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É nas camas por fazer que pais-guardiões-de-lares encontram a cara do monstro com que lutam todos os dias. E a verdadeira inutilidade que é fazer a cama está outra vez ameaça. No Instagram, as fotografias de casas desmazeladas prosperam: mantas abertas pelos sofás, almofadas desorientadas no chão, camas abertas de lençóis enrugados. A Vogue chamou a isto the messy home trend (a tendência da casa desorganizada) e tentou explicá-la.

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Assim que Beyoncé lançou a música Flawless, em 2013, foi a saturação da hashtag #IWokeUpLikeThis a acompanhar fotografias de caras acabadas de acordar — até mesmo Adele já teve a sua dose. Agora a beleza do desmazelo chega ao interior das casas e, tal como com a maquilhagem, não se cria a harmonia do caos atirando simplesmente almofadas ao ar. É uma desarrumação pensada que quer imitar a vivência do dia-a-dia: o espaço parece mais confortável e prático, parece fazer-se acompanhar de uma história.

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Esta história que se constrói na profusão de objetos que espalhamos de uma forma mais ou menos intuitiva pelas nossas casas está a passar para os designers de interiores. Nas páginas pessoais de profissionais como Sibella Court ou Orlando Soria encontram-se fotografias que fazem com que os mais desarrumados se sentiam integrados.

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“Adoro pessoas que são diferentes em vez daquelas que são muito arrumadinhas,” explicou à revista Todd Selby, fotógrafo fundador do site com o mesmo apelido que entra em casa de qualquer um para a fotografar. “Quase nunca mexo em nada nos espaços que fotografo, porque nós queremos ver o que as outras pessoas tocaram, ou que a sua presença transformou alguma coisa naquele espaço.”

Há qualquer conforto nestas imagens: talvez a perspetiva do lazer, do dolce far niente ou, no limite, do usufruto do sono, às vezes tão roubado. Fazem lembrar também a abundância que se vê em algumas naturezas mortas, com fruta a cair de todo o lado, alguma já aberta. “A beleza de um espaço pode surgir da estranheza, que geralmente surge de algo que não é intencional”, disseram à Vogue Olivier Marty e Karl Fournier, do ateliê de arquitetura Studio KO, concluindo: “O teórico da paisagem Gilles Clément chama a isto ‘arte involuntária’, e nós adoramos essa ideia.”