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Houve um dia, não há muito tempo, que Pep estava a perder a luta contra a própria cabeça. Matutava, pensava, olhava para vídeos, apontamentos e cábulas, mas não era capaz de dizer ‘eureka’ por ter encontrado uma solução. Até que, do nada, uma luz se acendeu e fê-lo sacar do telemóvel e apressar-se a fazer uma chamada: “Leo, sou eu, tenho algo importante, muito importante, a dizer-te. Vem, agora, rápido.” A Pulga estranhou, eram 22h30 e as horas já lhe diziam para estar embrulhado nos lençóis.

Saiu de casa, enfiou-se no carro e, uns minutos depois, estava a bater à porta do gabinete de Guardiola, em Camp Nou. “Leo, amanhã vais começar encostado à ala, como sempre. Mas se te fizer um sinal vais para as costas dos médios centros e mexes-te por essa zona. Quando o Xavi ou o Iniesta te passarem a bola, vais direto à baliza, ao Casillas”, disse-lhe o catalão, discursando como quem tivesse acabado de achar a pólvora. E achou mesmo, já que, dois dias depois, o Barça foi ganhar por 2-6 a casa do Real Madrid com dois golos do argentino. Foi a partir daí que a Messi aprendeu a enganar os outros, a mascarar-se de um ‘9’ para conseguir ser um monstro dos golos (leva 400 marcados no Barça) que estraga o sono a guarda-redes e defesas.

Bayern de Munique — Barcelona

Agora, Pep Guardiola terá que voltar a matutar e inventar uma solução para controlar Lionel Messi — mas como adversário. Porque o sorteio da Liga dos Campeões pregou-lhe uma partida e ditou que, nas meias-finais, tenha de regressar com o Bayern de Munique à casa do Barça. Ele e Thiago Alcântara, o mago hispano-brasileiro cuja contratação, no verão de 2013, fez questão de pedir a quem mandava no clube bávaro. Será a primeira vez que Guardiola defronta uma equipa que já treinou e também que retorna ao clube do qual saiu desgastado e a achar que nada mais podia ensinar aos jogadores.

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Durante dois anos não aprenderam grande coisa, é verdade, até que Luís Enrique, homem da casa, chegou ao clube e arranjou maneira de Suárez, Neymar e Messi coabitarem em paz com os golos (já marcaram 19, 30 e 46 esta época, respetivamente). “Que pouca sorte tem a equipa que calha com o Barça”, disse até o treinador, cheio de confiança na equipa que, finalmente, colocou a funcionar. “Naturalmente que é especial. É o Barcelona, é a minha casa, não tenho que dizer mais nada”, disse Guardiola, o homem que foi apanha-bolas, passou a miúdo formado nas escolas do Barça, chegou a jogador com campeonatos e Champions ganhas e acabou como treinador a vencer 14 das 19 competições em que participou. Guardiola reencontrará quase todos os jogadores que treinou no Barça, e Thiago até vai jogar contra o irmão, Rafinha, que ainda por lá anda.

Real Madrid — Juventus

Se entre Barcelona e Munique há uma ligação das especiais, a que existe entre Madrid e Turim também está carregadinha de simbolismo. Dizia-se que a Juventus era o bombom que as restantes três equipas queriam a apanhar e ele acabou por sair na caixa ao Real Madrid. A equipa italiana, afinal, não chegava tão longe na Liga dos Campeões desde 2002 e só ao terceiro ano a tentar é que conseguiu ser alguém na competição — nos últimos dois anos, a Juve de Antonio Conte caíra nos quartos-de-final e na fase de grupos. Agora, com Maximiliano Allegri, já aparece de peito feito nas “meias”.

E lá no meio está Álvaro Morata, mais um dos meninos que o Real formou e o Santiago Bernabéu não quis, pois por melhor que seja o produto inventado na casa, não há milhões que faltem para contratar alguém que lhe passe à frente. Por isso avançado quis sair, a Juventus ouviu o pedido, o espanhol foi para Itália marcar golos (11, até agora) e dar nas vistas para até começar a jogar pela seleção (quatro jogos e um golo). Tem-lhe corrido bem e agora vai dar provas disso à frente de quem nunca o deixou jogar muito.

Ou seja, a Carlo Michelangelo Ancelotti e à sua sobrancelha esquerda, sempre erguida e a invadir a testa, qual gravidade invertida. O italiano, que vai na segunda época a dar ordens no Real Madrid, reencontrará a Juventus que treinou durante três temporadas (entre 1998 e 2001) e na qual aterrou logo a seguir à equipa perder uma final da Liga dos Campeões (golo de Predrag Mijatovic, lembra-se?) contra, lá está, os merengues. Essa foi a sétima Champions que foi parar ao armário do Real e Ancelotti, em 2014, encarregou-se de lá colocar a décima — quando guiou Cristiano Ronaldo, Fábio Coentrão e Pepe até à final de Lisboa, na qual venceram o Atlético de Madrid.

Esta temporada Ancelotti já não tem ao lado, no banco de suplentes, Zinedine Zidane, francês que foi treinar a equipa B do Real Madrid. Se tivesse, seria outro a provar o sabor de um reencontro, pois o outrora génio careca com uma bola entre os pés trocou a Juventus pelo Real Madrid em 2001 — por 60 milhões de euros, a então transferência mais cara de sempre –, após cinco anos na Vecchia Signora. E adivinhe quem era o homem do leme na última vez que a Juventus foi eliminada nas meias-finais da Liga dos Campeões? Esse mesmo, Carlo Ancelotti.

A primeira mão das meias-finais realiza-se a 5 de maio, com jogos em Barcelona e Madrid. Os segundos jogos da eliminatória estão marcados para a semana seguinte, a 12 de maio, em Munique e Turim.