As roças abandonadas e reutilizadas por muitas famílias em São Tomé e Príncipe escondem ciclos de pobreza que se repetem de geração em geração. Longe dos centros urbanos, sem opção de emprego, refugiam-se na miséria e nas estratégias quotidianas de aliviar a fome.

Domingas Fernandes, 48 anos, e os dois filhos adolescentes enfrentam a fome todas as semanas.

“Às vezes passam dois a quatro dias sem fazer jantar em minha casa. No dia em que não se tem nada, passo fome sim”, conta, enquanto prepara um esparguete para o almoço. Massa com caldo de couve e alho, “já dá para salvar a barriga até à hora de jantar, depois logo se vê”.

Ainda há as argolas doces para ela e os filhos, quando regressarem da escola, venderem. Se não entrar dinheiro, “pedimos [comida] ao vizinho, que eu quando tenho também não escondo”.

A vida faz-se de porta aberta no bairro da Roça de São Domingos, na rampa para o antigo hospital, um bairro que foi crescendo ao gosto dos proprietários, antigos trabalhadores que ficaram com habitações e lotes de terreno – fraco consolo para quem viu a maior empresa agrícola de São Tomé e Príncipe fechar, até ficar com as infraestruturas no abandono, a cair aos bocados.

“Do meu lote de terra ainda tiro cacau e banana”, diz Domingas.

Vende nos mercados da capital, São Tomé, e também trabalha durante alguns dias da semana na cantina da polícia, onde é cozinheira há 10 anos.

A tudo isto ainda junta trabalhos domésticos, mas o dinheiro não chega para ela, para os dois filhos que com ela moram e para ajudar outras duas filhas, que vivem no edifício do antigo hospital da roça – o pai “aparece de vez em quando, mas não ajuda”, queixa-se.

Domingas Fernandes nasceu na ilha do Príncipe e deslocou-se com os pais para a Roça Agostinho Neto quando ainda era Roça do Rio do Ouro, empreendimento agrícola da era colonial portuguesa, para onde os progenitores foram trabalhar.

Ela própria começou a ajudar nos trabalhos de campo aos 10 anos: “partia cacau, fazia capinação, ajudava a abrir valas para a água e a colocar adubos” que mantinham os cacaueiros saudáveis.

“O secador [de cacau] foi a última coisa a deixar de funcionar. Ninguém mais cuidou dos cacaueiros. Ficaram velhos e hoje só lá moram ratos”, descreve – em muitos lotes, as árvores de cacau foram trocadas por milho.

Marlinda Vaz, 23 anos, uma das filhas de Domingas, escolhe os dias para levar para a capital o milho que apanha no campo e só descansa quando já despachou tudo.

“Vendo milho no mercado. É um dia a pisá-lo e outro a andar pela cidade para ter dinheiro para alimentar as minhas crianças”, duas meninas de seis e um ano.

“Podia ser mulher-a-dias, mas só o dinheiro em transportes para a cidade levava o salário” e outros empregos não há. Essa é a sua principal razão de queixa quando se lhe pergunta se a Independência valeu a pena.

Vive num sítio “tranquilo”, porque “não há guerra”, mas lança um olhar perdido no horizonte quando diz que não tem “futuro para dar para às filhas”.

“Nem dá para eu sentir que estou a viver bem”, acrescenta.

Mas não há outro plano: “os meus pais vieram, fizeram-me aqui e eu sempre vivi cá, nunca pensei em deslocar-me para nenhum lugar”.

O futuro fica-se pelo muro da antiga roça, dentro do qual Domingas Fernandes viveu os dias da Independência, tinha então oito anos, mas de que pouco se lembra.

“Lembro-me de uma altura em que vieram trocar a moeda. Mas não me lembro de mais nada”, remata, com pouca vontade em falar do assunto, concluindo que para aquilo que lhe interessa, hoje, “a vida não está fácil”.

“A fome aperta e o que é a gente vai fazer?” – diz.