Jens Weidmann alerta há vários meses para o risco de que os estímulos do BCE levem a “complacência” por parte dos governos nas reformas estruturais e no equilíbrio das contas públicas. Questionado pelo Observador sobre se vê sinais dessa “complacência” em Portugal, o presidente do banco central alemão disse que “nunca é sensato um líder de um banco central comentar política, muito menos a política de um outro país”. Mas, minutos antes, tinha sublinhado que “os esforços de ajustamento estão a compensar e as políticas têm de ser continuadas” em vários países da zona euro.

As declarações foram proferidas durante uma conferência organizada pelo Banco de Portugal, a Ordem dos Economistas e a Embaixada Alemã. O título da conferência traduz-se por “A visão de um líder de um banco central sobre como melhorar a estabilidade da zona euro“.

Weidmann lembrou os “ajustamentos dolorosos” que tiveram de ser feitos em alguns países, para resolver os problemas acumulados como a “rigidez do mercado laboral” e “défices da conta corrente insustentáveis que mostravam que (alguns) países que viviam acima das suas possibilidades”.

O ajustamento era, portanto, inevitável”, disse Weidmann, assinalando, contudo, que “se países como a Grécia, Irlanda e Portugal não tivessem contado com a solidariedade europeia e internacional, o ajustamento teria sido muito mais abrupto, devido ao encerramento súbito do fluxo de capitais externos”.

Mas Portugal foi um dos países que tomou “medidas de reforma estrutural consideráveis” e, agora, a par de Espanha e Irlanda, a “recuperação em curso comprova que as reformas dão frutos no aumento do potencial de crescimento”. “Estas reformas têm de continuar”, afirmou Weidmann, notando que há alguns sinais na zona euro de menor “entusiasmo quanto às reformas”.

O presidente do Bundesbank voltou a criticar os estímulos monetários que têm sido aplicados pelo BCE, indicando que estes podem “levar alguns ministros das Finanças a terem uma perceção de que não precisam de consolidar as contas públicas rapidamente porque, no final de contas, o banco central estará lá para ajudar”. Além disso, o facto de o BCE comprar dívida pública leva a um “esbatimento entre o que é política monetária e política orçamental”.

Vigilância coletiva”

Uma das lições a retirar da crise é que os países não podem esperar que “um crescimento dos salários sem ganhos de produtividade seja compensado com desvalorização de moeda”.

Outra lição da crise é que necessitamos de “vigilância coletiva”. E é por isso que Weidmann defendeu que as regras orçamentais e o acompanhamento da Comissão Europeia das políticas fiscais não são suficientes e sugeriu a criação de um “conselho independente” que se assegure de que as “assimetrias” na zona euro não resultem em novos episódios de instabilidade.