Tinha apenas quatro dias a trabalhar no duro, de passar manhãs e tardes com um apito pendurado no pescoço, olhos postos nos jogadores, na equipa da qual acabara de tomar conta. Já o conhecia, e bem, de todas as vezes que teve de magicar formas de anular o que ele tem de bom. Mas nunca o vira treinar, sequer. Não importava, já que nem um segundo encravou antes de dizer: “Não tenho dúvidas de que, comigo, vai jogar mais”. Nada de sorriso, dentes à mostra, riso, era conversa séria e Jorge Jesus parecia estar seguro do que dizia. O problema é que só quase três meses depois de mandar esta farpa é que o tal que ia jogar mais se livrou de uma lesão. Foi preciso esperar para descobrir se JJ tinha mesmo razão.

Esperar até o dia em que se abriram as urnas, os portugueses enfiaram lá votos e o país continuou mais virado à direita do que à esquerda. Na primeira vez que houve futebol e eleições ao mesmo tempo houve também William Carvalho a ser titular pelo Sporting, esta época, no campeonato. E Jorge, o treinador, não tinha assim tanta razão, porque William, o trinco, continua igual — farta-se de pedir a bola, é ele que começa a montar tudo, é rápido a passá-la e raramente deixa que alguém a roube. Joga tanto como jogava e se os sprints a correr atrás de adversários ainda não lhe saem é porque quase nunca os precisa de fazer. William faz-tudo de agora é o mesmo William que antes já tudo fazia. A diferença não é dele, é ele que a cria no Sporting.

É muito por ele que os leões jogam acelerados não pelo que correm, mas pela velocidade que dão às jogadas. A dinâmica é das boas, os passes trocam-se rápido e resulta o facto de Jesus fazer de Bryan Ruiz e João Mário os extremos que eles não são. Tanto o costa-riquenho como o português esquecem as laterais e passam a vida a pedir a bola no centro do campo. Isso baralha quem vem de Guimarães e está a defender, porque fica na dúvida entre ir atrás deles ou esperar pelas corridas que Jefferson e Ricardo Esgaio, os laterais, fazem por ali fora, a aproveitarem os metros de relva disponível. Até ao intervalo a história é esta porque o Vitória nunca atina — só faz um remate aos 30’, quando Tomané, sozinho e encostado à linha de fundo, chuta a bola contra as mãos de Rui Patrício.

O que se vê antes e depois é um Sporting a jogar como raramente tem jogado esta época. Rápido, a falhar poucos passes, a encostar o adversário à área, a ter (às vezes) mais de 70% da companhia da bola e a parecer uma faca que corta na manteiga das oportunidades para marcar. À primeira vez que a espete faz logo um golo, aos 12’, quando João Mário cruza a bola para a cabeça de Slimani, na área, entre um central e um lateral, rematar para golo. O 1-0 surge numa jogada começada por William e o 2-0 é provocado quando Santiago Montoya se assusta com a pressão que aí vinha do português. O colombiano que é bom de bola recuou aos 24’ para ajudar quem defendia, apanhou um ressalto e quis tocar a bola, de primeira, para um vimaranense que estivesse de frente para o jogo. O problema é que passou-a para Téo Gutiérrez, o compatriota que estava na área sozinho e apenas se teve de virar, sentar Douglas e marcar o primeiro no campeonato.

Lisboa, 04/10/2015 - O Sporting Clube de Portugal recebeu esta noite o Vitória Sport Clube no Estádio de Alvalade em jogo a contar para a 7º jornada da I Liga 2015/2016. Ricardo Valente, William Carvalho (Filipe Amorim/Global Imagens)

William Carvalho foi titular pela primeira vez no campeonato e o Sporting foi outro. Foto: Filipe Amorim/Global Imagens

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O Vitória era engolido pelo Sporting porque eram raras as vezes em que recuperava a bola e acertava o primeiro passe. Cansava os jogadores a defender e não fazia com que eles atinassem com a maneira como os médios leoninos se mexiam. O intervalo não chegou sem que Adrien, Ruiz e Téo ainda tivessem e não aproveitassem hipóteses para marcarem. E a segunda parte mudou pouca coisa, já que os leões continuaram a andar à boleia de William Carvalho e não abrandaram nem um pouco.

Até parecia que ia mudar, pois Tozé, logo aos 47’, foi driblando até chegar à entrada da área e rematar a bola para Rui Patrício defender. Mas pouco depois viu-se o árbitro a lesionar-se, pedir ajuda aos médicos do Sporting e eles a dizerem-lhe que nada feito. Teve que ser substituído e da primeira vez que Hélder Malheiro, o quarto árbitro tornado principal, apitou, foi para tirar o cartão vermelho no bolso. O alvo foi Bouba Saré, o costa-marfinenses que encostou a sola da chuteira na canela de Gelson Martins. Foi o princípio do fim para o Vitória, que em cinco minutos foi atropelado por um leão que farejou uma presa vulnerável — a cabeça de Slimani fez o 3-0 aos 58’, depois de Jefferson lhe cruzar a bola, e o Adrien Silva marcou o 4-0 aos 60’, com a bola que rematou num livre e foi desviada por um defesa para a baliza. Como apareceu este? Após William engolir Tozé, pressionar, roubar-lhe a bola, isolar Gelson e Bruno Gaspar pará-lo em falta.

O Sporting igualava o resultado que o FC Porto conseguira horas antes. Sabia que ia continuar a estar numa liderança partilhada e, sendo impossível afastar-se nos pontos, quis ser diferente nos golos. Abrandou um pouco o ritmo, começou a passar a bola mais devagar e as aceleradelas passar a estar nas tabelas, passes rápidos e jogadas de toca-e-vai. O Vitória, com a derrota feita e menos um campo, atreveu-se a arriscar e foi conseguindo ter cantos e livres perto da área. Mas antes de fazer algo com eles ainda viu Islam Slimani a conseguir o primeiro hat-trick pelo Sporting, quando esticou o pé direito para desviar mais um cruzamento, este rasteiro, de Jefferson. O 5-0 surgia aos 78′ e quatro minutos volvidos, Josué enfiava-se entre Tobias e o lateral esquerdo leonino para dar o golo do 5-1 aos vimaranenses.

O jogo fechou-se já depois de Douglas se esticar para desviar um remate em jeito de Gelson e Aquilani mostrar que não na cabeça não tem nem metade do acerto que possui no pé direito. Os leões continuaram a arranjar espaço e maneira para rematarem à baliza e o jogo terminou como começou, com o Sporting a dominar e William Carvalho a controlar tudo o que lhe era possível. A barriga do resultado acabou gorda, mas, sobretudo, foi isto que se viu — um Sporting a fazer o que queria da bola e dos espaços no relvado por ter William em campo e a fazer mais e melhor com Ruiz e João Mário a fingirem-se de extremos. JJ garantiu que o William Carvalho ia jogar “muito mais” com ele a dar-lhe ordens. Por enquanto, é o médio que faz o Sporting jogar bem mais do que jogara até agora.