Farda camuflada impecável, um colete preto, o cabelo apanhado, um “V” na mão esquerda e uma AK-47 noutra. É assim que aparece numa fotografia a guerrilheira que está nas bocas do mundo. As redes sociais têm feito correr pelo mundo a imagem desta mulher que dizem ter matado mais de 100 elementos do Estado Islâmico. As guerras fazem muitos heróis, vilões e verdadeiros mitos urbanos. Quem é esta mulher que aparece sorridente, triunfante, à frente de uma coluna de homens com pouco aspeto de combatentes? É mistério…

Tratam-na por “Rehana”, mas esse não é o nome verdadeiro. Reza a lenda que matou mais de uma centena de jihadistas na batalha de Kobane, a cidade-fronteira entre Síria e Turquia, o que lhe valeu a alcunha “Anjo de Kobane”. Muitas contas no Twitter já lhe sentenciaram a morte, por relatos que afirmavam que o Estado Islâmico a teria capturado e decapitado em outubro. Na rede percorreram imagens perturbadoras, mas que não chegaram para confirmar a morte de “Rehana”. Depois chegariam os desmentidos para complicar a história, assim como relatos de que teria cometido um atentado suicida.

A BBC conta que a fama desta mulher já lhe valeu o respeito dos Pershmerga, os guerrilheiros curdos. Mas sabe-se pouco mais. A fotografia em questão terá sido tirada numa cerimónia em Kobane para celebrar a chegada de voluntários curdos para os combates contra o EI, a 22 de agosto. Estamos em novembro, por isso a dúvida adensa-se.

“Ela disse-me que estudava Direito em Aleppo, mas que decidira envolver-se [na guerra] depois do pai dela ter sido morto pelo Estado Islâmico”, disse à BBC Carl Drott, um jornalista sueco no terreno. “Tentei encontrá-la depois da cerimónia, mas não consegui, nem mesmo saber o nome dela.”

Toda esta história, verídica ou não, surgiu depois de um tweet publicado por um utilizador indiano, em meados de outubro, que garantiu de seguida mais de cinco mil partilhas. Será propaganda curda? “Ela cativou o mundo com os seus belos olhos e cabelos loiros. Ela tem um número imenso de fãs”, disse Ruwayda Mustafah, uma blogger curda. E continuou: “Ela simboliza o que todos nós queremos ver: homens e mulheres lutando juntos contra as forças bárbaras do Estado Islâmico.”

Estima-se que uma em cada três pessoas a combater o Estado Islâmico em Kobane seja mulher. Este é um dado importante, ainda que esta história seja apenas uma arma de propaganda para inspirar o moral contra o avanço dos jihadistas. Mais de 800 pessoas morreram na cidade síria desde 16 de setembro. Segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, até 27 de outubro, já haviam morrido 481 jihadistas e 313 curdos na batalha de Kobane. As vítimas dos ataques aéreos dos Estados Unidos não foram contabilizadas.