Os estágios das agências da ONU (Organização das Nações Unidas) não são remunerados, obrigando alguns jovens a montar tenda e a acampar para os conseguir realizar. David Hyde, um neozelandês de 22 anos, é um dos casos polémicos mais recentes.

Após ser selecionado pela ONU e voar cerca de 18.000 km para trabalhar na organização humanitária em Genebra, David percebeu que não ia conseguir pagar os elevados custos de alojamento de uma das cidades mais caras do mundo. Sem apoio da organização, mas motivado a continuar o estágio, o jovem apressou-se a comprar uma tenda para viver durante seis meses. Enquanto os seus colegas ocupavam as pausas no Clube de Praia da ONU, um centro de atividades privado para funcionários das organizações internacionais, David viu-se obrigado a observar de longe e a suportar dias de chuva intensa e trovoada na sua habitação improvisada. O facto de ter optado por uma tenda barata não ajudou, confessa ao Tribune de Genève: “não escolhi a tenda mais impermeável da loja”.

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Apesar das dificuldades, David completou duas semanas do estágio. As noites foram difíceis, mas o jovem não queria desistir da oportunidade. Todas as manhãs vestia o fato, desmontava a tenda, apresentava-se nos escritórios da ONU e começava mais um dia de trabalho com a “casa” arrumada debaixo da sua secretária. A situação pareceu melhorar após a sua história ser publicada pelo Tribune de Genève e o jovem recebeu inúmeras ofertas de alojamento.

O neozelandês parecia ser um exemplo de que “a perseverança é a irmã da boa sorte”, mas o caso atraiu demasiada atenção da comunicação social, sendo impossível continuar na organização. O jovem desistiu do estágio esta quarta-feira revelando ao jornal Swiss Info que “seria impossível continuar concentrado no meu trabalho nesta altura.”

“Ninguém me obrigou a viver numa tenda,” garante David aos repórteres reunidos em frente à sede europeia da ONU. “Quando me candidatei não revelei a minha situação financeira. Consegui o estágio porque disse que me ia conseguir sustentar.”

Em debate: Estágios não remunerados

Quando questionado sobre como é que os seus colegas conseguem sobreviver na cidade, o jovem diz que “em última análise, apenas quem tem pais que podem pagar é que tem alguma hipótese”. O jovem acrescenta que a política da ONU não pagar aos seus estagiários o deixa “furioso”.

O neozelandês não é o primeiro a queixar-se da situação. Durante as celebrações do passado 1º de maio na cidade, vários acusaram a ONU de hipocrisia. A cidade orgulha-se da sua prosperidade e da presença de múltiplas organizações internacionais, mas é inconsistente. Segundo um dos manifestantes, “a ONU promove valores como a não-discriminação, a diversidade e a participação em todo o mundo, mas não as aplica ao seu pessoal.”

O problema com o aumento dos estágios não remunerados tem-se intensificado ao longo dos últimos meses. No começo do ano, um grupo de jovens estagiários em Genebra criou o movimento PYII – Pay Your Interns Initiative (Paga aos Estagiários). Atualmente, a página no Facebook tem cerca de 1000 apoiantes e já realizou várias manifestações em Genebra.

A ONU ainda não emitiu uma declaração oficial sobre o tema.