Biografia

Portugal, o país onde não podemos escrever livros

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O timing da biografia de Sampaio é de elogiar. Ao cair em cima da provável acusação a Sócrates sempre nos permite lembrar que foi a sumidade agora biografada que criou tão honesto primeiro-ministro.

Ontem quando escrevia este texto o país estava calmo, mas aposto que hoje existem, pelo menos, três bairros barricados em Lisboa. Nem imagino o atroz sofrimento da esquerda nacional por tão hedionda traição. Caso a PSP não tenha pensado atempadamente (o que é imperdoável e justifica por si só uma chamada da ministra Urbano ao parlamento) em vedar o acesso ao Tejo ao longo de toda a zona ribeirinha lisboeta, que o faça a correr, que eu temo um colapso na vontade de viver dos militantes da esquerda nacional e tentativas de suicídio em massa. Há que evitar um auto genocídio, senhores guardas.

Falo de quê? Bem, caro leitor, olhe à sua volta. Vai sair uma biografia de Jorge Sampaio nos anos da sua presidência, com colaboração do ex Presidente. Estou certa que as muito numerosas alminhas sensíveis que gritaram pela falta de elegância de Cavaco Silva por escrever as suas memórias do seu tempo de coabitação com Sócrates, pelo inimaginável atentado à privacidade (risos abundantes) das conversas entre um PR e um pm, essas alminhas sensíveis, digo eu, que andaram a fazer figuras tristes nas televisões, rádios e jornais, estão em agonias pela traição de Jorge Sampaio. E neste momento ou correm para as zonas ribeirinhas das cidades portuguesas para se desgraçarem ou estão em casa debaixo dos cobertores e encharcados em antidepressivos.

É que, pelo que leio, Jorge Sampaio conta conversas efetivamente privadas, sobre assuntos da sua candidatura, com o líder do partido por que queria ser apoiado. Estou à espera do pior dos paladinos da defesa do direito à privacidade – é como quem diz, dos maluquinhos que argumentam que os contactos entre um ministro e um particular, versando uma empresa pública e a futura relação da empresa com o dito particular, são privados e, como tal, fora do escrutínio democrático dos media e dos representantes dos eleitores. (Não são.)

Cavaco Silva escreveu sobre as interações que teve, enquanto Presidente da República, com o primeiro-ministro sobre a coisa pública. Assuntos e circunstância onde não há nada de privado. Mas os moralistas sem moral do costume exibiram lágrimas de pesar por tanta deselegância. Agora, com o livro de Sampaio, ou realizam motins ou seremos obrigados – com arritmias no coração, tal a magnitude da surpresa – a concluir que são hipócritas e que usam um manhoso direito à privacidade para encobrir as más atuações dos governantes socialistas – de Sócrates a Centeno.

Em todo o mundo democrático é normal que os políticos de relevo escrevam as suas memórias políticas. Churchill ganhou um prémio Nobel da literatura à conta disso. Obama conseguiu um contrato de sessenta milhões de dólares para contar em livro o que viveu como POTUS. Historiadores de todo o mundo usam este tipo de documentos como fontes historiográficas.

Porém Portugal é um país muito especial. Não precisamos de memórias de personagens que influenciaram a história para nada. Se as personagens forem de direita, então, devem ficar caladinhas e a posteridade deve higienicamente fingir que nunca existiram. Cavaco quê?

(Já agora. Marcelo Rebelo de Sousa, que teve de vir meter colheradas aquando do lançamento do livro de Cavaco Silva garantindo que nunca escreveria as suas memórias – Deus o conserve com tal disposição –, vai agora comentar o quê dos contributos que Sampaio deu para a sua próxima biografia?)

Esta peculiaridade não se vislumbra apenas na política. Há pouco tempo Henrique Raposo também escreveu um livro com um registo perfeitamente corrente no mundo civilizado. Contou as origens da sua família e refletiu sobre elas do ponto de vista do Henrique Raposo de 2016.

É certo que Alentejo Prometido é o tipo de livro que me é apelativo. Como boa individualista, aprecio os registos pessoais. Acredito no poder das histórias contadas na primeira pessoa – são as mais fascinantes e as mais poderosas. Além disso, o livro está muito bem escrito e tem aquela característica que eu tanto aprovo: a candura e a honestidade do autor. Só os tolos desconsideram este tipo de testemunhos. Que são, de resto, um florescente mercado literário no mundo desenvolvido (e em desenvolvimento).

Mas por cá? Os alentejanos amofinaram-se porque um homem contou a história familiar sem dourar a pílula, chegando-se a ameaças de violência. A esquerda rejubilou com o ataque a um destacado cronista de direita (estirpe de gente que merecia o extermínio, bem entendido).

Claro que tudo isto vem do nosso historial de analfabetismo secular e da falta de amor e, até, de familiaridade com esses objetos esquisitos, apreciados por gente esotérica e tenrinha das cidades e dos estudos, que são os livros. Mas não deixa de ser curioso que quem explore esta distância salazarenta entre os portugueses e os livros seja a esquerda atual, a cada vez que os direitolas ousam escrever mais do que três páginas.

Mas estou a ter maus fígados. De certeza que quando lerem estas linhas a esquerda já se amotinou em frente à casa de Jorge Sampaio. Nem que seja porque Sampaio literariamente descreveu Guterres ‘à rasca’. Assim nem parece que os políticos de esquerda são eruditos desde os vinte e sete dias de idade.

Já o timing da biografia de Sampaio deve ser elogiado. A cair, mais semana menos semana, em cima da provável acusação a Sócrates, sempre nos permite lembrar que foi a sumidade agora biografada que criou tão honesto primeiro-ministro. Mas o que interessa corrupção e falências nacionais? Sampaio estava ‘farto’ de Santana Lopes e o mais importante são as suscetibilidades emocionais dos presidentes menores.

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