A falha na resposta à grave crise dos refugiados não é da Europa, mas sim dos vários governos europeus, que têm descalçado a bota impedindo uma solução conjunta e comunitária. Quem o diz é o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, que, em declarações ao jornal alemão Die Welt, é duro na crítica ao “cinismo” desses Estados.

Não disse que Estados são esses, mas as declarações surgem numa altura em que a Hungria (que pertence à zona europeia de livre circulação) está a terminar a construção de uma vedação na fronteira com a Sérvia para travar a entrada de refugiados, sob o argumento de que são uma ameaça à segurança e à identidade do Velho Continente.

“Não estamos a lidar com uma falha da UE, mas sim com falhas gritantes de alguns governos que não querem ter responsabilidade e que, por isso, impediram uma solução europeia”, disse àquele jornal, citado pela agência Reuters.

Segundo o alemão social-democrata, não é a União Europeia, enquanto instituição, que não está a saber dar resposta à crise, mas sim os países que “não querem saber da integração europeia” e que impediram que houvesse um acordo ao nível comunitário para enfrentar a crise dos refugiados. O ACNUR estima que o número de refugiados e migrantes que atravessaram o Mediterrâneo este ano já tenha ultrapassado os 300 mil. A Alemanha, sozinha, espera receber este ano um número recorde de 800 mil pedidos de asilo, e Angela Merkel já fez saber que não deixará ninguém de fora.

O Reino Unido, assim como a Irlanda e a Dinamarca, têm um regime especial no que diz respeito às regras europeias sobre as fronteiras, mas os países que têm sido mais duros perante a entrada de refugiados vindos do Médio Oriente ou África são mesmo os Estados do leste da Europa, que estão mesmo a construir muros para vedar a entrada destas famílias.

A última tentativa, apresentada em junho pelo Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, para chegar a uma solução comum foi chumbada em toda a linha, com os Estados-membros a oporem-se à ideia de haver quotas para acolher os refugiados que entram na Europa pela Grécia e pela Itália. Sem acordo, “o Mediterrâneo tem-se transformado numa autêntica vala comum, com cenas horríveis, e enquanto não há soluções, aqueles que estão a precisar de ajuda, que precisam da nossa proteção, são deixados lá fora”.

“Esta crise dos refugiados mostra o que acontece quando temos menos Europa”, rematou.

Os episódios multiplicam-se diariamente nas notícias, sendo que um dos mais chocantes dos últimos dias foi o caso dos 71 refugiados sírios (onde se incluíam pelo menos quatro crianças), que foram encontrados mortos, por asfixia, num camião à beira da estrada na Áustria. Outro caso foi o das centenas de cadáveres (pelo menos 105, segundo a Reuters) que foram encontrados num barco líbio, que afundou enquanto tentava fazer a travessia.