Nos últimos cinco anos, registaram-se 2.863 episódios de internamento de pacientes com rutura de aneurisma nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) — o mesmo problema do jovem David Duarte, que acabou por morrer no Hospital de São José, no dia 14 de dezembro. Desses, perto de metade (1.288) chegaram às urgências ao fim de semana, de acordo com a informação enviada ao Observador pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS).

Só em 2015, ocorreram 406 episódios de internamento por rutura de aneurisma, 185 dos quais ao fim de semana. Em 2014 os números foram ligeiramente superiores: 561 doentes, dos quais 244 ao fim de semana. Estes números são globais, não sendo possível saber exatamente como estão distribuídos pelo País. Contudo, o Observador já tinha revelado que só o Hospital de São José tratou, em 2014, 160 doentes com aneurisma roto: 28% do total (561) referido pela ACSS.

Estes dados permitem perceber que uma grande fatia dos episódios de rutura de aneurisma ocorrem ao fim de semana, o que mostra a importância de ter equipas especializadas disponíveis nos hospitais nesse período.

Recentemente, a morte de David Duarte fez disparar o alarme. Em Coimbra e no Porto o serviço tem estado assegurado com equipas em presença física ou de prevenção, já em Lisboa os hospitais ficaram sem equipas de neurocirurgia vascular e neuroradiologia de prevenção ao fim de semana há dois anos ou mais, fruto dos cortes para metade no pagamento de horas extra.

Por este motivo, o jovem de 29 anos não teve equipa para o tratar quando deu entrada, na sexta feira, dia 11, ao final do dia, no Hospital de São José, vindo de Santarém, acabando por falecer na madrugada de domingo para segunda-feira, dia 14 de dezembro.

Certo é que depois da notícia desta morte já se encontrou uma solução. Para janeiro o serviço está assegurado todos os fins de semana, de forma alternada, em quatro hospitais (São José, Santa Maria, Egas Moniz e Garcia de Orta). E a partir de 1 de fevereiro entrará em vigor a solução definitiva. Resta saber como se vão organizar os hospitais e as equipas e como vão funcionar os pagamentos a estes profissionais, que deixaram de fazer prevenção aos fins de semana por causa dos cortes impostos pela crise.

Desta forma se volta a garantir a resposta a este tipo de problemas de saúde com recurso a equipas especializadas, destacadas para o efeito. Até aqui, quanto muito alguns hospitais da capital tentavam contornar a falha. Por exemplo, no Egas Moniz, embora a Neurorradiologia de intervenção não estivesse disponível ao fim de semana, a equipa médica de neurocirurgia vascular ia-se organizando sempre que um dos elementos da equipa estava “de banco” (urgência). Quando, por acaso, esse elemento não tinha treino em cirurgia vascular, muitas vezes, em regime de voluntariado e sem auferir qualquer remuneração, alguém da equipa vascular se mobilizava para realizar o tratamento do doente, garantiu ao Observador fonte hospitalar, acrescentando que a restante equipa era constituída pelo anestesista e enfermeiros escalados para a urgência do Bloco Central.

A mesma fonte sublinha porém a importância de existir uma escala de prevenção para as equipas cirúrgicas e de neuroradiologia de intervenção. Só desta forma se garante que “a todo o momento está disponível uma equipa completa para, com os melhores meios técnicos e humanos, proceder ao tratamento do doente”.