O modo como funciona o cérebro durante o sono permanece um mistério para os cientistas. Apesar dos últimos estudos dedicados ao tema, o órgão do pensamento parece manter muitos segredos longe do alcance da Ciência. Mesmo assim, é possível recriar parte do funcionamento cerebral enquanto dormimos.

As fases do sono

Segundo o Instituto das Desordens e Acessos Neurológicos e , o sono obedece a cinco estágios de evolução, sendo o último conhecido como sono REM. O ciclo de sono costuma durar até 110 minutos, sendo que todos têm dinâmicas diferentes, como veremos mais adiante.

Começar a dormir

A primeira fase corresponde a um sono leve, durante o qual podemos ser acordados muito facilmente. No estágio número 1, os olhos movem-se muito lentamente e a atividade muscular abranda. As sensações de sonho que costumamos ter correspondem normalmente à recordação de imagens retidas recentemente. É também nesta altura que temos contrações musculares involuntárias e uma sensação de queda, num fenómeno chamado mioclonia.

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Ondas cerebrais durante a primeira fase do sono. Imagem do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova Iorque.

A segunda fase do sono é também a mais longa: passamos 50% do tempo neste estágio. Enquanto o atravessamos, os olhos param de mexer por completo e as ondas cerebrais – que têm natureza elétrica – desaceleram. Ainda assim, elas interalam-se com ondas mais rápidas chamadas fusos de sono.

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Ondas cerebrais durante a segunda fase do sono. Imagem do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova Iorque.

O sono profundo

A partir da terceira fase entramos no sono profundo, onde é muito mais difícil de despertar. O cérebro é percorrido por ondas delta, extremamente lentas, que se intercalam com ondas mais rápidas. Durante a quarta fase o cérebro apenas é atravessado por ondas lentas e os olhos e músculos não mexem. Quando alguém acorda uma pessoa que esteja a dormir neste estágio pode causar desorientação.

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Ondas cerebrais do terceiro e quarto estágios do sono. Imagem do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova Iorque.

Sono REM

Ao fim de quatro estágios – o que corresponde a cerca de 90 minutos –  entramos no sono REM. Esta fase tem características muito particulares, sendo uma das mais importantes do sono e onde passamos 20% do tempo. A respiração acelera e torna-se irregular e profunda. Nesta altura, os olhos mexem rapidamente, mas os músculos dos membros estão paralisados. O ritmo cardíaco acelera, bem como a pressão arterial, o que causa certas reações imprevistas no corpo humano. É por este motivo que os homens desenvolvem ereções noturnas, por exemplo. Despertar do sono REM envolve que a pessoa se recorde de sonhos pouco lógicos e fantasiosos.

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Ondas cerebrais próprias do sono REM.

Descobrir a matéria dos sonhos

Se o sono se apresenta uma verdadeira zona de sombra na ciência, o fenómeno dos sonhos é um dos maiores mistérios da natureza humana. Os especialistas calculam que, em média, uma pessoa sem distúrbios do sono passe duas horas a sonhar.

Sigmund Freud foi o primeiro homem da ciência contemporânea a debruçar-se sobre esta questão. Para ele, o sonho seria uma “válvula de segurança” para expelir os desejos recalcados e deixados ao abrigo do inconsciente. As teorias freudianas acreditam que os humanos têm desejos reprimidos pelos princípios sociais do presente, mas que representam os nosso instintos mais primitivos.

circa 1935:  Sigmund Freud (1856 - 1939) the neurologist and founder of psychoanalysis.  (Photo by Hans Casparius/Hulton Archive/Getty Images)

Sigmund Freud (1856 – 1939) era neurologista, psicólogo e tornou-se o pai da psicanálise. Foi um dos cientistas que mais se debruçou na questão dos sonhos.

Em 1953 determinou-se que os sonhos costumam ocorrer durante o sono REM. Mas como? Segundo os cientistas, uma parte do cérebro envia sinais até ao tálamo, que os encaminha para o córtex cerebral – responsável pela aprendizagem, pensamento e organização da informação. Estes sinais têm a função de inibir os neurônios da espinal medula, causando paralisia temporária dos músculos.

Alguns cientistas acreditam ainda que os sonhos são uma tentativa do córtex para encontrar significado lógico nos sinais aleatórios que recebemos do exterior durante o sono REM. O córtex cerebral interpreta os dados quando estamos em consciência e pode tentar fazê-lo também enquanto dormimos.

Para quê dormir?

Não é uma perda de tempo: dormir representa uma necessidade essencial do ser humano, sendo tão importante quanto comer para a sobrevivência.

Isso é o que prova uma experiência com ratos. Estes animais, que têm cinco anos de esperança média de vida, apenas duraram cinco semanas quando lhes foi impedido o sono REM. Se perdessem um dos outros estágios do sono, morriam ao fim de apenas três semanas.

Dormir também é importante para manter a temperatura corporal e o sistema imunitário estáveis, assim como para que o sistema nervoso funcione convenientemente. Além disso, dormir ajuda a manter a concentração, a memória e o desempenho físico.

Se dispensarmos o sono durante muito tempo, começamos a sofrer alucinações, mudanças de humor e desvios emocionais graves. O processo de tomada de decisão e a capacidade de construir interações sociais também ficam afetadas, além da própria capacidade de aprendizagem.

Tudo isto acontece porque a falta de horas de sono muda o funcionamento das células nervosas, o que deteriora as conexões entre neurónios e incapacita o lançamento de hormonas do crescimento e de proteínas estruturais.

Qual é o tempo ideal de sono?

As horas de sono de que necessitamos dependem de vários fatores. Em média, as crianças devem dormir 16 horas e os adolescentes nove. Os adultos podem dormir apenas sete a oito horas, mas isso depende da qualidade do tempo que passam a dormir.

As grávidas devem dormir mais horas do que o normal, principalmente durante o primeiro trimestre de gravidez.

À medida que a idade avança podemos passar menos tempo a dormir.