Já para o fim da conferência de imprensa, quando quase já não havia perguntas para responder, Jorge Jesus referiu-se ao Sporting como um “clube de prestígio” que tinha perdido o hábito de ganhar títulos nos últimos anos. Depois, houve um breve silêncio seguido de um estalido com a boca. Esse estalido, típico de alguém que sabe o que está a dizer, talvez seja o melhor espelho do estado de espírito do treinador leonino nesta altura, a pouco mais de um dia da final da Supertaça, a jogar com o Benfica.

Jorge Jesus aparenta calma em todas as atitudes. Quase sempre de sobrolho franzido, a ouvir as perguntas que lhe vão fazendo os muitos jornalistas, o técnico pouco gesticula e dá as respostas adequadas à ocasião. Só quando ouve a terceira ou quarta questão sobre o rival da Segunda Circular, que trocou por Alvalade no fim da época, é que os gestos se expandem um pouco mais. Tira os cotovelos de cima da mesa, desencosta-se, atira-se para trás na cadeira e encolhe os ombros. “Você devia estar era a fazer perguntas sobre o Sporting, só querem saber do Benfica… mas pronto, vamos lá para o Benfica!” Pouco depois, os jornalistas voltam à carga e Jesus também:

“Deviam estar era a fazer essas perguntas ao Rui Vitória, eu já não sou treinador do Benfica!”

Como é que o Benfica podia não ser tema, se o homem que está no Estádio do Algarve agora de fato de treino branco com apontamentos verdes é o mesmo homem que treinou os encarnados nas últimas seis temporadas? Mais: é este o homem que disse há dias que não via ideias novas nem rasgo no Benfica desta pré-época. Terá sido deselegante para Rui Vitória, que lhe tomou o lugar na Luz? “Volto a referir hoje se me fizerem a mesma pergunta”, diz enquanto coça a sobrancelha direita. “Tudo aquilo que eu falei é uma verdade absoluta”. Mais à frente, volta ao assunto:

“Não fujo àquilo que disse. Os jogos que eu vi do Benfica, vi o Benfica com o mesmo sistema, mesma ideia de jogo, tudo o que é estratégia, bola parada, exatamente tudo igual. Só tenho de dar os parabéns ao treinador que é inteligente e manteve uma equipa que ganhou tudo. O que é que isto tem de deselegante?”

O treinador do Sporting Clube de Portugal, Jorge Jesus, durante o passeio de adaptação ao relvado do Estádio Algarve onde será diputada a 9 de agosto a Supertaça Cândido de Oliveira frente ao Sport Lisboa e Benfica, 08 de agosto de 2015, em Faro. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Mãos nos bolsos, ar de quem não se deixa perturbar por nada. Eis Jorge Jesus na véspera do primeiro clássico de leão ao peito. Foto: José Sena Goulão/Lusa

Isto é Jorge Jesus este sábado em véspera de clássico no Algarve. Minutos antes das perguntas dos jornalistas, fora o primeiro a entrar no relvado para as fotografias e filmagens da praxe. Saiu praticamente sozinho das entranhas do estádio, com as mãos nos bolsos, logo seguido pelos jogadores, equipa técnica, Bruno de Carvalho e Octávio Machado. Durante um pouco fica sozinho no círculo central do relvado, com as mãos ora nos bolsos ora atrás das costas, como que apenas a avaliar o que tem em volta. Faz um gesto breve e os jogadores aproximam-se para ouvir uma palestra com pouco mais de dois minutos. Coça a cabeça, esfrega as mãos, acena para um lado e para o outro, está acabado o falatório, pode ir cada um à sua vida.

Começa a ir embora, mas antes aborda dois novatos, Bryan Ruiz e Aquilani, este último mesmo acabadinho de chegar, quase ainda sem conhecer Alvalade e já o puseram a conhecer o Algarve. Jesus conversa com os dois, ri-se e vai para o banco falar com Octávio Machado e depois ao telemóvel. Parece um homem descontraído. Pudera, sublinha depois na conferência, finais são a praia dele. “Felizmente nos últimos anos estou habituado a estar em muitas finais, só não estive numa Champions e num Campeonato do Mundo”, afirma, pouco depois de dar uma pequena risada disfarçada de tosse.

“Os jogadores do Benfica ganharam sete – só sete – dos últimos oito troféus”, afirma sem se preocupar em esconder o orgulho, acentuado por um desfranzir de sobrolho seguido de sorriso largo.

Por mais do que um motivo, o jogo deste domingo é a final da Supertaça mais mediática e aguardada dos últimos anos. Isso, pelos vistos, não incomoda Jorge Jesus, o homem que já esteve dos dois lados da barricada e sai tão descontraidamente da sala de imprensa como entrou. De mãos nos bolsos, sorriso matreiro na boca. “Antevisão?”, ri-se. “Vamos ver quem é o melhor”.