incríveis a contar o terror dos atentados de Paris, fizemos a melhor cobertura das eleições legislativas – e do pós-legislativas, que quente que ele foi. Puxámos pela cabeça para fazer das presidenciais o que elas eram (mas não pareciam): interessantes, importantes. Pensámos e ajudámos a pensar. Pelo meio escrevemos ciência, escrevemos desporto (e que bem que o fizemos), apostámos nas reportagens, contámos histórias – de pessoas, de startups, de tudo o que nos parecia valer a pena.

Desde o dia 1, não tivemos mais medo – só respeito, muito respeito por quem nos lia. Tivemos orgulho. Nestes quase dois anos de Luz Soriano, fomos grandes e fizemos do Observador “O Observador” – aquele de que todos falam, já com 40 milhões de pageviews este mês, com mais de três milhões passar por cá a cada mês.

É hoje, sexta-feira, dia 29 de janeiro de 2016, que saio do Observador. É hoje que me despeço de si, com lágrimas a correr pela cara. É hoje que me despeço desta equipa absolutamente inesquecível, aquela que me fez o favor de ser o diretor mais feliz deste mundo e do outro. São lágrimas, sim, de orgulho, de amor. De quem sai desafiado, feliz com o próximo desafio, motivado para crescer, para aprender, para ajudar a fazer algo de bom. Mas lágrimas mas de quem sempre andará por aqui – porque quando deixamos o nosso filho, já maior de idade, sair de casa, parte do nosso coração fica para sempre com ele. É nessa hora que lhe dizemos só isto, ao nosso filho: sê como és, não mudes senão para melhor. Sê feliz – quem te ler vai perceber isso. E obrigado, por tudo.

Eu, por mim, é isso que farei. Miguel, Diogo, Filomena, todos vocês (que magníficos sois), agora é convosco.

Quanto a nós, caro leitor, encontramo-nos por aí. Sempre com um sorriso. Até dia 29 de fevereiro, ali na TSF.

Até ao fim da rua. Até ao fim do mundo.

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