Eram 22 horas. A campainha tocou e do lado de lá havia dois homens fardados de polícia e um terceiro à civil. “Viemos executar um mandado de busca por suspeita de tráfico de diamantes”, justificaram ao empresário do ramo imobiliário. Armas em riste, ele, a filha e a namorada revistados de cima a baixo e um único alvo: os cofres onde guardava milhões de euros em dinheiro, cheques e declarações de dívidas.

“Estranhei que soubessem onde era o cofre e que pusessem o dinheiro ao bolso. Quando saíram, propus acompanhá-los ao Ministério Público, negaram-me. E eu percebi que tinha sido assaltado”, conta o empresário de Cascais ao Observador.

Prefere não identificar-se, mas aquele dia 27 de fevereiro de 2014 deixou marcas. A filha, de 16 anos, anda, desde então, com segurança. Está “traumatizada”. Tiveram também de mudar de casa e só agora, com a detenção de Paulo Pereira Cristóvão, conseguem respirar mais aliviados.

Segundo o queixoso, que apresentou inicialmente queixa à PSP de Cascais, tudo começou quando lhe apresentaram PC, como chama a Paulo Pereira Cristóvão. Um homem “de mão doce”, descreve, para justificar como facilmente travaram amizade. Pereira Cristóvão apresentou-se na altura como negociante de jogadores de futebol. Até lhe deixou um cartão de visita, embora “sem morada da empresa”. “Queria vender-me dois passes de jogadores, mas eu disse-lhe que o meu ramo era o imobiliário”, recorda.

Depois de alguma insistência, o empresário começou a fazer-lhe perguntas. E foi quando percebeu que Pereira Cristóvão “nem sequer tinha o passe dos jogadores, logo não podia vendê-los”. Confrontou-o com isso e pôs fim “à amizade”. Fez o mesmo com o homem que os apresentou. “Descobri que era traficante de droga depois de termos sido amigos. Ele sabia onde estavam os meus cofres”, conta.

No dia do assalto, os suspeitos roubaram cheques e declarações de dívidas num total que excedia os dois milhões de euros. Levaram, ainda, as chaves de três carros, entre eles um Lamborghini e um Aston Martin. Um fio de ouro de 16 mil euros, um telemóvel “com 400 contactos de empresas brasileiras” e dinheiro, que o empresário prefere não quantificar. “Era muito mais do que as dez famílias que foram vítimas todas juntas”, garante. Não conseguiram levar os carros porque a garagem do condomínio estava trancada. Mas deixaram marcas no porteiro: foi espancado.

Às autoridades, o empresário garantiu ter mostrado todos os comprovativos da origem do dinheiro roubado. Mais. Disse logo que na origem do crime estaria Pereira Cristóvão. “Ele já tinha mandado outro grupo de assaltantes, mas depois desistiu. E esse grupo veio contar-me tudo”, explica. Meses depois, quando a PJ deteve dois elementos de uma força policial que participavam em assaltos a residências das zonas de Lisboa e Setúbal, os assaltantes também acabaram por admitir que quem lhes dava ordens era Pereira Cristóvão.

Foram precisos alguns meses para reunir prova até deter o ex-inspetor da PJ e ex-vice-presidente do Sporting. Aconteceu esta terça-feira.