A chanceler alemã Angela Merkel falou à imprensa, poucas horas após a reunião de líderes europeus que terminou na sexta-feira, e afirmou que o governo de Atenas deve orientar a sua política por uma lista de reformas enviadas a 10 de dezembro pelo governo anterior. No máximo, “pode tirar algumas propostas individuais e substituí-las por outras que tenham o mesmo efeito“. Alexis Tsipras apressou-se a dizer que não foi isso que ficou acordado na reunião que ambos tiveram na quinta-feira e defendeu que Angela Merkel está equivocada.

“Esqueçam os compromissos do governo anterior. Não haverá medidas de austeridade. A carta de Hardouvelis não tem qualquer relevância”, afirmou Alexis Tsipras, citado pelo Financial Times, numa alusão à lista de reformas preparada pelo anterior ministro das Finanças, Gikas Hardouvelis. Uma carta que foi enviada a 10 de dezembro aos parceiros do Eurogrupo e que mereceu a troça do partido Syriza durante a campanha eleitoral para as eleições de 25 de janeiro.

O que se passou, então, na reunião entre Tsipras e Merkel (onde estiveram também François Hollande, Jeroen Dijsselbloem, Jean-Claude Juncker e Mario Draghi), uma reunião da qual o grego saiu a dizer aos jornalistas que estava “mais otimista“? “Perguntei [aos outros líderes]: Estão à espera que eu insista nesta avaliação e tente aplicar medidas que Antonis Samaras [o anterior primeiro-ministro] não conseguiu aplicar? A resposta foi não“, relatou o primeiro-ministro grego.

Esta descrição dos acontecimentos não se coaduna com o que Angela Merkel disse após a Cimeira Europeia. A chanceler alemã garantiu que o novo governo grego não irá descartar por completo os compromissos com as reformas que foram feitos pelo governo anterior. Merkel, que está à espera que Tsipras apresente “muito rapidamente” uma lista de reformas para respeitar o prazo de final de abril, admitiu apenas que se possa pegar em “algumas medidas individuais” e se “substitua por outras que tenham o mesmo efeito”.

A divergência de relatos entre Merkel e Tsipras, apenas horas depois de ambos estarem frente-a-frente, não é um bom sinal acerca dos progressos entre as duas partes na obtenção de um acordo que permita que o Eurogrupo desbloqueie o financiamento que promete entregar a Atenas se a Grécia cumprir com as condições do programa. Os cofres de Atenas estão a esvaziar-se perigosamente, algo que, segundo o Financial Times, Alexis Tsipras admitiu perante Merkel, Draghi, Juncker e Hollande.

Alexis Tsipras desloca-se segunda-feira a Berlim para, a convite de Angela Merkel, numa altura em que o governo grego está sob pressão para acelerar as negociações técnicas. “Convidei o primeiro-ministro Alexis Tsipras para vir a Berlim na segunda-feira e estou feliz com a sua visita. Teremos tempo para falar um com o outro e provavelmente até para discutir”. A piada não escapou aos deputados do Bundestag, que reagiram com gargalhadas, acompanhadas de um sorriso discreto de Angela Merkel, um momento captado pelas câmaras.