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Islândia

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14 de junho: Portugal-Islândia (Saint Étienne), às 20h

Por vezes chama-se de heróis às pessoas que logram façanhas, alcançam coisas grandiosas e descortinam milagres quando ninguém esperava que os conseguissem. Como chegar a um país-ilha com 323 mil habitantes, dos quais pouco mais de 21 mil jogam à bola, e levá-lo a um Campeonato da Europa de futebol. O pior é que Lars Lagerbäck não gosta que lhe chamem isso: “Não diria que sou um herói. Pessoas como o Martin Luther King e o Nélson Mandela é que são heróis”. Mas cada um será à sua maneira. Afinal, não é todos os dias que chega ao Europeu um país que, há cinco anos, olhava para cima a ver onde estava o Liechtenstein no ranking da FIFA.

Como as coisas mudam, não é? (que significa “sim”, em islandês), porque de 2010 para cá o país fartou-se de ir dando pulos até ao salto que deu a 6 de setembro, quando garantiu a qualificação para o Europeu de 2016. É a primeira vez que a Islândia consegue chegar a uma competição de seleções e Portugal será um dos padrinhos da estreia, no Grupo F. A isto pode chamar-se o fruto que Lars Lagerbäck acreditou que, mais cedo do que tarde, ia colher. Quando passou a tomar conta da seleção islandesa, o treinador que antes levara a Suécia a dois Mundiais (2002 e 2006) e um par de Europeus (2004 e 2008) viu que estavam para crescer vários miúdos. E quando eles se tornaram graúdos, o futebol da Islândia começou a parecer uma bola de neve que ganha tamanho à medida que vai rolando.

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Enquanto Eidur Gudjohnsen, o avançado loirinho cujo nome mais gente conhece, ia jogando cada vez menos, vários rebentos iam brotando na seleção. Por isso é que hoje a Islândia deixa o homem que já andou no Chelsea e no Barça, no banco, para deixar jogar Gylfi Sigurdsson (Swansea City), Birkir Bjarnason (Basileia), Kolbeinn Sigþórsson (Ajax) e outros jovens com nome a acabar na mesma sílaba. E têm jogado bem. “Temos jogadores muito, muito bons. Tem tudo a ver com o grupo de pessoas que trabalharam incrivelmente no duro”, resumiu Lagerbäck, no dia em que a Islândia assegurou a qualificação para o Europeu. Conseguiu-o com esses tais jogadores, que lhe chegaram para vencer os dois jogos (2-0 em casa, 1-0 fora) contra a Holanda.

Têm nomes esquisitos, caras não muito conhecidas — apesar de por lá andar Helgi Daníelsson, que entre 2013 e 2015 jogou no Belenenses –, e vêm de um país que poucas campainhas fará soar até nas cabeças de quem está atento ao futebol. Mas a Islândia tem uma seleção das que parecem correr sempre o dobro dos adversários, mais que organizada a defender e que, sobretudo, sabe como premir o gatilho das poucas, mas eficazes, armas que tem para disparar (ataques rápidos e contra-ataques). Foi assim que fez 20 pontos na qualificação e só ficou atrás da República Checa no grupo. Não será Lagerbäck mesmo um herói? .

Áustria

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18 de junho: Portugal-Áustria (em Paris), às 20h

É um miúdo, nem parece austríaco por ser filho de mãe filipina e pai nigeriano, e mesmo não tendo medo de quem tem corpanzil para assustar muita gente, disse que o árbitro teve. “Para mim era um cartão vermelho. O árbitro não o expulsou por ter medo dele”, desabafava David Alaba, em outubro de 2014, quando sentiu na cara o cotovelo de Zlatan Ibrahimovic quando a Áustria e a Suécia se encontraram, em Viena, no início da fase de qualificação. O sueco, com a língua deserta de papas (como sempre), teve que responder: “Ele veio contra mim duas vezes e à terceira, como tem 1.50 ou 1.60m, claro que veio contra o meu cotovelo”. E esta história conta-se para mostrar como as coisas mudam.

Porque se há pouco mais de um ano era o árbitro que podia ter medo de Zlatan, agora são todas as outras seleções europeias que poderão olhar a Áustria com outros olhos. Pode parecer disparate, mas basta olhar para como foi a qualificação: dez jogos, nove vitórias e um empate. E uma seleção que não perde só pode estar a fazer as coisas bem e muitas delas começam e acabam em David Alaba. O miúdo que é lateral esquerdo no Bayern de Munique serve de médio na seleção austríaca e manda, através dos passes, numa equipa que, à frente, lhe dá Marko Arnautovic e Martin Harnik, avançados bons de pés (três golos cada durante o apuramento). No meio campo também costuma andar Zlatko Junuzović, que marca livres e mete cuecas que se farta.

Esta é apenas a segunda vez que a Áustria chega a um Europeu, depois de ter organizado o de 2008 com a Suíça. A história não faz com que metam medo a vivalma, mas esta poderá ser a seleção que mais problemas causará a Portugal durante a fase de grupos.

Hungria

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22 de junho: Hungria-Portugal (em Lyon), às 17h

Se para o meio de uma conversa sobre bola é atirada a Hungria, o primeiro nome a vir à baila só pode ser o de Ferenc Puskás. O avançado a quem chamavam Major Galopante marcou 84 golos em 85 jogos pela seleção, andou a conquistar Ligas dos Campeões pelo Real Madrid e levou a Hungria ao segundo lugar do Mundial de 1954. Este senhor deixou de jogar pelo país dois anos depois e, coincidência ou não, os húngaros já não chegavam a um Europeu desde 1972. E agora calharam no mesmo grupo de Portugal.

Hoje não há estrelas nem canhotos a terem tantos golos marcados quanto jogos jogados. Mas continuam a ser alguém que chuta melhor com o pé esquerdo do que com o direito a ser o melhor da seleção. Balázs Dzsudzsák é o capitão e tem lugar cativo ao lado de qualquer bola que pare em campo, seja em livres ou cantos. O extremo do Bursaspor lidera uma equipa sem estrelas e em que o outro nome conhecido já tem 35 anos: Zoltan Gera, médio que anda pelo Ferencváros.

Também não pode abonar muito a favor da Hungria o facto de muito se esperar de Laszlo Kleinheisler, um miúdo de 21 anos que, mesmo a jogar na terceira divisão húngara (equipa B do Videoton), é convocado para a seleção. Ou que o selecionador que guiou a equipa até ao Europeu ainda seja, em teoria, um treinador interino — foi dito ao alemão Bernd Storck, então diretor técnico da federação húngara, que seria uma solução provisória quando, em julho, substituiu Pal Dardai no cargo. O que esperar dos húngaros é uma incógnita.