O sexto debate republicano de quinta-feira à noite ficou marcado por ataques pessoais entre Donald Trump e Ted Cruz, as duas figuras na frente da corrida à candidatura à Casa Branca. O empresário milionário e o senador do Texas lideram as sondagens e, atrelados a uma retórica mais dura, procuram cativar os mais conservadores. As primárias que vão definir o candidato republicano arrancam daqui a três semanas.

Neil Cavuto, um dos moderadores do debate transmitido na Fox Business, convidou Ted Cruz a comentar o facto de a constituição daquele país apenas permitir que “naturais” possam chegar à presidência, tendo ele nascido no Canadá, algo que Trump mencionara anteriormente. “Bom, Neil, fico contente por nos focarmos nos assuntos importantes da noite”, respondeu, arrancando uma gargalhada e os aplausos ruidosos da audiência. E continuou: “Em setembro, o meu amigo Donald disse que os advogados dele estudaram esta questão de todas as maneiras e não havia assunto [Donald Trump sorria]. Desde setembro, a Constituição não mudou, o que mudou foi os números das sondagens”, explicou. A política norte-americana é, de facto, outro campeonato, com gargalhadas e aplausos, entertainment de alto gabarito, tal e qual como um show de John Stewart.

Ted Cruz, para se defender de tal acusação, puxou a fita atrás e lembrou que John McCain, rival de Obama em 2008, nasceu no Panamá, assim como Michigan George Romney, que nasceu no México e se candidatou em 1968. “Eu não quero saber! Acho que vou ganhar de forma justa e digna, não tenho de ganhar desta forma”, respondeu Trump. Quando confrontado porque tem feito recentemente algumas acusações, Trump foi taxativo: “Porque ele agora está melhor. Antes não queria saber, nunca teve hipóteses. Agora tem 4, 5% de hipóteses de ganhar…”, disse, com um sorriso gingão.

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O El País esboça uma explicação para este choque frontal que se observou na noite de quinta-feira. Enquanto, no passado recente, Trump até via em Cruz alguém com a mesma linha de pensamento (mas porventura inofensivo), Cruz considerava que Trump seria como um carro a alta velocidade sem travões, e que eventualmente acabaria por sair de pista. Nada disso aconteceu e agora assumem a luta de galos.

O Guardian confirma o diagnóstico e diz que esta é, cada vez mais, uma corrida a dois, que sentencia também o ponto final no pacto de não-agressão entre Trump e Cruz. Ainda assim, o diário britânico mantém Marco Rubio e Chris Christie com possibilidades de brigar por qualquer coisa. Já os restantes, Jeb Bush, John Kasich e Ben Carson, terão ficado à margem da alta voltagem do sexto debate republicano.

“Penso que a maioria das pessoas sabe quais são os valores de Nova Iorque… Não são muitos os conservadores que saem de Manhattan”

Os valores conservadores também foram abordados. “Penso que a maioria das pessoas sabe quais são os valores de Nova Iorque… Não são muitos os conservadores que saem de Manhattan”, acusou Ted Cruz. Trump agarrou-se ao 11 de setembro e à forma como os nova-iorquinos deram resposta: “Eles lutaram, lutaram, lutaram. Nós vimos morte, até o cheiro da morte, esteve connosco por meses. Toda a gente do mundo olhou para nós e toda a gente do mundo ama Nova Iorque. Tenho de vos dizer, isso foi uma declaração bastante insultuosa do Ted.”

O New York Times escreveu um texto com os highlights do debate. Sem surpresa, o primeiro da lista é o tal sound bite de Ted Cruz sobre a constituição não ter sido alterada desde setembro. Depois surge o ataque de Jeb Bush a Trump, devido às declarações deste sobre os muçulmanos — o empresário defendeu que “todos os muçulmanos” fossem impedidos de entrar nos EUA. O irmão do ex-presidente norte-americano pediu que Trump reconsiderasse tais argumentos, pois em nada contribuirá para a resolução do problema chamado Estado Islâmico. “Eu quero segurança no meu país. Estou farto de ver o que se está a passar”, defendeu-se Trump.

O NYT destaca depois as tiradas dos candidatos para deixarem água na boca da audiência. “Este individuo [Barack Obama] é uma criança petulante, é o que ele é”, acusou, por exemplo, Chris Christie. Depois chega outra saída de Ted Cruz, que classificou Obama um presidente dos ricos: “Os milionários e os bilionários estão a dar-se bem com Obama”, disse, não sem antes referir-se com ginástica e audácia ao caso dos marinheiros norte-americanos detidos em solo iraniano. Sobre isto, Trump já havia publicado um tweet onde questionava: “Acham que o Irão seria tão duro se fossem marinheiros russos? O nosso país foi humilhado.”

Outro ponto alto do debate para o NYT aconteceu quando Chris Christie interrompeu a troca de argumentos entre Ted Cruz e Marco Rubio, que discutiam reformas ou ideias ao nível fiscal. Rubio tentou depois voltar à questão e responder, mas Christie foi implacável: “Não, já teve a sua oportunidade, Marco. Estragou tudo. A razão para ninguém querer responder à questão é porque é difícil.”

Os candidatos, no entanto, mostraram-se na mesma página quanto à questão das armas, quiçá a bandeira de Barack Obama que voa mais alto atualmente. “Estou convencido de que se o presidente pudesse confiscar todas as armas neste país, era o que ele faria”, disse Rubio. Jeb Bush foi na mesma direção: “O primeiro impulso de Barack Obama e Hillary Clinton é retirar os direitos a quem cumpre a lei.” Trump deixou claro que não apoiaria nenhuma restrição à venda de armas, argumentando que os massacres de Bernardino, na Califórnia, e Paris poderiam ter sido menores se as vítimas andassem armadas.

O Washington Post publicou um texto onde analisa os vencedores e perdedores do debate. Curiosamente, entre os perdedores surgem os moderadores. Juntamente com Neil Cavuto e Maria Bartiromo surgem Ben Carson, o facto de o debate ter ultrapassado as duas horas e a falta de originalidade da roupa usada — “Sete gajos, sete fatos escuros. Seis camisas brancas, quatro gravatas vermelhas, três gravatas azuis.” Do lado dos vencedores descansam Donald Trump e Ted Cruz, a que se juntam o debate com sete pessoas e o intervalo para anúncios televisivos (“Quatro intervalos para anúncios! Okay! A minha bexiga agradece-te, Fox Business”). Resta referir que este texto pertence a Chris Cillizza, do blog “The Fix”, que cobre acontecimentos na Casa Branca.

As primárias do Partido Republicano arrancam em Iowa, no dia 1 de fevereiro, e depois em New Hampshire, a 8 de fevereiro. A corrida, já se viu, está desenhada para dois homens, que já limparam as armas e começam a elevar o tom.

O DEBATE:

https://www.youtube.com/watch?v=ehRCd7f5RJc