Saiu de Moçambique quase à força. Na mala, o pai trouxe o carimbo de “persona non grata”. Chegou a Portugal com 20 anos. Maria da Graça Peres escolheu a nacionalidade portuguesa. Cristina Mendes passou pela Escócia, Irlanda, acabou a viagem em Frankfurt. E Luís Carvalho está a fazer uma espécie de intercâmbio. Deixou o Banco de Portugal para se juntar ao mega projeto europeu de supervisão bancária.

O que têm estas três vidas em comum? Partilham os 40 andares da mesma “casa”, chamada Banco Central Europeu, e falam todos em bom português.

Quando chegaram ao BCE conheciam-se todos pelos nomes. “Na altura, criou-se um grande espírito de equipa. Quando chegava alguém novo, nós conhecíamos. Portugueses, andávamos à volta dos 30, mas agora devemos andar à volta dos 50 ou 60”, afirma ao Observador Cristina Mendes, linguista no Banco Central Europeu há 15 anos. Maria da Graça corrobora. “Cada vez é mais difícil lembrar-me dos nomes de toda a gente, porque já não estou a ir para nova.”

 “Os portugueses e os italianos fazem ‘vaquinhas’ para comprar máquinas para beber um bom café”, revela Maria da Graça Peres.

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A visita de uma comitiva de jornalistas portugueses foi o pretexto para uma conversa após o almoço, em português. Só faltava o café. “O café aqui é muito mau”, diz Maria da Graça Peres. Por isso, conta, “os portugueses e os italianos fazem ‘vaquinhas’ para comprar máquinas para beber um bom café”.

Pelos corredores ouvem-se cumprimentos poliglotas: “Guten morgen”, “buongiorno”, “good morning”, “bom dia”. Reuniões e conversas de trabalho fazem-se normalmente em inglês. Graça Peres trabalha nos serviços jurídicos com Luís Carvalho, o “novato” na família portuguesa da casa do euro. É quadro do Banco de Portugal e está em Frankfurt há um ano. É consultor jurídico e está a ajudar na preparação do Mecanismo Único de Supervisão do BCE.

Quando estão sozinhos, falam português, mas, adverte Maria da Graça Peres, “se estiver alguém de outra nacionalidade fazemos ponto de honra e falamos em inglês, para que todos compreendam”. “O inglês é o nosso latim.”

Além da refeição semanal, uma vez por ano os quadros portugueses BCE reúnem-se num grande almoço.

O inglês é o latim, mas o português a língua mãe. Maria da Graça Peres junta-se todas as quartas-feiras, às 12h30, na cantina para almoçar com os seus compatriotas. A conversa flui em redor de temas diversos, desde saber se “alguém conhece uma mulher a dias de confiança” ou alguém “que instale a televisão por cabo.”

Além da refeição semanal, uma vez por ano os quadros portugueses BCE reúnem-se num grande almoço. Há anos que é num restaurante, outros à beira rio, como um piquenique. “Toda a gente traz qualquer coisa portuguesa. Às vezes uns leitões. Há aqui um sítio que faz. Não é bem a mesma coisa. Bolinhos de bacalhau. Aquelas coisas do costume que as pessoas sabem fazer”, recorda Cristina Mendes.

Nestes encontros anuais costumava ir toda a gente, chefes de divisão, incluindo Vítor Gaspar. “Tive uma série de trabalhos que tive de fazer com ele. Sempre foi uma pessoa acessível”, diz Cristina Mendes.

“Acho que ele [Vítor Gaspar] tem um sentido de humor fantástico”, considera Graça Peres.

“Eu sou suspeita, porque o conheço há muitos anos e sempre nos demos bem”, começa por explicar Graça Peres, sem esconder alguma admiração pelo colega que viria a ser ministro das Finanças. “Acho que ele tem um sentido de humor fantástico. Desde que saiu daqui, já nos encontrámos várias vezes e ele fala sempre que me vê. Ainda se lembra de nós e, se nos vê nos corredores, fala-nos.”

Também sobre o outro Vítor, Constâncio, agora vice-governador do BCE e ex-governador do banco central português, Maria da Graça Peres tem boas referências. “Sei é que ele é tecnicamente muito respeitado. Acho que as pessoas que trabalham com ele gostam. Pessoalmente, ele sempre me falou muito bem”. Já Luís Carvalho, que percorre há pouco mais de um ano os corredores do BCE, ainda não se “cruzou” com Vítor Constâncio.

Quanto aos presidentes do Banco Central Europeu, a opinião feminina junta-se para eleger o primeiro: Wim Duisenberg. “A nível pessoal era uma pessoa muito acessível, engraçado, divertido, muito terra a terra”, afirma Cristina Mendes. A opinião é partilhada por Maria da Graça Peres. “Talvez a nível pessoal, foi o que me marcou mais. Era uma personagem muito característica”.

Jean Claude Trichet, sublinham, era “uma pessoa extremamente formal, mas extremamente educada e prestava sempre atenção”. Mario Draghi, o atual presidente, é conhecido pelo “humor fantástico”. Maria da Graça Peres sorri e diz que o considera “muito charmoso, muito competente, muito diplomático”. “O pessoal adora-o”, remata.

Os portugueses e os espanhóis são os primeiros a chegar às reuniões.

O dia começa cedo na EuroTower. “A maior parte das pessoas entra até as 8h30 e só sai depois das 19h00 ou 20h00. Não saímos à hora do almoço. Passamos um tempão em reuniões uns com os outros”, relata Maria da Graça Peres. E também aqui o mito de que os portugueses são pouco pontuais cai por terra. “Os alemães têm aplicado aqui o quarto de hora académico. Por incrível que pareça, os portugueses e os espanhóis são os primeiros a chegar às reuniões. Somos bem vistos, como trabalhadores”, acrescenta.

Enquanto os dias passam, intensos, no banco que manda nos bancos, têm sempre Portugal no horizonte, no pós-troika. Nem na pior altura da crise, Cristina Mendes teve dúvidas sobre o projeto da moeda única. “Pessoalmente, nunca achei que a área do euro se ia desmoronar. Há demasiadas coisas em jogo para que isso aconteça, há vontade para que as coisas funcionem”. Mas, quando olha para Portugal, a linguista diz que nota que as “pessoas se sentem inseguras em relação às perspetivas de vida”.

“Vivemos, infelizmente, muito à sombra dos ciclos eleitorais, sem perspetivas de longo prazo”, afirma Luís Carvalho.

Maria da Graça Peres é otimista por natureza e olha para o futuro com esperança. Acredita que Portugal vai ficar “na maior”. Acha que “foi uma oportunidade para nós sermos forçados a olhar para a nossa economia com uma perspetiva mais abrangente, fazer reformas todas ao mesmo tempo”. E acrescenta: “Obviamente que os efeitos não se veem logo, mas acho que se vão ver”. Sublinha que “a definição de crise, em chinês, é oportunidade. Talvez tenha sido uma oportunidade.”

Luís Carvalho contrapõe. “Não estou assim tão otimista, tenho algum receio que algumas pessoas, até com responsabilidade, pensem que o pior já passou e que se pode voltar aos pecados de antigamente”. E prossegue: “Vivemos, infelizmente, muito à sombra dos ciclos eleitorais, sem perspetivas de longo prazo.”

A jornalista viajou a convite da Comissão Europeia