O país moldado pelo primeiro governo de coligação PSD/CDS a chegar ao fim da legislatura – e pela troika – é esta quarta-feira sujeito a escrutínio no debate do Estado da Nação, o último antes das próximas eleições legislativas. E que país é esse? O Observador ouviu especialistas sobre oito áreas centrais, que pode consultar clicando nas imagens.

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O debate do Estado da Nação vai também ser contaminado pelo que está a acontecer na Grécia. O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmou ontem que pretende levar ao debate uma mensagem de confiança na zona euro e na economia portuguesa, numa altura de incerteza.

“Pode ser que amanhã [quarta-feira] possamos falar da confiança que hoje temos quando olhamos para a zona euro, da confiança que temos quando olhamos para o nosso país, que é como quem diz, quando olhamos para as nossas empresas, para as nossas instituições, para a nossa economia, para os portugueses. E é com essa confiança que nós vamos construir o futuro todos os dias”, defendeu Passos, que leva ao debate o trunfo do fim do Programa de Assistência Económica e Financeira e a reanimação da economia. Antecipando-se a este debate e a algumas críticas da oposição, esta terça-feira elegeu o combate às desigualdades como o próximo objetivo da maioria que quer ser reeleita em outubro.

Contaminação da Grécia

Debater a Grécia é “incontornável”, reconhece Governo e PS. “Se hoje não estamos na iminência de um contágio é porque não seguimos as alternativas aqui apresentadas pela oposição”, tem dito Passos sobre a Grécia para atacar o PS. Costa chegou mesmo a dizer que a situação da Grécia não pode “diminuir” ou “distrair” as atenções dos problemas existentes no país, porque “aquilo que acontece em Portugal, que atinge os portugueses e as empresas portuguesas, não resulta do que se passa na Grécia mas da atuação do Governo”.

“O debate deve ser sobre o estado da nossa Nação e não sobre o estado da Grécia”, diz ao Observador Eduardo Ferro Rodrigues, líder parlamentar socialista. “Há mais para lá da Grécia e nós pretendemos discutir o estado da Nação e falar do país”, secunda o deputado João Galamba. Mas falar na Grécia é inevitável. “A crise na Grécia, e na Europa, é uma crise gravíssima, e o debate grego é um debate europeu, logo também é nosso”, reconhece José António Vieira da Silva, que não vê qualquer problema em que o tema entre para o debate português desde que seja para se fazer um “debate sério e profundo sobre os problemas da Europa”. “Estranho seria se a Grécia não fosse abordada no debate”, resume o socialista Pedro Delgado Alves.

Do lado da bancada do PSD, mensagem idêntica. “O primeiro-ministro pode puxar o assunto, porque o que se está a passar na Grécia faz parte do Estado da Nação, faz parte da política externa portuguesa, e vamos estar no rescaldo do referendo grego por isso é um tema incontornável”, assume o vice-presidente António Rodrigues.

Sete pecados capitais

O PS vai levar ao debate em plenário aquilo que considera ser os “sete pecados capitais destes quatro anos de governação da direita”: mentira eleitoral sobre cortes nos salários e pensões; desemprego, precariedade e emigração; asfixia da classe média; aumento da pobreza e das desigualdades; abandono da prioridade ao conhecimento, com desinvestimento na Educação, na Ciência e na Cultura; ataque aos serviços públicos – na Saúde e na Justiça – e incompetência na gestão; corte no investimento público e privado em mais de 25%.

O secretário-geral do PS, por não ser deputado, não pode estar presente no debate e tem nos últimos dias feito uma volta pelo país para alertar para as áreas onde o país ficou pior para cumprir com as metas impostas pela troika. São vários os números que o PS esgrime: aumento de impostos em 4,5 mil milhões de euros por ano; dívida pública passou de 195,6 mil milhões para 225,7; 150 mil famílias com incumprimentos no crédito à habitação; 710 mil desempregados; o investimento caiu de 35,2 mil milhões para 26,4 mil milhões.

Os socialistas estão a recuperar também as promessas não cumpridas de Passos Coelho, a que chama os “mintos” – uma soma dos mitos (que o próprio primeiro-ministro diz existirem sobre si) com mentiras – e que já motivou queixas do PSD de que o PS de está a conduzir uma campanha de desinformação que só revela “desespero” e “desrespeito” pelos portugueses. Trata-se de declarações de Passos, umas antes de ser primeiro-ministro, a dizer que “não será necessário cortar salários”, “aumentar mais os impostos” ou “os ricos que paguem a crise”.