Atentados de Paris

Defender a Europa implica defender o Natal

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Saber conviver com essas raízes cristãs – que até trouxeram coisas boas como a maior festa do ano, a do Natal – está, se se esforçarem, ao alcance de ateus totalitários e muçulmanos.

Não falha: de cada vez que há um atentado terrorista há vozearia alertando para a necessidade de não deixar que o combate ao terrorismo cerceie as nossas liberdades nem ponham em causa o nosso modo de vida. As preocupações vão para os excessos de vigilância, a limitação (legal ou efetiva – pelo medo) da liberdade de expressão, a segurança cada vez mais apertada em aeroportos (e qualquer dia sabe-se lá onde).

E fazemos bem em perceber que os ataques terroristas são acima de tudo um atentado ao nosso modo de vida ocidental. É corriqueiro viajarmos de avião, usarmos os transportes públicos (os alvos dos atentados de Madrid e Londres), irmos a um espetáculo e jantarmos fora ou tomarmos um café com amigos numa sexta-feira à noite. Matar infiéis é tanto um objetivo dos terroristas como torpedear as receitas com o turismo (e parar esses atos satânicos que são os divertimentos de férias, quase todos muito pouco piedosos, dos turistas) nos locais que atacam – Sharm El Sheik e Paris, com os turistas a fugir, que o digam.

Mas curiosamente convivemos muito bem com outros ataques ao nosso modo de vida. Na verdade até há abundantes europeus que os iniciam, muito prestimosos na sua proteção dos muçulmanos residentes na Europa. O André Azevedo Alves já aqui alertou para o perigo de passarmos a vida a repudiarmos a sociedade livre, próspera, diversificada e respeitadora dos direitos e liberdades dos indivíduos que é a Europa. Temos culpa de tudo: da pobreza que se vive nos regimes corruptos aos atropelos aos direitos humanos pelos déspotas. E no terrorismo é como nas violações: a culpa é das vítimas, que estavam a pedi-las. A culpa é inevitavelmente da invasão do Iraque, antes da divisão da Palestina, antes ainda dos protetorados europeus no Médio Oriente, do colonialismo, das cruzadas, do exército de Vespasiano que vergou a Judeia, e um quilométrico etc. até ao Big Bang. Tal como os colonizadores queriam educar os selvagens que governavam porque não lhes reconheciam grau civilizacional, também agora os eternos auto-fustigadores dos males ocidentais tratam os outros povos (ou grupos) como crianças que apenas são capazes de responder a interferências e nunca de decidir o seu destino.

E, cá na Europa, os pobres muçulmanos têm de ser protegidos de uma realidade absolutamente terrível (a ponto de o horror de um genocídio médio empalidecer perante ela): as expressões públicas da religião cristã. O que é inteiramente justificado, reparem: as almas sensíveis dos muçulmanos – tão sensíveis que em numerosos casos frequentam mesquitas radicais que incitam à violência, e que declaram apoio a atentados terroristas e ao ISIS – têm de ser preservados de andarem pelas ruas desprevenidos e depararem com o escândalo que é um presépio na via pública.

Em Dezembro de 2011 estive em Bruxelas com as minhas crianças. Vimos a imensa árvore de Natal e o presépio da Grand Place. Ao pé do Manneken Pis havia outro presépio na rua, e – certamente por estarem já endurecidas com a violência das séries infantis – as crianças entusiasmaram-se mais com as figuras ofensivas do Menino Jesus e família do que com a mascote da cidade. (Eu, já mais mundana, entusiasmei-me com uma pintura mural do Tintin e do Capitão Haddock na lateral de um prédio próximo.)

Pois bem, a árvore de Natal da Grand Place não existiu em 2012, porque se considerou que tal símbolo de uma festa católica ofendia os muçulmanos residentes na Bélgica. E o presépio foi atacado o ano passado por um contingente das FEMEN. Também em 2014, um tribunal francês em Nantes ordenou a retirada de um presépio de um edifício municipal da zona – e vários outros presépios em locais públicos geraram angústia e, quem sabe, corridas a psiquiatras nos franceses mais suscetíveis. Na Grã-Bretanha é o costume: já é malvisto desejar Merry Christmas em vez do pan-religioso Seasons Greetings. Um anúncio anglicano ao Pai Nosso foi banido das salas de cinema. E nós por cá – que somos europeus modernos – temos decorações públicas de Natal já esterilizadas de religião.

Como a mim não me chocaria ver edifícios públicos celebrando e apontando festas das religiões que têm comunidades numerosas no meu país (que bonita ficaria a Assembleia da República decorada com castiçais de sete braços para celebrar a Hanukah, por exemplo), escapa-me a parte em que o reconhecimento público de uma festa religiosa da religião da maioria da população pode ser ofensivo. Mas isso sou eu, uma rústica que ainda não percebi que temos de nos penitenciar por sermos o que somos.

Claro que nem só muçulmanos (e nem todos) se ofendem. Os ateus totalitários ofendem-se ainda mais com a expressão pública da religião. Sobretudo a cristã, que ainda vivem num trauma (próprio de adolescentes) contestatário às raízes culturais onde nasceram e cresceram – e que permitiram a criação da tal sociedade livre. (Já do islão é proibido referir a maneira amável como tratam as mulheres ou o apoio de tantos clérigos ao extremismo e ao terrorismo.)

O Natal é ‘a’ festa do mundo ocidental; recusá-la é o sintoma máximo do repúdio pelo ocidente. Claro que é uma festa familiar para muitos não crentes e celebra o solstício de inverno para os hippies. Mas tem raízes cristãs. Saber conviver com essas raízes cristãs – que até trouxeram coisas boas como a maior festa do ano – está, se se esforçarem, ao alcance de ateus totalitários e muçulmanos. Mais um bocadinho e até perceberão que orgulharmo-nos da Europa implica orgulharmo-nos (podendo notar-lhe os defeitos, que os teve em abundância) da cultura que nos deu as catedrais góticas e os frescos renascentistas. E o Natal. É fulcral aceitarmos de onde vimos para apreciarmos o que somos.

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