Yanis Varoufakis partilhou na semana passada numa conversa com investidores internacionais que desde dezembro, um mês antes das eleições, Alexis Tsipras o autorizou a planear um sistema paralelo de transações bancárias que funcionaria em euros mas que tivesse a capacidade de ser convertido em dracmas “da noite para o dia”. Varoufakis chegou a ter uma equipa de cinco peritos, liderada por um amigo de infância, a fazer hacking no sistema do Ministério das Finanças, escrutinado pela troika.

O Syriza ascendeu ao governo em finais de janeiro com as promessas de acabar com a austeridade e renegociar a dívida continuando um membro de pleno direito da zona euro. Mas, segundo uma bomba publicada este domingo pelo jornal grego eKathimerini, o ex-ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, já tinha sido autorizado por Tsipras a preparar um “Plano B”.

A revelação por Varoufakis deu-se no dia 16 de julho, quase duas semanas depois do pedido de demissão, numa conversa em teleconferência com representantes de hedge funds (fundos de cobertura de risco, que fazem essencialmente investimentos rápidos e especulativos). A teleconferência terá sido organizada por um antigo ministro das Finanças do Reino Unido, Norman Lamont.

Varoufakis sabia que estava a ser gravado. A gravação chegou, agora, às mãos do eKathimerini.

FRANKFURT AM MAIN, GERMANY - FEBRUARY 04:  Greek Finance Minister Yanis Varoufakis speaks to journalists after a meeting with the President of the European Central Bank Mario Draghi, on February 4, 2015 in Frankfurt am Main, Germany. Varoufakis has travelled to Germany to re-negotiate the terms of Greece's debt. The finance minister has described the meeting with the European Central Bank as 'fruitful' as he prepares to meet with German Finance Minister Wolfgang Schäuble tomorrow.    (Photo by Hannelore Foerster/Getty Images)

Revelações de Varoufakis foram feitas em teleconferência com investidores, a 16 de julho. (Hannelore Foerster/Getty Images)

O plano

Varoufakis trabalhou com uma pequena equipa de cinco pessoas, liderada por um amigo de infância. A ter avançado, contudo, o plano precisaria do envolvimento de algo como mil pessoas.

O plano, explicou Varoufakis, passaria por fazer hacking (intrusão de sistemas informáticos) das informações fiscais dos contribuintes e das empresas, informações essas constantes dos servidores centrais do Fisco.

Com essas informações, a equipa iria modelar um sistema paralelo que poderia ser ativado caso os bancos fossem obrigados a fechar. Os pagamentos poderiam, graças a essa plataforma paralela, continuar a ser feitos entre o Estado e agentes económicos, desde empresas a salários ou pensões da Função Pública. Daí à criação de uma moeda paralela seria um passo.

Seria necessário uma intrusão tecnicamente sofisticada – razão por que Varoufakis aproveitou a confiança desse amigo de infância, professor da Universidade da Columbia – porque apesar de o Ministério das Finanças ter acesso a estes dados, o sistema é constantemente monitorizado pela troika. Além disso, disse Varoufakis, “o secretário-geral do Fisco é nomeado, na realidade, por um processo que é controlado pela troika”.

Segundo o eKathimerini, uma semana depois de Varoufakis se tornar ministro das Finanças, o amigo telefonou-lhe a dizer que “tinha assumido o controlo do hardware” mas que “software pertence à troika“. Porque o sistema pertencia à troika, Varoufakis disse, a sós, ao amigo para avançar para o hacking para copiar os dados sem que a troika se apercebesse.

“Autorizei-o [o amigo] – e não podem dizer isto a ninguém, é totalmente entre nós”, afirmou Varoufakis na teleconferência, altura em que é interrompido por Norman Lamont, que diz: “Há certamente outras pessoas a ouvir mas elas não dirão aos seus amigos”. Varoufakis ri e diz que “mesmo que elas o façam eu desmentirei que disse isto”.

Greek finance minister Varoufakis in Germany

Julgo que tínhamos mandato para sair do euro”

Numa das passagens transcritas pelo eKathimerini, Varoufakis diz, a respeito de o governo ter ou não mandato para tirar o país do euro:

“Tenho de admitir que não tínhamos um mandato para tirar a Grécia do euro. Tínhamos um mandato para negociar com o Eurogrupo e o BCE um acordo que permitisse que a Grécia conseguisse permanecer na zona euro, de forma sustentável. Mas o mandato ia um pouco mais longe, na minha opinião. Julgo que o povo grego nos deu um mandato para tentar, de forma energética e vigorosa, negociar até ao ponto de poder dizer que se não houver um acordo viável, então deveríamos admitir a saída da zona euro“.

Na gravação, Varoufakis acusou, também, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, de estar empenhado em fazer sair a Grécia da zona euro. Porquê? “Ele acredita que para que a união política funcione sem uma federação, sem a legitimidade de um parlamento federal, tudo isto terá de ser feito de forma muito disciplinar”.

“E [Schäuble] disse-me, explicitamente, que a Grexit iria dar-lhe força negocial suficiente, terror suficiente para impor aos franceses aquilo que Paris tem resistido – isto é, alguma transferência de poderes de Paris para Bruxelas”, afirmou Varoufakis.